{"id":9165,"date":"2024-02-23T23:29:12","date_gmt":"2024-02-24T02:29:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9165"},"modified":"2024-02-23T23:29:18","modified_gmt":"2024-02-24T02:29:18","slug":"a-mascara-da-africa-vislumbres-das-crencas-africanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/02\/23\/a-mascara-da-africa-vislumbres-das-crencas-africanas\/","title":{"rendered":"&#8220;A M\u00c1SCARA DA \u00c1FRICA-VISLUMBRES DAS CREN\u00c7AS AFRICANAS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>OS REIS OU OS KABAKAS (CHEFES) CRUEIS DE UGANDA (BUGANDA) DO POVO BAGANDA DO S\u00c9CULO XIX, A CULTURA TRADICIONAL DO CULTO AOS ESP\u00cdRITOS ANCESTRAIS, OS SACRIF\u00cdCIOS HUMANOS E A INVS\u00c3O DAS RELIGI\u00d5ES ESTRANGEIRAS (O CRISTIANISMO E O ISLAMISMO).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7192.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9166\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7192.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7192.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7192-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O Pr\u00eamio Nobel de literatura de 2021, V. S. Naipaul, que escreveu \u201cA M\u00e1scara da \u00c1frica\u201d empreendeu uma viagem pelo continente em 1966 (revisitada 40 anos depois) e sentiu as mudan\u00e7as, resultantes do progresso e da influ\u00eancia exercida pelo mundo exterior. Uganda virou uma bagun\u00e7a e aumentou consideravelmente a pobreza e a mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mesmo expostos \u00e0s grandes religi\u00f5es do cristianismo e do islamismo, o sistema antigo de cren\u00e7as, herdadas dos antepassados, ainda persistem. De Uganda, depois de mais de 40 anos, o escritor passou pela Nig\u00e9ria, Gana, Costa do Marfim, Gab\u00e3o e \u00c1frica do Sul, entre 2008 e 2009, visitando locais sagrados e conversando com intelectuais, autoridades pol\u00edticas, chefes religiosos e pessoas comuns.<\/p>\n<p>Em sua observa\u00e7\u00e3o, constatou que ainda existem os la\u00e7os que vinculam \u00e0s cren\u00e7as e pr\u00e1ticas religiosas ancestrais. Neste livro, Naipaul, nascido na ilha de Trinidad, em 1932, graduado na Universidade de Oxford, nos oferece um amplo panorama dos dilemas enfrentados pela \u00c1frica de hoje. Seu romance mais famoso foi \u201cUma Casa para o Sr. Biswas\u201d, escrito em 1961. Vale a pena viajar nas obras desse escritor.<\/p>\n<p>\u201cA Tumba de Kasubi\u201d \u00e9 o primeiro cap\u00edtulo da obra \u201cA M\u00e1scara da \u00c1frica\u201d onde ele descreve sobre os kabakas cru\u00e9is Sunna e seu filho Mutesa, passando por Idi Amim, entre 1971 at\u00e9 1979 (dizem que matou mais de 150 mil pessoas), e pelo governo do feroz Milton Obete, de 1981 a 1985. Entre 2008 e 2009, apesar do deslocamento de 1,5 milh\u00e3o de pessoas e da epidemia da aids ainda havia 30 a 40 milh\u00f5es de habitantes vivendo em Uganda (Buganda).<\/p>\n<p>Nesse cap\u00edtulo \u201cA Tumba de Kasubi\u201d, vamos falar um pouco de Sunna e Mutesa, bem como das mudan\u00e7as com a invas\u00e3o das religi\u00f5es estrangeiras (anglicana, a presbiteriana e o isl\u00e3) que chegaram prometendo a vida al\u00e9m da morte, enquanto o povo tradicional praticava a cultura de venerar os esp\u00edritos ancestrais que viviam nas florestas e eram seus guias. Foi a\u00ed que Uganda se deteriorou.<\/p>\n<p>Em sua viagem por Uganda, Naipaul fala do kabaka Sunna, do meado do s\u00e9culo XIX, conhecido pela sua grande crueldade, e a chegada dos \u00e1rabes que espalharam o islamismo. Depois vieram as igrejas eclesi\u00e1sticas narradas pelo escritor, em 2008\/09. \u201cNas \u00e1reas nobres superconstru\u00eddas havia estruturas crist\u00e3s \u201cevang\u00e9licas\u201d. Tamb\u00e9m havia mesquitas concorrentes de v\u00e1rios tipos, como sunitas, xiitas e ismaelitas\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7198.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9167\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7198.