{"id":9087,"date":"2024-02-03T00:02:34","date_gmt":"2024-02-03T03:02:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9087"},"modified":"2024-02-03T00:02:46","modified_gmt":"2024-02-03T03:02:46","slug":"as-ordens-religiosas-e-os-resgates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/02\/03\/as-ordens-religiosas-e-os-resgates\/","title":{"rendered":"AS ORDENS RELIGIOSAS E OS RESGATES"},"content":{"rendered":"<p>Na It\u00e1lia Barroca e na Fran\u00e7a dos s\u00e9culos XVI e XVII foram criadas v\u00e1rias ordens religiosas, com a finalidade de arrecadar fundos para resgatar escravos crist\u00e3os da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Argel e Tr\u00edpoli), de Constantinopla, Turquia e at\u00e9 do Marrocos. Essa pr\u00e1tica secular tamb\u00e9m foi copiada pelos cativos africanos nas Am\u00e9ricas visando alforriar seus escravos.<\/p>\n<p>Entre tantas, as duas mais importantes, desde os s\u00e9culos XII e XIII, eram a dos trinit\u00e1rios, da Sant\u00edssima Trindade, em Paris, na Fran\u00e7a, e a dos merced\u00e1rios, a Santa Casa das Merc\u00eas, na Espanha.<\/p>\n<p>Por mais que tenham se dedicado, essas entidades conseguiram poucos resultados por causa das barganhas dos senhores propriet\u00e1rios dos cativos. S\u00f3 poucos foram beneficiados. As remi\u00e7\u00f5es tornavam-se dif\u00edceis quando o capturado era vendido para terceiros.<\/p>\n<p>Por outro lado, os mais privilegiados sempre eram os cl\u00e9rigos, os nobres e os personagens com maior posi\u00e7\u00e3o social. Essas ordens espalharam uma grande rede de coletores de doa\u00e7\u00f5es por toda Europa, o que abriu, j\u00e1 naqueles tempos, espa\u00e7os para os golpistas que se faziam passar por arrecadadores. Muitos tamb\u00e9m davam moedas falsificadas. Tudo isso, h\u00e1 mais de 600 anos, nos faz lembrar os dias atuais de corrup\u00e7\u00f5es e falcatruas.<\/p>\n<p>Estas e outras quest\u00f5es descritas sobre a escravid\u00e3o branca est\u00e3o no livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d, do autor historiador Robert Davis. Sobre o tema, ele afirma que \u201ca Pen\u00ednsula It\u00e1lica, at\u00e9 ent\u00e3o, vinha sendo uma das presas preferidas dos cors\u00e1rios berberes por dois ou mais s\u00e9culos e, com isso, houve um grande \u00eaxodo das popula\u00e7\u00f5es litor\u00e2neas para vilarejos cercados por muros e no alto de montanhas, ou para cidades como Rimini, deixando quil\u00f4metros de territ\u00f3rios costeiros, antes populosos, nas m\u00e3os de vagabundos e piratas\u201d.<\/p>\n<p>O modo como esses crist\u00e3os brancos eram levados pelos cors\u00e1rios da Berb\u00e9ria variava pouco. O que aconteceu com eles, segundo Robert, durante o tempo das Marcas Papais, foi praticamente o mesmo que houve com aqueles que foram sequestrados ao longo dos desprotegidos litorais napolitanos, genov\u00eas e das ilhas espanholas.<\/p>\n<p>Para Davis, nos tr\u00eas s\u00e9culos da jihad crist\u00e3-mu\u00e7ulmana, que come\u00e7ou por volta do ano de 1500, a pirataria e a escravid\u00e3o se tornaram instrumentos pol\u00edticos de Estado para ambos os lados. Escravizar pessoas n\u00e3o s\u00f3 despojava o inimigo de milhares de cidad\u00e3os produtivos, mas tamb\u00e9m fornecia m\u00e3o-de-obra capaz e uma fonte de renda por meio dos resgates.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XVI, as gal\u00e9s cors\u00e1rias \u00e0 ca\u00e7a de escravos, tanto crist\u00e3s quanto mu\u00e7ulmanas, rondavam o Mediterr\u00e2neo em busca de esp\u00f3lio humano \u2013 descreve o escritor. Da Catalunha ao Egito, homens e mulheres, turcos e mouros, judeus e cat\u00f3licos, protestantes e ortodoxos eram v\u00edtimas em potencial. Eles eram capturados e arrebanhados nos currais de escravos em Constantinopla, Argel, T\u00fanis, Tr\u00edpoli, Malta, N\u00e1poles ou Livorno, e l\u00e1 eram revendidos como remadores de gal\u00e9s, trabalhadores rurais ou servi\u00e7ais dom\u00e9sticos &#8211; destacou.