{"id":9210,"date":"2024-03-08T22:20:48","date_gmt":"2024-03-09T01:20:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9210"},"modified":"2024-03-08T22:21:37","modified_gmt":"2024-03-09T01:21:37","slug":"a-mascara-da-africa-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/03\/08\/a-mascara-da-africa-iii\/","title":{"rendered":"&#8220;A M\u00c1SCARA DA \u00c1FRICA&#8221; III"},"content":{"rendered":"<p>A obra do escritor V. S. Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, \u00e9 um relato de suas viagens por v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica, como Uganda, Nig\u00e9ria, Gana, Costa do Marfim e \u00c1frica do Sul, num estilo de reportagem jornal\u00edstica onde ele vai narrando detalhes geogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos pelos lugares visitados (santu\u00e1rios, pal\u00e1cios e cidades) atrav\u00e9s de di\u00e1logos com seus guias e pessoas comuns, chefes de aldeias, babala\u00f4s, sacerdotes, adivinhos e outras personagens.<\/p>\n<p>Ele ouve relatos desses povos que perderam parte de suas culturas tradicionais, seus ritos e ancestralidades com a coloniza\u00e7\u00e3o e a chegada de religi\u00f5es estrangeiras, principalmente do cristianismo (evang\u00e9licos, anglicanos, presbiterianos e cat\u00f3licos) e o islamismo introduzido pelos \u00e1rabes. Suas viagens ocorreram entre os anos 2008 e 2009 numa \u00c1frica j\u00e1 \u201cmoderna\u201d, contaminada pelo progresso.<\/p>\n<p>Vamos prosseguir com a conversa de Naipaul com Adesina, um executivo financeiro, na Nig\u00e9ria. \u00a0Sobre um babala\u00f4, Adesina conta que era um homem educado que conheceu a B\u00edblia e o Cor\u00e3o. \u201cEsse homem me disse que existiam tr\u00eas l\u00ednguas astrais superiores, o hebraico, o \u00e1rabe e o iorub\u00e1. Se voc\u00ea se aprofundar no Cor\u00e3o vai ver que o If\u00e1 se originou em Meca. Os iorub\u00e1s s\u00e3o \u00e1rabes da tribo Yahula\u201d.<\/p>\n<p>Adesina era muito entendido em c\u00e1lculos, log\u00edstica e estrat\u00e9gia. Segundo Naipaul, ele era pessimista em todos os aspectos acerca da Nig\u00e9ria. Falava dos pobres que em alguns distritos bebiam \u201c\u00e1gua de eros\u00e3o\u201d e de quartos onde dormiam nove pessoas.<\/p>\n<p>De acordo com o escritor, Adesina sentia que agora a Nig\u00e9ria estava pagando o pre\u00e7o por sua hist\u00f3ria colonial. \u201cOs franceses quiseram fragmentar a regi\u00e3o em setores menores. Os brit\u00e2nicos lidaram conosco de um modo regional. N\u00e3o existiam nigerianos no centro. Quando vieram n\u00e3o tinham ideia como governar\u201d.<\/p>\n<p>Conta que os mission\u00e1rios nunca tiveram permiss\u00e3o para irem para o norte porque l\u00e1 era dominado pelos mu\u00e7ulmanos e \u201ctodos \u00e9ramos governados pelo tribalismo\u201d. Cada partido pol\u00edtico era regional. Uma forma de democracia parlamentarista brit\u00e2nico aumentou a confus\u00e3o depois da independ\u00eancia. \u201cTivemos ent\u00e3o a guerra da Biafra e os golpes de Estado. Os presidentes surgiram por acidentes e n\u00e3o estavam preparados\u201d.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, n\u00e3o existe boom nigeriano, julgado pelo PIB e pela renda do trabalhador subalterno. A maioria gosta de ter seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio, mas nas fazendas o que h\u00e1 \u00e9 agricultura de subsist\u00eancia. Oitenta por cento da terra n\u00e3o \u00e9 cultivada. N\u00e3o \u00e9 agricultura mecanizada e n\u00e3o t\u00eam carne alguma, a n\u00e3o ser coelhos capturados.<\/p>\n<p>Quanto aos pol\u00edticos, disse que estavam por dinheiro, como em nosso Brasil. At\u00e9 mesmo a velha religi\u00e3o era arrastada para dentro e esculhambada pelos pol\u00edticos. Naipaul descreve sobre as favelas de Lagos em sua visita, especialmente num dia de chuva. Os bueiros transbordavam. A enchente tinha limpado as sarjetas, formando uma confus\u00e3o escura indescrit\u00edvel, acrescentando garrafas de pl\u00e1sticos e outros dejetos. At\u00e9 parece que ele estava escrevendo sobre as periferias brasileiras.<\/p>\n<p>Naipaul continua descrevendo um cen\u00e1rio degradante de vendedores de comida em meio a enxurradas, pr\u00e9dios encharcados e apodrecendo, esfuma\u00e7ados como se tivessem fogo l\u00e1 dentro. \u201cOs vereadores eram acostumados a andar entre os pobres de Lagos, mas julgavam que nada podiam fazer em torno do c\u00f3rrego. As pessoas n\u00e3o gostavam de mandar os filhos para a escola. Preferiam mand\u00e1-los para as ruas a fim de vender coisas para aumentar a renda das fam\u00edlias\u201d.<\/p>\n<p>Segundo um vereador, o isl\u00e3 permite quatro esposas e os cat\u00f3licos n\u00e3o praticam o controle da natalidade, \u201ce o senhor sabe que os nigerianos s\u00e3o um povo muito religioso. Com a explos\u00e3o populacional vem a apatia\u201d. Pelas estradas v\u00e1rias igrejas de nomes pomposos, como Montanha de Fogo, Igreja Redimida de Deus, Igreja Apost\u00f3lica de Cristo e tantas outras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra do escritor V. S. Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, \u00e9 um relato de suas viagens por v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1frica, como Uganda, Nig\u00e9ria, Gana, Costa do Marfim e \u00c1frica do Sul, num estilo de reportagem jornal\u00edstica onde ele vai narrando detalhes geogr\u00e1ficos e hist\u00f3ricos pelos lugares visitados (santu\u00e1rios, pal\u00e1cios e cidades) atrav\u00e9s [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9210"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9210"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9211,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9210\/revisions\/9211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}