{"id":9355,"date":"2024-04-11T23:32:20","date_gmt":"2024-04-12T02:32:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9355"},"modified":"2024-04-11T23:32:30","modified_gmt":"2024-04-12T02:32:30","slug":"campo-grande-praca-da-se-um-trajeto-de-lembrancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/04\/11\/campo-grande-praca-da-se-um-trajeto-de-lembrancas\/","title":{"rendered":"CAMPO GRANDE-PRA\u00c7A DA S\u00c9, UM TRAJETO DE LEMBRAN\u00c7AS"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Republicar cr\u00f4nica \u00e9 igual a caf\u00e9 requentado, mas essa que reproduzo hoje, pulicada no jornal \u201cA Tarde\u201d em 22\/8\/1990, ainda conserva um bom gostinho. Vamos a ela:<\/p>\n<p>Sem pegar o \u00f4nibus circular, mas andando no bonde da lembran\u00e7a, fa\u00e7o um percurso do Grande Grande \u00e0 S\u00e9, uma trajet\u00f3ria de inf\u00e2ncia, amor e f\u00e9.<\/p>\n<p>No Campo Grande vejo as tardes fogosas do Dois de Julho, quando as meninas rec\u00e9m-tomadas banho balan\u00e7avam os rabos-de-cavalo dentro de meus olhos. Zez\u00e9u, um candidato, pertencia a uma turma do Campo Grande e um dia quase brigamos com eles. Coisa de turma de rua, onde qualquer assobio errado era motivo de chamar pra porrada.<\/p>\n<p>Muita coisa ainda vem do Campo Grande, como as festas dan\u00e7antes do Cruz Vermelha ou a cerveja no \u201cBrasa\u201d, mas j\u00e1 estou passando pelo Forte S\u00e3o Pedro, onde a feira mudou pro outro lado. J\u00e1 n\u00e3o se trope\u00e7a mais em peixe, e foi ali uma vez que comprei carne de cavalo por carne-de-sol. Quando botei na frigideira espumou tudo. Vem a antiga Manon \u2013 onde se tomava um suco de laranja de madrugada, era um acontecimento \u2013 e chego perto da Merc\u00eas, defronte ao 239, velho pensionato onde cheguei com seis anos e acordava com os primeiros bondes. Dobrando uma esquina ca\u00eda no Politeama, bom lugar pro \u201cbaba\u201d e onde uma vez quase ganhamos pra \u201cEscolinha\u201d, time que tinha o futuro Andr\u00e9 Catimba, j\u00e1 catimbeiro.<\/p>\n<p>Aproxima-se o Ros\u00e1rio, que, talvez por ser pequeno, sempre achei um trecho tranquilo. A maior lembran\u00e7a do Ros\u00e1rio \u00e9 a banca de ma\u00e7\u00e3 na esquina. Logo adiante, o Clube Comercial, de grandes festas, cora\u00e7\u00e3o palpitante ao dan\u00e7ar com as primas que me ensinavam os primeiros passos. Festa de radiola, parou, tem que virar o disco.<\/p>\n<p>L\u00e1 vem a Piedade. Um pouco antes dela, a Igreja de S\u00e3o Pedro, em cuja esquina comprava os \u201ccatecismos\u201d de Z\u00e9firo, um delicioso pecado mortal. A turma da Piedade, \u00e0 qual pertencia meu irm\u00e3o mais velho, Luiz, e eu nem podia chegar perto: \u201cV\u00e1 pra casa que t\u00e1 na hora\u201d. Boa de briga, a turma da Piedade acontecia no clube Fantoches, mas aprontava mesmo era s\u00e1bado de noite e domingo de tarde, na pr\u00f3pria pra\u00e7a. Muitos da turma j\u00e1 eram conhecidos dos policiais: \u201cVoc\u00ea de novo!\u201d<\/p>\n<p>Instituto Hist\u00f3rico, onde fazia pesquisas \u00e0s 2 horas da tarde, morrendo de sono. Um pouco adiante, a loja das \u201cMil Meias\u201d, um nome mais ou menos assim, e ent\u00e3o a esquina da \u201cPrimavera\u201d, sorvete da Kombi do sino. Exatamente defronte \u00e0 Florensilva, do lado de c\u00e1, um murinho que sempre teve encanador.