{"id":905,"date":"2015-03-31T23:51:09","date_gmt":"2015-04-01T02:51:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=905"},"modified":"2015-03-31T23:51:17","modified_gmt":"2015-04-01T02:51:17","slug":"o-poder-da-papelada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/03\/31\/o-poder-da-papelada\/","title":{"rendered":"O PODER DA PAPELADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>Orlando Senna<\/strong><\/p>\n<p><strong>Blog Refletor Tal-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p><strong>Itamar indica e comenta\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>As primeiras utiliza\u00e7\u00f5es da palavra burocracia aconteceram no s\u00e9culo XVIII, na Fran\u00e7a, quando algu\u00e9m teve a ideia de juntar a palavra francesa \u201cbureau\u201d, que significa escrit\u00f3rio, mesa, escrivaninha (e posteriormente tamb\u00e9m reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica) ao sufixo \u201ccracia\u201d, derivado do grego kratos, que significa poder. O poder do escrit\u00f3rio, o poder do funcion\u00e1rio p\u00fablico. J\u00e1 naqueles idos de 1700 a conota\u00e7\u00e3o da nova palavra era negativa, relacionada \u00e0 inefici\u00eancia do funcionalismo estatal na monarquia absoluta e desperd\u00edcio de recursos. Na verdade o excesso de leis e regras e a utiliza\u00e7\u00e3o da parafern\u00e1lia legal por funcion\u00e1rios desonestos \u00e9 bem mais antiga do que a palavra, remontando ao in\u00edcio do Imp\u00e9rio Romano.<\/p>\n<p>Podemos supor a presen\u00e7a das garras burocr\u00e1ticas no epis\u00f3dio da crucifica\u00e7\u00e3o de Cristo, no jogo de empurra-empurra entre o poder judeu (Herodes) e o poder romano que dominava a regi\u00e3o da Palestina (P\u00f4ncio Pilatos). Com o correr do tempo os burocratas tentaram justificar e enaltecer a burocracia como essencialmente necess\u00e1ria \u00e0 estrutura jur\u00eddica do Estado, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o dos procedimentos da administra\u00e7\u00e3o, afirmando que, por ser difusa e manipulada por muita gente, a pr\u00e1tica garantia a \u201cimpessoalidade\u201d no trato da coisa p\u00fablica. Uma fal\u00e1cia que ainda encontra defensores na atualidade.<\/p>\n<p>O jurista alem\u00e3o Max Weber, considerado o pai da sociologia moderna e um dos mais argutos estudiosos do assunto, chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que o princ\u00edpio b\u00e1sico da administra\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica \u00e9 a hierarquia, \u00e9 o controle que os funcion\u00e1rios superiores exercem sobre os inferiores. Um controle que permite a classifica\u00e7\u00e3o de documentos em v\u00e1rias categorias de acesso e, em consequ\u00eancia, o conhecimento de alguns desses documentos apenas por poucos funcion\u00e1rios. Esse mecanismo \u00e9 praticado, desde muito tempo, tamb\u00e9m nas empresas privadas. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo neste momento no Brasil, no esc\u00e2ndalo dos desvios de dinheiro e propinas na Petrobr\u00e1s e em grandes empreiteiras, envolvendo funcion\u00e1rios, pol\u00edticos e empres\u00e1rios.<\/p>\n<p><!--more-->E n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, j\u00e1 que a chaga burocr\u00e1tica, geradora de corrup\u00e7\u00e3o, espalha-se pelo Ocidente e Oriente, na rede banc\u00e1ria mundial, em regimes autorit\u00e1rios e regimes democr\u00e1ticos. As v\u00edtimas s\u00e3o os cidad\u00e3os honestos, enganados e roubados pelas artimanhas das papeladas, driblados pelos atalhos e labirintos legais inventados pelos cidad\u00e3os corruptos (que nem deveriam merecer o t\u00edtulo de cidad\u00e3o). Na d\u00e9cada passada muita gente acreditava que a inform\u00e1tica, com a sua poss\u00edvel