{"id":9358,"date":"2024-04-12T22:53:51","date_gmt":"2024-04-13T01:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9358"},"modified":"2024-04-12T22:53:58","modified_gmt":"2024-04-13T01:53:58","slug":"a-mascara-da-africa-vii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/04\/12\/a-mascara-da-africa-vii\/","title":{"rendered":"&#8220;A M\u00c1SCARA DA \u00c1FRICA&#8221; VII"},"content":{"rendered":"<p>Ainda em sua viagem ao Gab\u00e3o, pelos idos de 2008\/09, a terra dos mestres da floresta, os pigmeus, V. S. Naipaul observou que \u201cqualquer que fosse a religi\u00e3o formal professada pela fam\u00edlia (crist\u00e3, no caso) havia aqueles antigos costumes africanos que tinham de ser honrados e que eram talvez mais prementes do que a f\u00e9 exterior formal\u201d.<\/p>\n<p>Ele conversou com seu amigo Rossatanga-Rignault que contou a hist\u00f3ria dos quatros macacos sentados num cemit\u00e9rio com faixas vermelhas nas testas. \u201c O vermelho \u00e9 uma cor muito poderosa do Gab\u00e3o. Estavam perdidos e, por fim, encontraram o caminho de volta para a aldeia.<\/p>\n<p>Por falar em aldeia, Rossatanga diz que, levado pela sua m\u00e3e, quis fugir dela. Lembra que, quando chegaram l\u00e1, um homem lhes disse que n\u00e3o jogassem lixo, nem qualquer outro elemento poluente, no c\u00f3rrego que passava pela aldeia. Um esp\u00edrito ou g\u00eanio vivia ali e n\u00e3o gostava que o c\u00f3rrego ficasse sujo. Um americano afirmou que aquilo era magia negra e, para provar sua tese, cuspiu no c\u00f3rrego.<\/p>\n<p>Rossatanga narrou para Naipaul que dez minutos depois n\u00e3o havia mais \u00e1gua ali, e o povo gritou e protestou. A aldeia ficou em p\u00e9 de guerra. \u201cTivemos que fazer um monte de coisas por meio do curandeiro local para aplacar o g\u00eanio do esp\u00edrito\u201d. Assinala que \u201cgastamos muito dinheiro e, depois de v\u00e1rias cerim\u00f4nias e rituais, a \u00e1gua voltou depressa\u201d.<\/p>\n<p>Rossatanga se tornara um crente na magia da floresta e, como outros crentes, tinha diversas hist\u00f3rias para provar sua tese. Ele descreve outra passagem sobre uma ponte que tinham que fazer no rio e que a comunidade alertou para que os engenheiros pedissem permiss\u00e3o ao g\u00eanio.<\/p>\n<p>Os engenheiros holandeses apenas riram daquilo. \u201cTodos os dias morria um oper\u00e1rio na obra. As pessoas ficaram muito assustadas e at\u00e9 mesmo os engenheiros acharam que deviam suspender o trabalho. Disseram que iam trazer um exorcista junto com o curandeiro local para aplacar o g\u00eanio. Executaram diversos rituais e, finalmente, tiveram licen\u00e7a para construir a ponte\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAcredito que esses esp\u00edritos da floresta est\u00e3o ligados \u00e0 psique do nosso povo, mesmo das pessoas que vivem na cidade. Essa \u00e9 uma raz\u00e3o pela qual as igrejas evang\u00e9licas americanas tiveram tanto sucesso aqui. Elas tamb\u00e9m invocam o esp\u00edrito do Senhor para remover o mal. \u00c9 parecido com o que fazemos quando vamos ao curandeiro para remover o mal. O princ\u00edpio \u00e9 o mesmo. O ponto comum \u00e9 o esp\u00edrito\u201d- comentou Rossatanga.<\/p>\n<p>Para ele, n\u00e3o se trata de uma religi\u00e3o, mas de uma cren\u00e7a. Em sua compara\u00e7\u00e3o, a cren\u00e7a da floresta, o mundo org\u00e2nico, o mundo que conta, \u00e9 como uma pir\u00e2mide. \u201cO primeiro n\u00edvel s\u00e3o os minerais, o segundo n\u00edvel s\u00e3o as \u00e1rvores e a flora, o terceiro s\u00e3o os animais e o quarto s\u00e3o os seres humanos\u201d.<\/p>\n<p>Em falando dos idosos, em seu entendimento, s\u00e3o especiais porque t\u00eam o poder e est\u00e3o pr\u00f3ximos aos ancestrais. Somente os ancestrais podem anteceder junto a Deus. \u201cCada fam\u00edlia tem um anci\u00e3o que consegue falar com o ancestral. Em cada fam\u00edlia existe um homem escolhido para a fun\u00e7\u00e3o. O modo de cultuar \u00e9 atrav\u00e9s da inicia\u00e7\u00e3o, um rito e uma pr\u00e1tica fundamental\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda em sua viagem ao Gab\u00e3o, pelos idos de 2008\/09, a terra dos mestres da floresta, os pigmeus, V. S. 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