<\/p>\n<p>A It\u00e1lia, posicionada bem na linha de frente dos dois imp\u00e9rios em guerra, de acordo com Robert, estava entre as regi\u00f5es mais devastadas, conhecida como \u201co Olho do Mundo Crist\u00e3o\u201d. Esse territ\u00f3rio era desguarnecido e ficava a merc\u00ea dos otomanos. Os mais expostos eram aqueles que trabalhavam no cultivo das terras costeiras, at\u00e9 15 ou 30 quil\u00f4metros do mar.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias (idosos, crian\u00e7as, mulheres) dos capturados ficavam sem seus provedores e passavam mis\u00e9ria nas cidades ao ponto de comerem restos do lixo. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es financeiras e bens para pagar os resgates pedidos pelos sequestradores e propriet\u00e1rios, principalmente quando os escravos caiam nas m\u00e3os destes \u00faltimos. Ficava ainda mais complicado a comunica\u00e7\u00e3o com os cativos. Muitos iam trabalhar nas gal\u00e9s ou outros lugares desconhecidos.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que na\u00e7\u00f5es europeias, ordens religiosas e indiv\u00edduos engajados come\u00e7aram a se mobilizar em prol de iniciativas de remi\u00e7\u00e3o que viriam a ser um dos maiores movimentos sociais do in\u00edcio do mundo moderno mediterr\u00e2neo. As remi\u00e7\u00f5es seguiram um padr\u00e3o estabelecido s\u00e9culos antes pelas duas principais ordens redentoras: A Ordem da Sant\u00edssima Trindade, ou trinit\u00e1rios, fundada na Fran\u00e7a, em 1193, e a Ordem de Nossa Senhora das Merc\u00eas, ou merced\u00e1rios, em Barcelona, em 1203. Ambas foram criadas para libertar escravos crist\u00e3os, em particular os cruzados, das m\u00e3os dos mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Em 1548, o imperador Carlos V fundou a Real Casa Santa dela Redentione de Cattivi. Esta estrutura napolitana forneceu o modelo para outros estados italianos quando vieram a criar suas pr\u00f3prias sociedades redentoras. O pr\u00f3prio Vaticano utilizou esse padr\u00e3o em 1581\/82 para tratar do resgate de seus s\u00faditos. Uma das confrarias mais prestigiadas de Roma era a Santa Maria del Gonfalone.<\/p>\n<p>A tarefa de solicitar esmolas para as remi\u00e7\u00f5es recaiam mais entre os padres e freis que eram homens treinados a pregar em busca de contribui\u00e7\u00f5es e podiam explorar as estruturas e os costumes cat\u00f3licos. Os capturados eram sempre levados para o porto de Dulcigno e de l\u00e1 vendidos para a Berb\u00e9ria se n\u00e3o pagassem os resgates num tempo determinado.<\/p>\n<p>Apesar dos requisitos austeros que essas institui\u00e7\u00f5es impunham \u00e0queles que ansiavam pela ajuda humanit\u00e1ria, nem todas pagavam o valor total da remi\u00e7\u00e3o de um cativo. Algumas, como os Provveditori sopra Luoghi Pii de Veneza e a Santa Casa Napolitana ofereciam apenas uma quantia fixa, na forma de uma nota promiss\u00f3ria, conhecida como \u201cCristo\u201d, em Veneza, e como albarano, em N\u00e1poles. Eles emitiam suas notas em nome do pr\u00f3prio escravo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na It\u00e1lia Barroca e na Fran\u00e7a dos s\u00e9culos XVI e XVII foram criadas v\u00e1rias ordens religiosas, com a finalidade de arrecadar fundos para resgatar escravos crist\u00e3os da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Argel e Tr\u00edpoli), de Constantinopla, Turquia e at\u00e9 do Marrocos. Essa pr\u00e1tica secular tamb\u00e9m foi copiada pelos cativos africanos nas Am\u00e9ricas visando alforriar seus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9087"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9088,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9087\/revisions\/9088"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9087"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9087"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9087"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}