{"id":9010,"date":"2024-01-12T23:38:44","date_gmt":"2024-01-13T02:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=9010"},"modified":"2024-01-12T23:42:55","modified_gmt":"2024-01-13T02:42:55","slug":"situacoes-semelhantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/01\/12\/situacoes-semelhantes\/","title":{"rendered":"SITUA\u00c7\u00d5ES SEMELHANTES ENTRE A ESCRAVID\u00c3O NEGRA E A DOS CRIST\u00c3OS BRANCOS"},"content":{"rendered":"<p>Nas duas escravid\u00f5es, a africana entre os s\u00e9culos XVI e XIX e a dos crist\u00e3os ou brancos na regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (Argel, T\u00fanis e Tr\u00edpoli) nos s\u00e9culos XVI ao XVIII, existiram algumas semelhan\u00e7as, conforme atesta o livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d do historiador e pesquisador Robert Davis.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode quantificar os cen\u00e1rios de degrada\u00e7\u00e3o e sofrimento dessas escravid\u00f5es que esses cativos passaram, uns nas Am\u00e9ricas pelos pa\u00edses europeus, de ordem comercial, e os outros na Berb\u00e9ria, praticada pelos mouros, turcos e mu\u00e7ulmanos, de cunho mais religioso, como repres\u00e1lia. No entanto, ocorreram m\u00e9todos parecidos na forma de tratamentos.<\/p>\n<p>Assim como v\u00e1rias etnias africanas trazidas da \u00c1frica para as Am\u00e9ricas n\u00e3o se entendiam e at\u00e9 brigavam entre si, tamb\u00e9m os crist\u00e3os andavam \u00e0s turras quando se tratava de cat\u00f3licos romanos, ortodoxos e correntes protestantes. No cativeiro, as intrigas eram muitas, mas aconteciam momentos de se unir nas resist\u00eancias.<\/p>\n<p>As senzalas negreiras eram locais degradantes, abafados e superlotados, prop\u00edcios \u00e0s promiscuidades, e sempre fechados ao anoitecer depois de um dia cansativo de trabalho. Na Berb\u00e9ria, esses \u201caposentos\u201d lotados eram denominados de banhos p\u00fablicos ou pris\u00f5es, com praticamente as mesmas regras impostas pelos feitores, capatazes ou respons\u00e1veis por guardar os escravos. As portas eram trancadas no final do dia para n\u00e3o haver fugas.<\/p>\n<p>Robert Davis faz esses relatos baseados em testemunhos (D\u00b4Aranda, Jo\u00e3o Mascarenhas, Pierre Dan e padres) que foram v\u00edtimas dessa escravid\u00e3o, al\u00e9m de pesquisadores no assunto. Ele fala dos escravos dos banhos p\u00fablicos, aqueles desafortunados que eram comprados pelos governantes e depois remetidos \u00e0 vida nos dormit\u00f3rios\/pris\u00f5es, os quais os cativos chamavam de bains, ba\u00f1os ou bagni.<\/p>\n<p>Segundo Davis, h\u00e1 ind\u00edcios que essas mans\u00f5es sombrias de horror come\u00e7aram em Constantinopla onde antigas casas de banhos se tornaram em confinamentos de escravos em 1500. Na Berb\u00e9ria, elas foram constru\u00eddas para abrigar cativos dos governantes e particulares.<\/p>\n<p>De acordo com as pesquisas, o primeiro banho p\u00fablico, o Bagno Beyli\u00e7, surgiu em Argel, em 1553, durante o per\u00edodo de Barbarosa, com capacidade para dois mil cativos. Esses pr\u00e9dios se multiplicaram com o tempo, passando a seis em Argel, nove em T\u00fanis e um em Tr\u00edpoli. Nos anos de 1660, Argel j\u00e1 possu\u00eda oito, quinze em T\u00fanis e cinco em Tr\u00edpoli.<\/p>\n<p>O interessante \u00e9 que os nomes desses banhos p\u00fablicos eram sempre de santos, como St. Roche, Lorenzo, S\u00e3o Miguel, Santo Ant\u00f4nio, Santa Luzia, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, S\u00e3o Leonardo, Trindade, Santa Catarina, S\u00e3o Francisco, Santa Cruz e tantos outros.<\/p>\n<p>Em Argel, por exemplo, o banho p\u00fablico St. Roche, pertencia ao senhor Ali Pegelin, o mais poderoso e rico de toda regi\u00e3o. \u201c\u00c9 tentador pensar que esse sistema alternativo de nomenclaturas agia como forma de resist\u00eancia planejada por parte dos escravos e dos abolicionistas crist\u00e3os, contra o dom\u00ednio e autoridade isl\u00e2mica vigente&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Muitos desses nomes eram deturpados e escritos de maneira incorreta. O do Pax\u00e1 era chamado de Banho do Estado, ou do rei. Os trinit\u00e1rios e merced\u00e1rios, respons\u00e1veis pelas capelas (as fazendas dos senhores das Am\u00e9ricas tamb\u00e9m tinham suas capelas) disputavam entre si e com os mission\u00e1rios da Congrega\u00e7\u00e3o de Propaganda Fide.<\/p>\n<p>De acordo com o autor da obra, esses tipos de desaven\u00e7as entre os ocupantes dos banhos, principalmente quando envolviam os papassi ou sacerdotes, eram motivos de gra\u00e7a para os turcos. Os senhores gostavam de incitar as disc\u00f3rdias entre seus escravos, com intuito de enfraquecer a resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cO principal ponto de tens\u00e3o, ao menos nos s\u00e9culos XVI e XVII, era a religi\u00e3o, \u201cembora isso possa ser apenas parte do exagero entre padres e mission\u00e1rios cat\u00f3licos que representavam a menor fonte de estudos\u201d. Em Argel e T\u00fanis, os cat\u00f3licos eram maioria nos banhos escravos, ao passo que as cidades marroquinas teriam mais brit\u00e2nicos e holandeses. Tr\u00edpoli era povoada por cativos gregos, segundo alguns relatos.<\/p>\n<p>Outra coisa abordada pelo historiador diz respeito aos dialetos africanos, enquanto na Berb\u00e9ria se usava a l\u00edngua franca (substantivos e verbos) como meio de comunica\u00e7\u00e3o entre os senhores propriet\u00e1rios e os cativos, para emitir ordens.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das capelas, os banhos tamb\u00e9m contavam com as tabernas onde os b\u00eabados perturbavam os atos religiosos com palavr\u00f5es e xingamentos. Como esses dormit\u00f3rios\/pris\u00f5es, somente para homens, eram superlotados (todos dormiam amontoados) havia muita promiscuidade.<\/p>\n<p>Outro tra\u00e7o era o homossexualismo praticado entre escravos que, por outro lado, sofriam ass\u00e9dio sexual por parte dos seus propriet\u00e1rios, reis, pax\u00e1s e governantes, tendo como maiores alvos escravos novos e os jovens garotos de nove a 15 anos. Eles eram bem tratados nos pal\u00e1cios e induzidos a se converter ao islamismo. Na verdade, n\u00e3o havia uma repress\u00e3o velada quanto ao ajuntamento homossexual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas duas escravid\u00f5es, a africana entre os s\u00e9culos XVI e XIX e a dos crist\u00e3os ou brancos na regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (Argel, T\u00fanis e Tr\u00edpoli) nos s\u00e9culos XVI ao XVIII, existiram algumas semelhan\u00e7as, conforme atesta o livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d do historiador e pesquisador Robert Davis. N\u00e3o se pode quantificar os cen\u00e1rios de degrada\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9010"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9014,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010\/revisions\/9014"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}