transpar\u00eancia e comunica\u00e7\u00e3o objetiva, poderia ser uma inimiga ativa da burocracia e de sua filha dileta, a corrup\u00e7\u00e3o. At\u00e9 o momento essa a\u00e7\u00e3o de barragem, esse movimento civilizat\u00f3rio, n\u00e3o aconteceu, a n\u00e3o ser na sua utiliza\u00e7\u00e3o como ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o para organizar manifesta\u00e7\u00f5es contra a pr\u00e1tica criminosa. Mas ainda pode acontecer, n\u00e3o sei como j\u00e1 que a cibern\u00e9tica tamb\u00e9m atua como ve\u00edculo de crimes e engana\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A men\u00e7\u00e3o a labirintos legais me leva \u00e0s v\u00edtimas da burocracia e a Kafka e seu romance\u00a0<em>O processo<\/em>, de 1920, e tamb\u00e9m \u00e0 sua transposi\u00e7\u00e3o para o cinema por Orson Welles em 1962, narrando as profundas ang\u00fastias e o surrealismo perverso pelos quais passa um homem comum e honesto. Joseph K, esse \u00e9 seu nome, \u00e9 preso e sofre um longo e tortuoso e misterioso processo por um crime que ele n\u00e3o sabe qual foi. A genialidade de Kafka e de Welles criam uma atmosfera de desorienta\u00e7\u00e3o, ambiguidade e absurdo que oprimem Joseph K at\u00e9 os limites da confus\u00e3o mental. No Brasil, neste momento de bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de reais roubados atrav\u00e9s da burocracia, me sinto como o personagem kafkiano, em meio a outros 200 milh\u00f5es de Josephs Ks.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>Sempre admirei a perspic\u00e1cia e a lucidez de Orlando, como tamb\u00e9m, o estilo com os quais aborda os temas que seleciona para desenvolver suas argumenta\u00e7\u00f5es. Desta feita, selecionou a burocracia como historicamente respons\u00e1vel pela corrup\u00e7\u00e3o, esta \u201cpeste\u201d que hoje em dia, amea\u00e7a dizimar parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira e conduzir muitos outros a condi\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis de vida.<\/p>\n<p>A burocracia, no meu parco entendimento, \u00e9 o processo de registro da mem\u00f3ria dos acontecimentos cotidiano das rela\u00e7\u00f5es de Poder, a maior parte dela, registra aquilo que interessa aos governantes de plant\u00e3o e, uma vez ou outra, grava o que os governantes gostariam n\u00e3o fosse registrado. Portanto, par mim, n\u00e3o \u00e9 a burocracia a respons\u00e1vel, o m\u00f3vel da corrup\u00e7\u00e3o e, sim a conduta ante \u00c9tica dos governantes de uma Republica dita Democr\u00e1tica de Direito, transformada em cleptocracia \u2013 governo de ladr\u00f5es \u2013 em um Estado onde a apropria\u00e7\u00e3o indevida do bem p\u00fablico rompe com os princ\u00edpios e, n\u00e3o deveria em qualquer hip\u00f3tese ser tolerada, pois, \u201dquem rouba o er\u00e1rio p\u00fablico, o faz na certeza da impunidade, rouba ao mesmo tempo a si, \u00e0 sua m\u00e3e e a todos ao mesmo tempo, n\u00e3o tem coragem sequer para ser ladr\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s Doutor em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 em 2014, pela UNESP campus<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Orlando Senna Blog Refletor Tal-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina Itamar indica e comenta\u00a0 \u00a0 As primeiras utiliza\u00e7\u00f5es da palavra burocracia aconteceram no s\u00e9culo XVIII, na Fran\u00e7a, quando algu\u00e9m teve a ideia de juntar a palavra francesa \u201cbureau\u201d, que significa escrit\u00f3rio, mesa, escrivaninha (e posteriormente tamb\u00e9m reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica) ao sufixo \u201ccracia\u201d, derivado do grego kratos, que significa poder. 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