{"id":9366,"date":"2024-04-17T22:28:21","date_gmt":"2024-04-18T01:28:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9366"},"modified":"2024-04-17T22:38:46","modified_gmt":"2024-04-18T01:38:46","slug":"como-eram-as-paqueras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/04\/17\/como-eram-as-paqueras\/","title":{"rendered":"COMO ERAM AS PAQUERAS"},"content":{"rendered":"<p>Pelos idos dos anos 60 e 70, as paqueras rolavam mais descontra\u00eddas, se bem que tinham tamb\u00e9m seus limites para avan\u00e7ar. N\u00e3o havia aquela preocupa\u00e7\u00e3o de hoje em ser classificado no rol da importuna\u00e7\u00e3o e do ass\u00e9dio sexual. Existia aquele neg\u00f3cio do psiu, oi beleza, bom dia, boa tarde e boa noite, coisa linda e at\u00e9 saia o \u201cgostosa!\u201d, com cantadas hoje considerados cafonas.<\/p>\n<p>Me lembro bem dos anos 70, em Salvador, estudante sem dinheiro, lascado mesmo, que morava na Resid\u00eancia Universit\u00e1ria da Ufba. Era um tanto t\u00edmido, rec\u00e9m-sa\u00eddo do semin\u00e1rio e vindo do interior, sem traquejo e jeito para lidar com as \u201cminas\u201d. Havia at\u00e9 mulher que me dava bandeira e perdia com receio de chegar junto.<\/p>\n<p>Nas tardes de domingo ia com um colega ao Campo Grande para paquerar as empregadas dom\u00e9sticas que, de forma politicamente incorreta e depreciativa, as chamavam de \u201cgraxeiras\u201d. Coisa horrorosa! Outras vezes era na Barra ou Rio Vermelho. Para n\u00f3s eram pontos estrat\u00e9gicos em finais de semana.<\/p>\n<p>A gente fazia at\u00e9 umas \u201cpegadinhas\u201d com uns caras chatos, simulando uma liga\u00e7\u00e3o de que tinha uma garota lhe esperando em tal lugar, s\u00f3 que era uma arma\u00e7\u00e3o. O sujeito virava o \u201cbicho\u201d e nos xingava. Sem grana no bolso, quase todo mundo vivia na \u201csequid\u00e3o sexual\u201d, como se falava no popular.<\/p>\n<p>At\u00e9 parece que elas nos esperavam, sozinhas ou acompanhadas nos bancos das pra\u00e7as. As inten\u00e7\u00f5es pareciam as mesmas: Dar uns agarros, umas namoradas e contar mentiras sobre o nome e onde morava. Elas eram bem arrumadinhas e simples, com aquelas col\u00f4nias antigas e vestidos de bolinhas ou chitas. A grande maioria tinha origens interioranas.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea fica com aquela e eu fico com a outra. Tudo bem, sem brigas na divis\u00e3o. Qualquer coisa servia. Bom dia ou boa tarde, o dia est\u00e1 lindo, qual seu nome e voc\u00ea \u00e9 donde? Eram os primeiros papos para engatar uma conversa e, com muita demora, pegar na m\u00e3o e ir escorregando para outras partes do corpo. &#8211; N\u00e3o venha com sua m\u00e3o boba \u2013 repelia a mo\u00e7a, mas depois deixava! Beijos quentes e grudados!<\/p>\n<p>Tinham os mais atrevidos e extrovertidos que iam mais diretos. No meu caso sentia at\u00e9 medo de tomar um fora. Como disse antes, n\u00e3o levava jeito, mas dava para o gasto. Muitas vezes chegava aos beijos e apertos, com aquele fogo todo que o \u201cdanado\u201d l\u00e1 dentro ficava todo excitado. N\u00e3o importava se era menina, coroa e nem ligava para a cor da pele. Aconteciam coisas hil\u00e1rias. Dificilmente se pegava um g\u00eanero errado. Nada de papo dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Outras vezes ia ali para o Gabinete Portugu\u00eas de Leitura, na Piedade, com um amigo e ficava de butuca de olho numa mulher, fazendo de conta que estava lendo ou pesquisando alguma coisa. Tinham os hor\u00e1rios e dias certos das paqueras.