{"id":9422,"date":"2024-05-02T23:46:39","date_gmt":"2024-05-03T02:46:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9422"},"modified":"2024-05-02T23:46:59","modified_gmt":"2024-05-03T02:46:59","slug":"o-galo-cantou-errado-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/05\/02\/o-galo-cantou-errado-3\/","title":{"rendered":"O GALO CANTOU ERRADO"},"content":{"rendered":"<p>O feirante-tropeiro saia da sua ro\u00e7a todas as madrugadas de sexta para s\u00e1bado em seus jumentos para vender sua farinha, mantimentos (feij\u00e3o e milho) e beijus na feira da cidade. Tinha que chegar cedo para pegar os primeiros fregueses e n\u00e3o perder para seus concorrentes.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o tinha rel\u00f3gio e r\u00e1dio em seu rancho, sempre se guiava pelo canto do velho galo para percorrer uma dist\u00e2ncia de cerca de 20 a 25 quil\u00f4metros e chegar no hor\u00e1rio. Sempre dava certo no apressar dos passos e chegava \u00e0 cidade ao clarear do dia, na barra dos primeiros raios solares.<\/p>\n<p>Era um bravo trabalhador, de sol a sol, de chuva a chuva que ficou calejado com a seca e com a fome, mas era um zang\u00e3o que n\u00e3o tolerava pilherias com sua pessoa e logo partia para uma briga.\u00a0 Tipo do sujeito cismado. Era parecido com seu Lunga casca grossa, mas, no fundo, tinha um bom cora\u00e7\u00e3o e ajudava muita gente necessitada.<\/p>\n<p>Sempre confiou no despertar do galo da sua mulher, mas teve um dia em que o danado cantou errado. Foi sua senten\u00e7a de morte. Deve ter tido algum pesadelo ou alguma raposa se aproximou do galinheiro. Quem sabe uma galinha n\u00e3o tenha lhe acordado com algum desejo.<\/p>\n<p>Nessa noite de total breu, sem o luar, o guerreiro acordou apressado com o primeiro canto do galo e, todo avexado, mandou seu menino moleque pegar os animais no pasto. O tempo urge!\u00a0 N\u00e3o queria perder suas vendas e deixar de fazer uma boa feira.<\/p>\n<p>Estava mesmo apressado e n\u00e3o parava de reclamar da vida dura que levava, como todo sertanejo nordestino, para ganhar o sustento da casa. A mulher com seu temperamento calmo e paciente, resmungou l\u00e1 de dentro: \u201c\u00cata homem doido! Esse galo cantou errado\u201d!\u00a0 Havia algo esquisito mesmo porque n\u00e3o se ouviu nenhum galo cantar naquelas bandas!<\/p>\n<p>Colocou os arreios nos jumentos e as cargas de farinha, um saco em cada lado da cangalha, cada um pesando cerca de 50 quilos. Era uma viagem cansativa de uma estrada esburacada, com pedregulhos e ladeiras. Todo cuidado era pouco nas subidas e descidas. Quando chovia, \u00e0s vezes tinha jegue que atolava nas po\u00e7as de \u00e1guas. N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil a vida de um roceiro para manter sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Era um sofrimento e, por isso, tinha que sair cedo, mas nesse dia o galo cantou errado. O trabalhador rural percebeu isso logo que passou na porta do vizinho e ainda estava dormindo. Estranhou porque ele tinha rel\u00f3gio e tamb\u00e9m saia na hora certa.<\/p>\n<p>&#8211; Esse miser\u00e1vel do galo cantou errado \u2013 desconfiou o roceiro que come\u00e7ou a cafangar e a xingar o dono do terreiro que lhe orientava em suas jornadas para a feira. N\u00e3o parava de esbravejar e amea\u00e7ar que na volta ia botar aquele galo na panela para ele nunca mais cantar errado.<\/p>\n<p>Ele e seu menino, o tropeiro mirim obediente ao pai e sempre calado para n\u00e3o levar uns tabefes, entraram na cidade ainda no escuro da noite, sem nenhum sinal do amanhecer do dia. Todo mundo ainda dormia em suas casas, nem um latido de cachorro.<\/p>\n<p>Aquilo lhe deixou mais irado ainda e continuava a jogar praga no galo que cantou errado. Fomos os primeiros a entrar na feira. Arriamos as cargas nos couros e o velho sentou nos sacos com uma raiva danada.<\/p>\n<p>Como sempre lev\u00e1vamos uma esteira e outros apetrechos na tropa, o menino aproveitou para tirar um cochilo. Demorou para o alvorecer do dia e aparecer os primeiros fregueses da sua farinha, de qualidade que era de primeira e tinha um diferencial da dos outros feirantes.<\/p>\n<p>Era um produto feito no capricho, com aquele esmero, sequinho e com aquela tapioca por dentro. O comprador passava os dois dedos, como de costume, e saia aquele p\u00f3 branco. Era a melhor farinha das redondezas.<\/p>\n<p>Tudo foi vendido nas primeiras horas, mas o feirante ranzinza n\u00e3o esquecia do galo e disse que ia jog\u00e1-lo na panela quando voltasse para casa. N\u00e3o tinha perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O galo percebeu do sucedido e a dona lhe avisou que o patr\u00e3o ia lhe tirar o couro. Todo cabreiro, o galo sabendo que poderia ir para a panela por ter cantado errado se meteu dentro do mato. Foi uma fuga estrat\u00e9gia e s\u00f3 retornou dois dias depois.<\/p>\n<p>Quando o homem chegou soltando fogo perlas ventas, o galo, para n\u00e3o cair na faca, j\u00e1 tinha pulado fora e se picado para outros cantos. Se meteu nas capoeiras. Deixou a poeira passar e foi chegando de mansinho quando o seu senhor j\u00e1 estava mais calmo e esqueceu do ocorrido.<\/p>\n<p>\u00c9 aquela hist\u00f3ria: A pessoa pode fazer cem por cento certo, mas se errar no um por cento, ou at\u00e9 chegar aos noventa e nove v\u00edrgula nove por cento, n\u00e3o presta e \u00e9 condenado. A vida no seu tempo real \u00e9 sempre assim. O pobre do galo que o diga, pois por pouco n\u00e3o caiu na panela porque somente numa madrugada cantou errado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O feirante-tropeiro saia da sua ro\u00e7a todas as madrugadas de sexta para s\u00e1bado em seus jumentos para vender sua farinha, mantimentos (feij\u00e3o e milho) e beijus na feira da cidade. Tinha que chegar cedo para pegar os primeiros fregueses e n\u00e3o perder para seus concorrentes. 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