{"id":9111,"date":"2024-02-09T22:19:34","date_gmt":"2024-02-10T01:19:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9111"},"modified":"2024-02-09T22:19:42","modified_gmt":"2024-02-10T01:19:42","slug":"as-cartas-e-as-procissoes-das-ordens-com-os-escravos-cristaos-resgatados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/02\/09\/as-cartas-e-as-procissoes-das-ordens-com-os-escravos-cristaos-resgatados\/","title":{"rendered":"AS CARTAS E AS PROCISS\u00d5ES DAS ORDENS COM OS ESCRAVOS CRIST\u00c3OS RESGATADOS"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo, \u201cCelebrando a Escravid\u00e3o\u201d, do livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d, o autor, historiador e pesquisador Robert C. Davis divulga as cartas dos cativos libertados, especialmente pelas ordens dos trinit\u00e1rios e merced\u00e1rios. Descreve a figura do pecado e da reden\u00e7\u00e3o na escravid\u00e3o, bem como as prociss\u00f5es espetaculares para comover os fi\u00e9is a participar de mais doa\u00e7\u00f5es. Esses atos promoviam o trabalho das miss\u00f5es de resgates dos escravos na Costa da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Argel e Tr\u00edpoli).<\/p>\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es de remi\u00e7\u00f5es de escravos entre as ordens e os senhores propriet\u00e1rios, reis, pax\u00e1s, turcos e mouros, j\u00e1 naquela \u00e9poca dos s\u00e9culos XVI e XVII, eram constitu\u00eddas de trapa\u00e7as, subornos e corrup\u00e7\u00f5es. Os escravos libertos caiam nas m\u00e3os do Estado, de seus tutores e passavam por um processo de humilha\u00e7\u00e3o e descrimina\u00e7\u00e3o social, sem falar do per\u00edodo de quarentena que eram submetidos para voltarem \u00e0s suas fam\u00edlias. Como sempre, os mais pobres eram os mais exclu\u00eddos da integra\u00e7\u00e3o na sociedade.<\/p>\n<p>O pecado, a miseric\u00f3rdia, a puni\u00e7\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o s\u00e3o onipresentes nos escritos dos escravos brancos na Berb\u00e9ria. Como diz Robert, todos abra\u00e7avam esses conceitos como forma de compreender qual seria o prop\u00f3sito de Deus para infligir tanto flagelo a seus fi\u00e9is. Certa vez o abade Pietro Caissotti perguntou qual ser\u00e1 o crime desses pobres escravos para serem sujeitos a uma puni\u00e7\u00e3o t\u00e3o severa? Ele mesmo respondeu que suas culpas e crimes eram reconhecer Cristo como o mais divino salvador.<\/p>\n<p>\u201cPelos meus pecados, fui capturado num lugar chamado Ascea\u201d \u2013 disse um cativo, em 1678. Esses homens e mulheres sempre se colocavam como pass\u00edveis da ira de Deus num inferno especialmente criado com essa finalidade. Escreveu (as cartas duravam cinco, seis meses ou mais para chegarem aos seus destinat\u00e1rios) outro em 1735: \u201cSinto-me como se estivesse em outro mundo de sofrimentos e dos tormentos do inferno\u201d. Outro descreveu como uma alma no purgat\u00f3rio \u00e0 espera de algum tipo de al\u00edvio. \u201cMinha grande afli\u00e7\u00e3o, a afli\u00e7\u00e3o do purgat\u00f3rio e das chamas do inferno\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Robert, essa penit\u00eancia, sob o cruel jugo da escravid\u00e3o, significava para a maioria dos escravos que eles seriam \u201cespancados, praguejados e chamados de c\u00e3es infi\u00e9is\u201d por seus carrascos. Eles eram expostos aos riscos mais severos. Alguns viam a escravid\u00e3o de uma forma mais positiva. Seria uma maneira como Deus testava os fi\u00e9is, colocando \u00e0 prova a for\u00e7a de sua devo\u00e7\u00e3o diante do flagelo da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitos n\u00e3o passavam no teste e abandonavam suas cren\u00e7as, \u201cvivendo como meras bestas\u201d, em total embriaguez e deprava\u00e7\u00e3o. Outros abra\u00e7avam o islamismo, desistindo de suas almas, como se tivessem feito um pacto com o satan\u00e1s \u2013 escreviam alguns observadores da \u00e9poca.