<\/p>\n<p>Defronte ao Rel\u00f3gio de S\u00e3o Pedro a pens\u00e3o de Dona Quinquinha, grande escadaria que nos levava em cheio a um quadro de Iemanj\u00e1. Eu j\u00e1 acordava no cora\u00e7\u00e3o da cidade. Era escovar os dentes, descer e entrar no ritmo. Foi ali, perto do Rel\u00f3gio, que brilhou uma namorada de Carnaval.<\/p>\n<p>Antes de pegar o caminho do S\u00e3o Bento, uma paradinha junto a um banco em volta da \u00e1rvore. Ali ficava o velho que nos vendia peda\u00e7os de filme para olhar de mon\u00f3culo.<\/p>\n<p>Rua do Para\u00edso, onde trabalhei na Tipografia S\u00e3o Bento, dobrando folhas de missal, e depois o Gin\u00e1sio de S\u00e3o Bento, onde fiquei cinco anos, sendo um do antigo quinto ano com \u201cprova de admiss\u00e3o\u201d. V\u00eam as imagens do gin\u00e1sio: jambo roubado, tamarindo, o \u201cbaba\u201d de tarde, a coca sorvida de um s\u00f3 gole e o quebra-queixo comprado na Avenida Sete para distrair a fome.<\/p>\n<p>Des\u00e7o a Ladeira de S\u00e3o Bento e sinto medo de cair no ch\u00e3o, empurrado pelos foli\u00f5es do primeiro trio el\u00e9trico que vi. J\u00e1 contaminado, fazer o bal\u00e3o na Carlos Gomes e depois voltar com o trio at\u00e9 os Aflitos, suado e feliz. O Campo Grande leva o Carnaval e a Carlos Gomes traz de volta. Antes, sub\u00edamos at\u00e9 a S\u00e9.<\/p>\n<p>Sempre pensei no dia em que aquelas bolas do Edif\u00edcio Sulacap iam descer a Ladeira da Montanha. A lembran\u00e7a do pastel chin\u00eas no in\u00edcio da Carlos Gomes e da \u201cWinchester\u201d, loja de armas, ambos destru\u00eddos para alargar a rua. A Montanha dos primeiros amores, o caminh\u00e3o que servia comida na madrugada (grande lombo!) e os camel\u00f4s do peixe-el\u00e9trico. Poucos, na verdade, poucos mendigos.<\/p>\n<p>Logo depois vinha o pr\u00e9dio de \u201cA Tarde\u201d. Ainda n\u00e3o sabia o trabalho que dava para produzir not\u00edcia e nem que um dia ia para dentro dela. Achava bonito aqueles caras de papel na m\u00e3o e sempre agitados. Subo a Ajuda jogando as pernas devagar, escorregando nas lembran\u00e7as. Ali\u00e1s, ali sempre tinha um pouco de \u00e1gua escorrendo de algum lugar.<\/p>\n<p>Lembro do primeiro \u00f4nibus \u201cfresc\u00e3o\u201d que a Vibemsa colocou e da rodomo\u00e7a falando pelo microfone, l\u00e1 na Vit\u00f3ria: \u201cSenhores passageiros, bom dia. Os senhores est\u00e3o a bordo de uma rodonave da Vibemsa que dever\u00e1 fazer o percurso Barra-Pra\u00e7a da S\u00e9 em aproximadamente 15 minutos. Boa viagem!\u201d. Voc\u00ea se sentia num Boeing.<\/p>\n<p>Vejo a padaria onde comprava doce de jenipapo em tirinhas e vai chegando a Pra\u00e7a da S\u00e9, Bar Brasil, Cine Exc\u00e9lsior, amendoim torrado com areia, laranja descascada, abar\u00e1 azedo, m\u00fasica alta e meu \u00f4nibus chegando.<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Republicar cr\u00f4nica \u00e9 igual a caf\u00e9 requentado, mas essa que reproduzo hoje, pulicada no jornal \u201cA Tarde\u201d em 22\/8\/1990, ainda conserva um bom gostinho. 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