{"id":9034,"date":"2024-01-19T22:16:24","date_gmt":"2024-01-20T01:16:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9034"},"modified":"2024-01-19T22:16:32","modified_gmt":"2024-01-20T01:16:32","slug":"as-praticas-homossexuais-na-berberia-e-as-crueldades-nos-banhos-publicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/01\/19\/as-praticas-homossexuais-na-berberia-e-as-crueldades-nos-banhos-publicos\/","title":{"rendered":"AS PR\u00c1TICAS HOMOSSEXUAIS NA BERB\u00c9RIA E AS CRUELDADES NOS BANHOS P\u00daBLICOS"},"content":{"rendered":"<p>SOBRE AS TAVERNAS NOS BANHOS P\u00daBLICOS, MISSION\u00c1RIOS MANIFESTAVAM SUA REPULSA PELO QUE VIAM, CHAMANDO DE LUGARES ABOMIN\u00c1VEIS ONDE HOMENS COMETIAM CRIMES TERR\u00cdVEIS. A MAIORIA DOS CRIMES FOI APRENDIDO COM OS TURCOS. UMA TENEBROSA LIBERTINAGEM RESULTADO DA EMBRIAGUEZ.<\/p>\n<p>AS NARRATIVAS DO ESCRAVO JO\u00c3O MASCARENHAS FORAM PUBLICADAS EM 1627 NA FORMA DE PANFLETO, EXEMPLO DE LITERATURE COLPORTAGE, DIFUNDIDA NO IN\u00cdCIO DA IDADE MODERNA. FOI ADQUIRIDFO POR PORTUGAL POR LIVREIROS INTINERANTES QUE COMERCIALIZAVAM COM O NOME DE LITERATURA DE CORDEL, POIS OS VOLUMES ERAM AMARRADOS UNS AOS OUTROS COM BARBANTES PARA SEREM VENDIDOS EM V\u00c1RIOS LUGARES.<\/p>\n<p>Os senhores propriet\u00e1rios, turcos, mouros, pax\u00e1s e reis da Costa da Berb\u00e9ria (Argel, T\u00fanis e Tr\u00edpoli) se aproveitavam dos escravos novos crist\u00e3os para pr\u00e1ticas sexuais, na maioria das vezes for\u00e7ados a isso, sem falar do homossexualismo existente nos banhos p\u00fablicos superlotados, considerados por pesquisadores e testemunhos da \u00e9poca (s\u00e9culos XVI a XVIII) como campos de concentra\u00e7\u00e3o, semelhantes aos nazistas e aos gulag sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Alguns chegaram a contestar as crueldades e torturas dos senhores, como as que existiram contra os escravos africanos trazidos para as Am\u00e9ricas (12 milh\u00f5es) em mais de tr\u00eas s\u00e9culos, mas foram comprovadas por cativos crist\u00e3os brancos.<\/p>\n<p>Diferente do que ocorreu com os mercados de gente na Costa Africana, cujas mem\u00f3rias dos locais foram preservadas, esses banhos p\u00fablicos foram destru\u00eddos entre os s\u00e9culos XVIII e XIX, principalmente com a invas\u00e3o francesa a Argel em 1830. Essa escravid\u00e3o na Berb\u00e9ria era uma repres\u00e1lia religiosa. Os mu\u00e7ulmanos tamb\u00e9m foram cativos dos crist\u00e3os, sobretudo na Espanha, Portugal e It\u00e1lia durante as guerras dos dois imp\u00e9rios (crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos).<\/p>\n<p>O historiador e pesquisador Robert Davis, que escreveu a obra \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d, se debru\u00e7ou sobre esse tema pouco explorado e conta tamb\u00e9m as brigas internas que existiam entre cat\u00f3licos e n\u00e3o cat\u00f3licos. No livro, ele cita por diversas vezes testemunhas do escravo d\u00b4Aranda sobre uma intriga entre russos ortodoxos e espanh\u00f3is italianos.<\/p>\n<p>\u201cUm deles foi at\u00e9 o pequeno c\u00f4modo (banho p\u00fablico ou pris\u00e3o) onde se encontravam os russos moscovitas saudando-os da seguinte forma: c\u00e3es, hereges, selvagens, inimigos de Deus, o banho agora est\u00e1 trancado (era fechado ao entardecer), e o zelador (o feitor) mandou dizer que, se tiverem coragem de lutar, voc\u00eas deveriam sair dessa sua toca, a\u00ed veremos quem leva a melhor\u201d.<\/p>\n<p>Robert Davis ressalta que qualquer divis\u00e3o secular, como l\u00edngua ou pol\u00edtica, servia de justificativa para gerar disc\u00f3rdia entre os escravos, tanto quanto as cren\u00e7as religiosas, e h\u00e1 indicativos de que esses subgrupos, provenientes de culturas mais pr\u00f3ximas, eram os que mais estavam propensos a trocar farpas entre si.<\/p>\n<p>DIFICULDADES DE COMUNICA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>As brigas constantes, segundo ele, entre espanh\u00f3is, franceses, portugueses ou italianos s\u00e3o in\u00edcios de que esses escravos se entendiam o suficiente para trocar insultos. Entretanto, as dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o entre escravos e seus senhores era uma fonte inesgot\u00e1vel de conflitos na Berb\u00e9ria, como aconteceu com os africanos de primeira gera\u00e7\u00e3o nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Para desenrolar esse entrave, havia uma l\u00edngua franca (pidgin), modelo para todas as outras l\u00ednguas francas ao redor do mundo. A predomin\u00e2ncia era dos espanh\u00f3is do Mediterr\u00e2neo, parte da Berb\u00e9ria e do italiano no leste. Essa l\u00edngua (uma vers\u00e3o do europeu rom\u00e2nico) tinha suas ra\u00edzes nos idiomas dos marinheiros e mercadores e preencheu suas lacunas com uma s\u00e9rie de palavras locais (\u00e1rabe, turco e grego). Servia para dar ordens aos escravos.