<\/p>\n<p>De acordo com o autor da obra, o m\u00ednimo que se esperava de seus familiares \u00e9 que mantivessem contato com o escravo, na esperan\u00e7a de que suas cartas ajudassem a levantar seu \u00e2nimo para suportar os efeitos corrosivos da submiss\u00e3o sobre sua f\u00e9.<\/p>\n<p>Muitas das mulheres, crian\u00e7as e idosos, conforme ressalta Robert, perderam para a escravid\u00e3o o homem que trazia o sustento para dentro de casa, e agora, tendo de enfrentar a fome, rebaixavam-se e deixavam a f\u00e9 de lado para recorrer \u00e0 mendic\u00e2ncia, ao crime ou \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, para sobreviver.<\/p>\n<p>Eram os lamentos que os cativos reportavam em suas cartas e acusavam, por vezes, suas comunidades e terras natais por n\u00e3o responderem aos seus clamores. \u201cAi de n\u00f3s, pobres e abandonados, sem ningu\u00e9m movido por compaix\u00e3o, j\u00e1 que, com essa esperan\u00e7a&#8230; poder\u00edamos continuar vivendo e crendo, sem abjurar em decorr\u00eancia de muitas chibatadas que temos de tolerar nas m\u00e3os desses b\u00e1rbaros\u201d. Quem abjurava \u00e0 sua f\u00e9 e depois retornava ao cristianismo, era condenado \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Os problemas dos agentes redentores estatais ficaram piores com o passar do tempo por causa da escassez de financiamento confi\u00e1vel, informa\u00e7\u00e3o fidedigna sobre quem estava escravizado e habilidades comerciais para negociar com os propriet\u00e1rios. Os religiosos trinit\u00e1rios e merced\u00e1rios eram mais espertos e come\u00e7aram a mudar o quadro no final do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1700, os mu\u00e7ulmanos na Berb\u00e9ria que investiam em escravos expandiram seus neg\u00f3cios nesse mercado cada vez mais, pois estavam interessados no lucro r\u00e1pido advindo dos resgates, ao inv\u00e9s de explorar a m\u00e3o-de-obra deles. Segundo registros do observador Laurent D\u00b4 Arvieux, por conta da Coroa Espanhola, os escravos dessa nacionalidade eram comprados e libertados com mais presteza.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os trinit\u00e1rios, criados na Fran\u00e7a no tempo das Cruzadas, eram talentosos negociadores, quando, em 1762, ofereceram seus servi\u00e7os aos venezianos. Mesmo proibidos de coletar ofertas nesse territ\u00f3rio, os padres se colocaram apenas como agentes de remi\u00e7\u00e3o do governo veneziano. Eles forneceram ao Senado Veneziano uma vasta cole\u00e7\u00e3o de materiais convincentes, como listas impressas com todos escravos que tinham remido em nome de outros estados clientes, bem como uma tabela comparativa entre os resgates que pagavam e os cobrados pelos \u201chereges e judeus\u201d.<\/p>\n<p>Por negociarem a liberta\u00e7\u00e3o de escravos h\u00e1 anos, os trinit\u00e1rios e merced\u00e1rios eram treinados em gerenciar os resgates com destreza. Sabiam dos truques que os propriet\u00e1rios usavam para elevar o pre\u00e7o. Usavam de artimanhas, como comprar o m\u00e9dico do rei, para declarar que o escravo estava doente, fazendo acreditar que o cativo corria o risco de morte. Terminavam adquirindo o escravo por uma quantia irris\u00f3ria.<\/p>\n<p>PROCISS\u00d5ES DE EX-ESCRAVOS<\/p>\n<p>Como habilidosos, bons pregadores e arrecadadores na Espanha e na Fran\u00e7a, eles levaram aos estados italianos uma combina\u00e7\u00e3o de miseric\u00f3rdia e organiza\u00e7\u00e3o que encontrou forte eco nos sentimentos religiosos da pen\u00ednsula. Eles eram conhecidos por suas grandes prociss\u00f5es de ex-escravos, eventos que o padre Camillo di Maria chegou a chamar de \u201cum triunfo da paz, da liberdade e do j\u00fabilo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Essas prociss\u00f5es eram incrivelmente populares entre as pessoas de todas as classes. Eram espet\u00e1culos urbanos mais caracter\u00edsticos na It\u00e1lia do s\u00e9culo XVIII. Quando os cativos libertos eram apresentados aos romanos, em 1701, \u201cas ruas ficavam lotadas com as in\u00fameras carruagens e com a aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas, desde a Igreja de Santa Sussanna at\u00e9 o Pal\u00e1cio Apost\u00f3lico do Quirinal.