<\/p>\n<p>Quando pintava uma boa, n\u00e3o dava para levar num bar e restaurante por causa da conta. Entrava o \u201cjogo de cintura\u201d para dar uma desculpa. No caso de duas juntas, \u00e0s vezes voc\u00ea queria uma, mas era a outra que estava de olho no paquerador. Na base do bilhetinho escondido, dava para pegar as duas, num outro encontro.<\/p>\n<p>Nos bares, quando conseguia botar um dinheirinho no bolso, fic\u00e1vamos na espreita tomando umas cacha\u00e7as para esquentar, mas, as mulheres pouco frequentavam esses lugares, principalmente sozinhas, no m\u00e1ximo acompanhadas. N\u00e3o dava muito reague, como se dizia no popular.<\/p>\n<p>Nas festinhas de radiolas (os assustados) ou nos eventos de ruas, t\u00ednhamos que tomar umas quentes para ter coragem e chegar at\u00e9 a \u201cmina\u201d. Muitas vezes era mais paquerado do que paquerador. Ainda valia o olhar, como sinal de que a mulher estava a fim de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Na maioria, arranj\u00e1vamos uma namorada, mas n\u00e3o tinha muita op\u00e7\u00e3o de lugar para levar, a n\u00e3o ser aqueles com alguma grana na carteira. Geralmente os namoros de esfrega-esfrega eram nos cantos, becos e nos escondidos. N\u00e3o existia tanta viol\u00eancia naquela \u00e9poca e, na hora do vamos ver, nem estava a\u00ed para ningu\u00e9m. Vida de pobre era assim e a \u201cca\u00e7a\u201d era escassa.<\/p>\n<p>Naqueles tempos os jovens, mesmo com mais dificuldades para a sobreviv\u00eancia e sem muitas alternativas, eram mais alegres, divertidos e com amizades sinceras, sem essas frescuras de traumas por causa de apelidos e goza\u00e7\u00f5es uns com os outros.<\/p>\n<p>Hoje s\u00e3o mais estressados, fechados e reclusos com seus celulares grudados nas m\u00e3os. D\u00e3o poucas import\u00e2ncias \u00e0s fam\u00edlias e passam mais o tempo trancados em seus quartos. S\u00e3o menos soci\u00e1veis e nem respeitam mais os idosos, quanto mais os pais.<\/p>\n<p>Com esse pavor de tudo ser considerado como ass\u00e9dio sexual, n\u00e3o se \u201cbole\u201d mais com as \u201cminas\u201d nas ruas e lugares fechados, embora as mulheres sejam mais independentes e frequentem mais bares, restaurantes e festas sozinhas. As pessoas ficaram mais arredias e se sentem vigiadas pelas c\u00e2maras. \u00c9 aquela coisa de cada um ficar na sua.<\/p>\n<p>Bons tempos daquelas paqueras de antigamente com frases hoje tidas como cascas grossas, mas quando dava certo, os papos tinham mais conte\u00fados. Hoje s\u00f3 saem besteir\u00f3is. As conquistas eram mais \u201csuadas\u201d e, na maioria, as paqueras terminavam em casamentos duradouros.<\/p>\n<p>Muitas coisas ocorriam tamb\u00e9m nos transportes p\u00fablicos, nos \u00f4nibus, kombis, mas poucos tinham telefones para marcar os pr\u00f3ximos encontros. Tudo tinha que ser resolvido na hora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelos idos dos anos 60 e 70, as paqueras rolavam mais descontra\u00eddas, se bem que tinham tamb\u00e9m seus limites para avan\u00e7ar. N\u00e3o havia aquela preocupa\u00e7\u00e3o de hoje em ser classificado no rol da importuna\u00e7\u00e3o e do ass\u00e9dio sexual. 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