<\/p>\n<p>Nas gal\u00e9s, no entanto, os escravos eram proibidos de falar uns com os outros em qualquer outra l\u00edngua que n\u00e3o fosse a franca, para que seus capatazes pudessem compreender o que discutiam ou tramavam. N\u00e3o era um idioma muito f\u00e1cil de ser entendido, principalmente em situa\u00e7\u00f5es tensas.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o senhor usava termos em espanhol e o italiano para humilhar o escravo com a palavra c\u00e3o (perro cane ou cani perru). Alguns termos evolu\u00edram, como do italiano mangiar no sentido de comer, ser consumido. Outras palavras eram derivadas do \u00e1rabe ou do turco.<\/p>\n<p>Quanto aos banhos p\u00fablicos, o pesquisador da obra, diz ser dif\u00edcil quantificar a popula\u00e7\u00e3o escrava, mesmo porque alguns zeladores alugavam suas depend\u00eancias a propriet\u00e1rios individuais de cativos, as quais serviam para armazenar a mercadoria humana quando n\u00e3o queriam manter esses escravos dentro de casa. Eles eram obrigados depois a reembolsar seus senhores pelos custos desses alojamentos, com a venda de \u00e1gua ou at\u00e9 roubando.<\/p>\n<p>Com o decl\u00ednio das gal\u00e9s cors\u00e1rias (final do s\u00e9culo XVIII), a rela\u00e7\u00e3o entre escravos p\u00fablicos de banhos e os privados sofreu uma queda. Em 1696, padre Lorance, vig\u00e1rio de Argel, observou que o n\u00famero de escravos particulares excedia em muito ao de p\u00fablicos confinados nos banhos.<\/p>\n<p>ABANDONADOS<\/p>\n<p>Os banhos privados come\u00e7aram a ser abandonados a partir de 1700, inclusive o maior deles do poderoso Ali Pegelin, que por volta de 1640 mantinha cerca de 800 homens dentro de seu estabelecimento. Durante o forte decl\u00ednio da escravid\u00e3o na Berb\u00e9ria, entre 1690 e 170, a maioria dos escravos deve ter vivido com mais conforto, nas casas de seus senhores. Por\u00e9m, no transcorrer do s\u00e9culo XVIII, o n\u00famero de escravos particulares caiu e o do Estado permaneceu est\u00e1vel.<\/p>\n<p>TORTURAS E TORMENTOS<\/p>\n<p>A respeito das crueldades e torturas, alguns eram c\u00e9ticos. No entanto, o padre Pierre Dan conta todas as pen\u00farias impostas aos escravos crist\u00e3os, e ele fez um cat\u00e1logo dos tormentos que lhes foram infligidos pelos mu\u00e7ulmanos. Os editores intercalaram prosa com um conjunto de ilustra\u00e7\u00f5es horrendas. Muitos foram esmagados vivos, outros empalados, queimados e crucificados.<\/p>\n<p>O escravo John Foss, por exemplo, dedicou um cap\u00edtulo inteiro ao assunto, denominando-o de \u201cAs puni\u00e7\u00f5es mais comuns para cativos crist\u00e3os pelas mais diferentes ofensas\u201d. Robert destaca que tais castigos cru\u00e9is, sem motivos aparentes, tinham raz\u00e3o de ser, pois costumavam garantir a disciplina entre os escravos.<\/p>\n<p>As surras tinham o cond\u00e3o de encourager les autres, como alerta aos outros para que mantivessem bom comportamento. O Estado e o Ali Pegelin chegavam a matar alguns deles. Esses tipos de viol\u00eancias eram tamb\u00e9m difundidos entre propriet\u00e1rios e feitores de escravos nas Am\u00e9ricas. Como declarou um fazendeiro no sul dos Estados Unidos: \u201cO medo da puni\u00e7\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio a que dever\u00edamos e temos de recorrer, se quisermos manter os cativos atordoados e obedientes\u201d.<\/p>\n<p>O pesquisador Stephen Clissold concluiu que os escravos da Berb\u00e9ria descreviam uma vida nos banhos como uma mistura entre um campo de concentra\u00e7\u00e3o nazista, uma pris\u00e3o inglesa e um campo de trabalhos for\u00e7ados sovi\u00e9ticos, os gulag. Os cativos eram largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte pelos pax\u00e1s. Eram v\u00edtimas de surras aleat\u00f3rias, alimenta\u00e7\u00e3o e acomoda\u00e7\u00f5es miser\u00e1veis, roupas degradantes, al\u00e9m do celibato for\u00e7ado.<\/p>\n<p>Os p\u00fablicos eram condenados pelo resto de suas vidas, n\u00e3o por um processo judicial, mas em raz\u00e3o de seu status. Quem pertencia ao Estado n\u00e3o era ningu\u00e9m. N\u00e3o contava com um senhor privado para libert\u00e1-lo ou pagar seu resgate. \u00a0O escravo Jo\u00e3o Mascarenhas dizia que estes homens nunca v\u00e3o embora, j\u00e1 que n\u00e3o ser\u00e3o libertados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRE AS TAVERNAS NOS BANHOS P\u00daBLICOS, MISSION\u00c1RIOS MANIFESTAVAM SUA REPULSA PELO QUE VIAM, CHAMANDO DE LUGARES ABOMIN\u00c1VEIS ONDE HOMENS COMETIAM CRIMES TERR\u00cdVEIS. A MAIORIA DOS CRIMES FOI APRENDIDO COM OS TURCOS. 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