{"id":9399,"date":"2024-04-26T22:55:49","date_gmt":"2024-04-27T01:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9399"},"modified":"2024-04-26T22:55:55","modified_gmt":"2024-04-27T01:55:55","slug":"a-mascara-da-africa-ix","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/04\/26\/a-mascara-da-africa-ix\/","title":{"rendered":"&#8220;A M\u00c1SCARA DA \u00c1FRICA&#8221; IX"},"content":{"rendered":"<p>OS CURANDEIROS E MESTRES DAS FLORESTAS<\/p>\n<p>O autor de \u201ca M\u00e1scara da \u00c1frica\u201d, V. S. Naipaul, em sua viagem pelo Gab\u00e3o, entre 2008\/09, quis saber sobre os pigmeus, o pequeno povo, mestres das florestas e descobridores da planta iboga, um alucin\u00f3geno usado nos rituais de inicia\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o s\u00e3o muito respeitados pelas outras tribos.<\/p>\n<p>Para entender mais sobre eles, Naipaul conversou com sua guia Claudine, uma apaixonada pelos pigmeus, que vivia na floresta bem perto deles. Disse que achava ser um horror eles serem considerados sub-humanos e incapacitados e ficarem confinados em reservas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos nenhum respeito por eles, mas recorremos a eles em segredo para nos curarmos\u201d. Disse: \u201cQuanto mais perto ficamos dos pigmeus, mais entendemos que o mundo tem uma alma e uma vida. Tem energia. Os pigmeus s\u00e3o como nossas lembran\u00e7as do passado. Eles det\u00eam o conhecimento do mundo\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com o escritor, os eventos da segunda metade do s\u00e9culo XIX escancararam o continente. No entanto, os pigmeus continuaram apegados \u00e0 floresta, preservando seu conhecimento onde residia sua civiliza\u00e7\u00e3o. Outras tribos perderam muito disso.<\/p>\n<p>No entendimento de Claudine, no mundo m\u00edstico voc\u00ea pode fazer um feiti\u00e7o com a sobra de comida de algu\u00e9m para ferir essa pessoa. E essa pessoa ter\u00e1 de ir correndo ao pigmeu para ter ajuda. Explicou que aqui existem dois tipos de curandeiro, um que lida apenas com a mal\u00e1ria e a gripe e outro que trabalha com problemas maiores, como os feiti\u00e7os. Para esse tipo, \u201ctem que ser o curandeiro mestre\u201d.<\/p>\n<p>Claudine fala tamb\u00e9m da exist\u00eancia de duas tribos no sul do Gab\u00e3o. Uma que lida com as cerim\u00f4nias da inicia\u00e7\u00e3o e os pigmeus que cuidam das plantas, inclusive da iboga. \u201cPor isso se podia dizer que as duas culturas, a dos bantos e a dos pigmeus, tinham se juntado\u201d.<\/p>\n<p>Quanto ao dom da adivinha\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia est\u00e1 na comunica\u00e7\u00e3o com o ancestral, depois de feita a inicia\u00e7\u00e3o. A pessoa s\u00f3 podia aprender sobre sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade atrav\u00e9s do ancestral. Para isso eram necess\u00e1rios o cr\u00e2nio e os ossos do ancestral, n\u00e3o podendo ser de um sacrif\u00edcio ritual qualquer &#8211; ressalta.<\/p>\n<p>\u201cO cr\u00e2nio e os ossos para esse ritual precisavam vir de um anci\u00e3o, que, perto de morrer, dava \u00e0 pessoa permiss\u00e3o de guardar seus ossos como uma rel\u00edquia\u201d.<\/p>\n<p>Sobre a ingest\u00e3o da iboga, Claudine afirma para Naipaul que \u201ca planta \u00e9 muito amarga. A boca e o corpo ficam dormentes, e toda sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 real\u00e7ada. No verdadeiro bwiti (ritual), o ancestral chega \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 e fala uma l\u00edngua antiga que ningu\u00e9m entende. Somente os iniciados do terceiro n\u00edvel conseguem entend\u00ea-lo\u201d.<\/p>\n<p>Outra coisa \u00e9 que para ser um curandeiro \u00e9 preciso ter um ancestral em algum ponto do passado que tenha sido curandeiro. Naipaul perguntou se os pigmeus s\u00e3o felizes. \u201cS\u00e3o felizes e s\u00e3o gentis, mas s\u00e3o uma ra\u00e7a muito prevenida. N\u00e3o confiam com facilidade. Ainda ca\u00e7am \u00e0 noite e agora t\u00eam armas no lugar de armadilhas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs pigmeus acreditam na natureza. Acreditam que procedem da terra e \u00e9 por isso que n\u00e3o querem polu\u00ed-la com os mortos. Eles n\u00e3o enterram os mortos. Quando um mestre morre, eles o envolve numa esteira e coloca o morto sob uma grande \u00e1rvore. Deixam ali para apodrecer e ningu\u00e9m vai \u00e0quele lugar. N\u00e3o v\u00e3o ca\u00e7ar nem coletar alimento ali. Quando a decomposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 completa, colocam os ossos numa tumba e p\u00f5em a \u00e1rea em quarentena\u201d.<\/p>\n<p>No cristianismo eles consideram dif\u00edcil ver Jesus como todo poderoso. Para eles, o poder deve ser distribu\u00eddo entre os chefes. A m\u00e9dia de vida deles \u00e9 de cinquenta anos porque a civiliza\u00e7\u00e3o introduziu neles v\u00e1rias doen\u00e7as, como o HIV.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS CURANDEIROS E MESTRES DAS FLORESTAS O autor de \u201ca M\u00e1scara da \u00c1frica\u201d, V. S. Naipaul, em sua viagem pelo Gab\u00e3o, entre 2008\/09, quis saber sobre os pigmeus, o pequeno povo, mestres das florestas e descobridores da planta iboga, um alucin\u00f3geno usado nos rituais de inicia\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o s\u00e3o muito respeitados pelas outras tribos. 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