<\/p>\n<p>Um acad\u00eamico chegou a chamar essas prociss\u00f5es de fuzu\u00ea, que n\u00e3o passava de um meio para gerar contribui\u00e7\u00f5es, um espet\u00e1culo que visava, nada mais nada menos, estimular as emo\u00e7\u00f5es e, assim, as doa\u00e7\u00f5es das pessoas mais religiosas.<\/p>\n<p>O historiador narra uma prociss\u00e3o que houve em janeiro de 1764, quando houve uma parada com 91 escravos pela cidade de Veneza, com gastos em torno de 2.550 ducados, um valor cinco a dez vezes \u00e0 quantia arrecadada nessas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Dentro do esquema dessas ordens, todo contingente de ex-escravos, os padres que os acompanhavam e seus auxiliares eram submetidos a uma quarentena. No s\u00e9culo XVII, um per\u00edodo de isolamento era necess\u00e1rio e obrigat\u00f3rio para qualquer um que chegasse \u00e0 It\u00e1lia do norte da \u00c1frica e do Levante, porque estavam assolados de praga.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s terminada a quarentena, os ex-escravos eram reunidos numa das igrejas relacionadas \u00e0 ordem redentora. Era costume entre os merced\u00e1rios, nas prociss\u00f5es que realizavam na Espanha e na Fran\u00e7a, vestir os escravos libertos com trapos que usavam na Berb\u00e9ria, ornando-os tamb\u00e9m com correntes, por\u00e9m quebradas.<\/p>\n<p>Os padres redencionistas compravam humanos como qualquer outro traficante de escravos. Assim tamb\u00e9m pensavam muitos que viviam na Berb\u00e9ria, conscientes de que n\u00e3o apenas mission\u00e1rios e c\u00f4nsules estavam acostumados a alugar escravos crist\u00e3os como criados. Os padres redentores frequentavam o mercado badist\u00e3o e davam seus lances ao lado de traficantes de escravos turcos e mouros.<\/p>\n<p>Mesmo depois de comprados, os escravos, de certa forma, continuavam na posse dos padres, simbolizados pelas fitas no lugar das correntes durante as prociss\u00f5es. Os que contribu\u00edam com alguma parte do resgate, tinham mais liberdade de a\u00e7\u00e3o, voltando diretamente para suas casas sem ter de antes viajar para a capital. Escravos pobres tinham no\u00e7\u00e3o de suas d\u00edvidas que estavam contraindo perante os padres e seus conterr\u00e2neos.<\/p>\n<p>As prociss\u00f5es significavam um processo de purifica\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria recompra tinha conota\u00e7\u00f5es interessantes. Os padres redencionistas compraram humanos como qualquer outro traficante de escravos. Homens e mulheres deixavam de ser mercadorias de um senhor mu\u00e7ulmano para serem tutelados pelos padres e pelo Estado. Logo que chegavam \u00e0s cidades, eles eram entregues \u00e0s autoridades estatais e confinados em quarentena por mais de um m\u00eas por causa da praga.<\/p>\n<p>Os cl\u00e9rigos, na maioria jesu\u00edtas, trabalhavam para recatequiz\u00e1-los, purificar suas almas da influ\u00eancia do isl\u00e3. Muitos dos escravos remidos entravam em depress\u00e3o, especialmente aqueles mais pobres que tinham poucas op\u00e7\u00f5es de trabalho, a n\u00e3o ser retornar ao mar e arriscar serem escravizados novamente. Quando estavam na escravid\u00e3o, muitos apelavam para as elites para serem libertados, com a promessa de serem seus escravos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo cap\u00edtulo, \u201cCelebrando a Escravid\u00e3o\u201d, do livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d, o autor, historiador e pesquisador Robert C. Davis divulga as cartas dos cativos libertados, especialmente pelas ordens dos trinit\u00e1rios e merced\u00e1rios. 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