{"id":9397,"date":"2024-04-25T23:10:10","date_gmt":"2024-04-26T02:10:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9397"},"modified":"2024-04-25T23:10:24","modified_gmt":"2024-04-26T02:10:24","slug":"o-dia-em-que-o-candomble-nao-entrou-no-bahiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/04\/25\/o-dia-em-que-o-candomble-nao-entrou-no-bahiano\/","title":{"rendered":"O DIA EM QUE  O CANDOMBL\u00c9 N\u00c3O ENTROU NO BAHIANO"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>\u201cAnt\u00f4nio Maria foi, de longe, o maior cronista da noite. Talvez por ser o \u00fanico a compreend\u00ea-la em toda a sua dimens\u00e3o, a se enfronhar para valer naquele novo estilo de vida, t\u00e3o intenso e diferente. Afinal, todos os infort\u00fanios se acumulam e se liquidam nos balc\u00f5es de bar e nas pistas das boates. A noite pede o ombro amigo, o conselho\u201d.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um trecho da apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u201cVento Vadio \u2013 As cr\u00f4nicas de Ant\u00f4nio Maria\u201d (lan\u00e7ado em 2021 pela editora Todavia), feita por Guilherme Tauil, respons\u00e1vel pela pesquisa e organiza\u00e7\u00e3o da colet\u00e2nea. O livro traz 186 cr\u00f4nicas do pernambucano Ant\u00f4nio Maria em 491 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Maria foi tamb\u00e9m um grande compositor: \u201cManh\u00e3 de Carnaval\u201d (com Luis Bonf\u00e1), \u201cSe eu morresse amanh\u00e3 de manh\u00e3\u201d e \u201cMenino Grande\u201d. Um dos seus maiores sucessos foi \u201cNingu\u00e9m me ama\u201d, que, segundo Guilherme Tauil, \u201cvirou o hino da fossa, solicitado em todas as boates, executado em todas as r\u00e1dios.\u201d<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Maria veio para Salvador, no in\u00edcio de 1945, como diretor da R\u00e1dio Sociedade da Bahia, dos Di\u00e1rios Associados, \u201cemissora maior e prestigiosa\u201d, segundo Tauil.<\/p>\n<p>\u201cDe in\u00edcio, morou numa pens\u00e3o no largo Dois de Julho, pr\u00f3ximo \u00e0 sede da r\u00e1dio, na rua Carlos Gomes \u2013 por onde muitas vezes foi visto andando de roup\u00e3o. Reformulou toda a programa\u00e7\u00e3o e elaborou concursos de m\u00fasica popular para cantores e compositores. Nomes como os dos sambistas Riach\u00e3o e Batatinha, este batizado pelo pr\u00f3prio Maria, despontaram ali\u201d, diz Tauil. Em 1947, ainda por aqui, passou a publicar no Di\u00e1rio de Not\u00edcias uma coluna sobre futebol, \u201cO coment\u00e1rio de Ant\u00f4nio Maria\u201d. Em abril de 1948, Ant\u00f4nio Maria \u00e9 transferido para o Rio, para arrumar a dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica de duas emissoras: a r\u00e1dio Tupi e a Tamoio.<\/p>\n<p>Guilherme Tauil selecionou cinco cr\u00f4nicas de Ant\u00f4nio Maria sobre a Bahia. Numa delas, \u201cUm bot\u00e3o de rosa para Maria de S\u00e3o Pedro\u201d (O Globo, 04\/06\/1958), ele fala de duas cozinheiras baianas, duas Marias. A primeira, \u201csimplesmente Maria, que parava ali na varanda do Tabaris, ao lado do antigo Cine Guarani, com vista debru\u00e7ada para a Barroqinha. Nosso ponto de encontro, quando deix\u00e1vamos o est\u00fadio da R\u00e1dio Sociedade e a reda\u00e7\u00e3o do Di\u00e1rio de Not\u00edcias. Era 1945 e nossa alma estava repleta de sonhos \u2013 sonhos que, ao menos eu, n\u00e3o sonharia hoje, t\u00e3o velho que estou, ao peso do desencanto. Sonh\u00e1vamos o povo livre, a verdade e as virtudes dos l\u00edderes. Quando morreria o \u00faltimo tirano fascista?\u201d<\/p>\n<p>\u201cEra o tabuleiro de Maria \u2013 Maria simplesmente. Gorda, de ancas sedent\u00e1rias e seios maternais. Dava um tamborete, depois um prato a cada um. Deitava uma concha de camar\u00e3o, outra de arroz e um ovo cozido no molho oleoso de coco e dend\u00ea. N\u00e3o me lembro de comida t\u00e3o gostosa em toda a minha gorda exist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>A outra \u00e9 Maria de S\u00e3o Pedro, no Mercado Modelo, que Ant\u00f4nio Maria homenageou assim, ap\u00f3s a morte dela: \u201cMaria fez, com o seu dend\u00ea, o que faz Caymmi em sua can\u00e7\u00e3o, Pancetti em sua tinta, Jorge Amado em seu romance, Marta Rocha em seus olhos azuis\u201d.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cBahia, candombl\u00e9s e pais de santo\u201d (Manchete, 18\/04\/1953), Ant\u00f4nio Maria fala da sra. Berle, embaixatriz dos Estados Unidos no Brasil, que chegou a Salvador e desejava conhecer um terreiro de Candombl\u00e9. Como chovia muito nesse dia e o acesso aos principais terreiros estava dif\u00edcil, ela \u201crecolhera-se ao hotel e pedira, se poss\u00edvel fosse, que organizassem uma macumba completa nos sal\u00f5es do Bahiano de T\u00eanis ou da Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse capricho da sra. Berle feriu os brios de todos os pais de santo da Bahia, que se negaram a deixar seus terreiros e transformar sua religi\u00e3o em show para americano achar gra\u00e7a\u201d, diz Ant\u00f4nio Maria e prossegue: \u201cTamb\u00e9m a sociedade, as fam\u00edlias \u2018de bem\u2019 da Gra\u00e7a e da Barra, protestaram contra a possiblidade de trazer mandinga, cantoria e suor<\/p>\n<p>de negro para os sal\u00f5es, onde os seus longos vestidos alisavam o assoalho, ao som de valsas e de blues. A visitante foi embora sem ver candombl\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Maria \u00e9, sem d\u00favida, um dos melhores cronistas do Brasil. Luis Fernando Verissimo disse sobre Maria: \u201cEle fazia a cr\u00f4nica l\u00edrica e liter\u00e1ria dos outros, mas fazia humor superior. Como, por exemplo, aquele bilhete que deixou para o amigo em seu apartamento: \u201cSe voc\u00ea me encontrar dormindo, deixe. Morto, acorde-me\u201d. Ningu\u00e9m acordou Ant\u00f4nio Maria na madrugada de 15 de outubro de 1964, quando, aos 43 anos, teve um infarto fulminante ap\u00f3s trocar um cheque no restaurante Le Rond Point, em Copacabana.<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>e<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) \u201cAnt\u00f4nio Maria foi, de longe, o maior cronista da noite. Talvez por ser o \u00fanico a compreend\u00ea-la em toda a sua dimens\u00e3o, a se enfronhar para valer naquele novo estilo de vida, t\u00e3o intenso e diferente. 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