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7198.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/DSC_7198-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>De acordo com Naipaul, at\u00e9 os anos 1840, Uganda tinha ficado isolada, vivendo para si mesma, at\u00e9 a chegada dos mercadores \u00e1rabes que foram bem acolhidos por Sunna. Seu filho sucessor Mutesa, que chegou a receber o explorador John Hanning Speke, em 1861\/62, era t\u00e3o cruel quanto o pai.<\/p>\n<p>Speke presenteou o kabaka com armas, b\u00fassola, espelho e outros instrumentos, mas o povo baganda, com seu dom para a organiza\u00e7\u00e3o social e disciplina militar, possu\u00eda sua pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o. \u201cConstru\u00edam estradas t\u00e3o retas quanto as dos romanos; tinham a higiene em alta conta; e dispunham de uma frota no Lago Vit\u00f3ria, o maior da \u00c1frica.<\/p>\n<p>\u201cO fruto dessa decis\u00e3o de mais de 139 anos atr\u00e1s podia ser visto agora em Kampala (capital). A religi\u00e3o estrangeira, a julgar pelos edif\u00edcios eclesi\u00e1sticos que competiam entre si nos morros, era como uma doen\u00e7a impregnada e contagiosa, que n\u00e3o curava nada, n\u00e3o oferecia nenhuma resposta definitiva, mantinha a todos num estado de nervos, travando batalhas erradas e estreitando a mente\u201d. Essas religi\u00f5es estrangeiras, segundo Naipaul, possu\u00edam uma teologia complexa.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe Kassim, no entanto, tinha uma outra interpreta\u00e7\u00e3o. Em uma conversa, o pr\u00edncipe disse que ambas as religi\u00f5es ofereciam para os africanos um al\u00e9m-vida, davam \u00e0s pessoas uma vis\u00e3o de si mesmas vivendo depois da morte. A religi\u00e3o africana era mais et\u00e9rea, oferecendo apenas o mundo dos esp\u00edritos e os ancestrais.<\/p>\n<p>Em sua visita \u00e0 Tumba de Kasubi, ele conheceu uma velha guardi\u00e3 do t\u00famulo de um kabaka, considerada privilegiada por ser uma das esposas. \u201cOs kabakas n\u00e3o morriam. Desapareciam e iam para a floresta, que ficava bem em frente, na parte interna da tumba\u201d.<\/p>\n<p>Quanto ao funeral de um kabaka, conta em sua narra\u00e7\u00e3o de viagem, que envolvia rituais que teriam vindo do passado distante. O cad\u00e1ver do rei tinha que ser dessecado sobre um fogo brando durante tr\u00eas meses. O maxilar era retirado e adornado com contas ou cauris (conchas).<\/p>\n<p>Nos velhos tempos, o sacrif\u00edcio humano era uma pr\u00e1tica comum quando se levantavam as pilastras ou se assentavam as funda\u00e7\u00f5es de uma tumba. Ressaltou que, quando Speke veio a Uganda, em 1861, Mutesa era kabaka, exercendo o mais desp\u00f3tico tipo de poder em sua corte, matando pessoas \u201cfeito galinhas\u201d.<\/p>\n<p>Certa vez, numa histeria, sem nenhum motivo aparente, levou a lan\u00e7a consigo ao har\u00e9m e matou mulheres at\u00e9 que sua sede de sangue fosse saciada. Nessa \u00e9poca, nem havia sido coroado. Em 1886, o jovem sucessor de Mutesa, Mwanga, farto das novas religi\u00f5es t\u00e3o inconvenientes, ordenou que seus 22 pajens crist\u00e3os fossem queimados. Antes foram espancados a pauladas e chicoteados pelos carrascos do pal\u00e1cio e logo picotados a machadadas.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o baganda ditava que o sangue de pr\u00edncipes n\u00e3o era algo que pudesse ser espalhado. Era uma proibi\u00e7\u00e3o religiosa e, por isso, n\u00e3o poderia haver pauladas e chicotadas para eles. S\u00f3 podiam ser queimados em esteiras de junco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS REIS OU OS KABAKAS (CHEFES) CRUEIS DE UGANDA (BUGANDA) DO POVO BAGANDA DO S\u00c9CULO XIX, A CULTURA TRADICIONAL DO CULTO AOS ESP\u00cdRITOS ANCESTRAIS, OS SACRIF\u00cdCIOS HUMANOS E A INVS\u00c3O DAS RELIGI\u00d5ES ESTRANGEIRAS (O CRISTIANISMO E O ISLAMISMO). O Pr\u00eamio Nobel de literatura de 2021, V. S. 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