{"id":8990,"date":"2024-01-05T22:06:36","date_gmt":"2024-01-06T01:06:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8990"},"modified":"2024-01-05T22:06:47","modified_gmt":"2024-01-06T01:06:47","slug":"ainda-as-gales-e-as-vestimentas-dos-escravos-cristaos-na-berberia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2024\/01\/05\/ainda-as-gales-e-as-vestimentas-dos-escravos-cristaos-na-berberia\/","title":{"rendered":"AINDA AS GAL\u00c9S E AS VESTIMENTAS DOS ESCRAVOS CRIST\u00c3OS NA BERB\u00c9RIA"},"content":{"rendered":"<p>Comentamos aqui nos outros cap\u00edtulos do livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores mu\u00e7ulmanos\u201d, do autor Robert Davis, que aqueles capturados pelos mouros da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Tr\u00edpoli e Argel) nos navios e por via terrestre e que n\u00e3o possu\u00edam talentos, nem sinais de riqueza e posi\u00e7\u00e3o social ao serem colocados \u00e0 venda, iam servir nas gal\u00e9s por meses em alto mar. Eram acorrentados, espancados e trabalhavam sob chuva e sol. Muitos n\u00e3o resistiam e morriam.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma afli\u00e7\u00e3o sem tamanho ver os pobres escravos crist\u00e3os ou brancos, obrigados a remar sob constantes e violentas chicotadas e pauladas&#8230; De todas as agruras esses pobres cativos s\u00e3o for\u00e7ados a obedecer, a pior, sem sobra de d\u00favidas, \u00e9 aquela que sofrem nas gal\u00e9s dos turcos berberes\u201d \u2013 lamentou o padre Pierre Dan. Geralmente eram camponeses, pescadores, soldados rasos e marujos comuns. Os nobres de estirpe ficavam longe das gal\u00e9s porque eram valiosas propriedades para o resgate.<\/p>\n<p>Segundo Robert, por volta da metade do s\u00e9culo XVI, tanto as pot\u00eancias crist\u00e3s quanto o Imp\u00e9rio Turco eram capazes de concentrar imensas frotas com centenas de gal\u00e9s e galeotas, cada uma composta de 150 a 300 remadores. Essa for\u00e7a de trabalho deve ter atingido seu \u00e1pice na \u00e9poca da Batalha de Lepanto, em 1571, quando por volta de 80 mil remadores foram mandados para o fronte uns contra os outros, sendo a maioria escravos. N\u00e3o eram somente mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Nas gal\u00e9s da Espanha, Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Malta haviam milhares de mouros, turcos, prisioneiros cat\u00f3licos e protestantes condenados aos remos. Na segunda metade dos anos 1560, a escravid\u00e3o das gal\u00e9s era mais uma institui\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica do que crist\u00e3. Os berberes eram melhores em capturar escravos. A maior demanda por escravos de gal\u00e9s ocorreu entre o fim das d\u00e9cadas de 1580 e 1640. Os reis de Argel, T\u00fanis e Tr\u00edpoli precisavam de 10 a 15 mil remadores.<\/p>\n<p>VESTIMENTAS<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cVida de Escravo\u201d, o historiador da obra cita o testemunho do escravo William Okeley. Ali\u00e1s, sua pesquisa est\u00e1 recheada de testemunhas. Robert destaca que Okeley e seus companheiros escravos compunham um quarto da popula\u00e7\u00e3o de Argel, uma cidade baseada na pirataria cors\u00e1ria e no mercado escravista. Em T\u00fanis e Tr\u00edpoli a propor\u00e7\u00e3o era menor, entre 10 a 20%.<\/p>\n<p>No topo dos escravos estavam os turcos e renegados crist\u00e3os. De acordo com Robert Davis, esses homens reinavam sobre os nativos mouros e mouriscos, os quais, por sua vez, desfrutavam de status maior do que a sempre numerosa popula\u00e7\u00e3o judia nas capitais das reg\u00eancias. Os escravos ficavam nas camadas inferiores e os judeus ainda num patamar mais baixo.<\/p>\n<p>Na Berb\u00e9ria, os homens se diferenciavam nas roupas, cortes de cabelos e no direito de usar armas. Os turcos usam turbantes (um tipo de bon\u00e9 vermelho). Os mouros vestes mais sombrias, um longo albornoz com capuz, sendo de cor branca no caso dos mais abastados.<\/p>\n<p>Os escravos crist\u00e3os n\u00e3o tinham nenhum traje distintivo e vestiam o que lhes eram fornecidos pelos seus senhores. No caso dos escravos dom\u00e9sticos, como na Europa, trajavam uniformes. Nas ruas usavam roupas condizentes com o n\u00edvel social de seus propriet\u00e1rios. Portar o turbante era uma express\u00e3o de convers\u00e3o ao islamismo e os escravos crist\u00e3os, na sua maioria, n\u00e3o aceitavam.<\/p>\n<p>As garotas jovens r\u00e9cem-capturadas podiam ter a cabe\u00e7a raspada, para torn\u00e1-las turcas. As mulheres mais velhas podiam ser for\u00e7adas a vestir as roupas turcas devido ao h\u00e1bito das reg\u00eancias. No entanto, o autor da obra conta um caso de uma mulher que n\u00e3o aceitou mudar sua f\u00e9. Por isso, sua dona mandou que ela levasse trezentas chibatadas. Ao continuar firma em seu prop\u00f3sito, a escrava foi despida e a vestira \u00e0 moda turca.<\/p>\n<p>Segundo Robert, quando os cors\u00e1rios berberes estavam prestes a capturar um navio, era comum os passageiros trocarem suas vestes por outras que ajudassem a esconder suas origens de modo a confundir os captores quanto ao valor potencial do resgate. Outros mantinham as mesmas vestimentas por orgulho de seu posto, como os membros da Igreja, nobres e comandantes militares. Eles iam para alojamentos dos consulados com conforto.<\/p>\n<p>Diz o autor que esses escravos de alto escal\u00e3o eram deixados ociosos no cativeiro, certamente por terem pago uma taxa, um suborno por fora. Ficavam livres para se locomover na cidade, apenas com uma tornozeleira de ferro. As mulheres da elite recebiam mais ou menos o mesmo tratamento, mas mantidas dentro de casa, longe das vistas do p\u00fablico. Alguns usavam suas roupas europeias.<\/p>\n<p>Muitos eram levados para os chamados banhos p\u00fablicos (badist\u00e3o) ou pris\u00f5es, onde se transformavam em figuras imundas com trapos e desmazelados. Os turcos e mouros chamavam esses r\u00e9cem-chegados de selvagens. Quando eram vendidos recebiam um traje distintivo de escravos.<\/p>\n<p>Um pesquisador observou que, na d\u00e9cada de 1620, os chefes dos banhos forneciam aos escravos nada al\u00e9m de um albornoz com capuz, um par de cal\u00e7as de lona por ano. Meio s\u00e9culo mais tarde, o frei Francisco San Lorenzo referiu-se a roupas semelhantes, como uma camisa e um par de cal\u00e7as de tecido cru. Os que n\u00e3o conseguiam conservar seus sapatos ficam descal\u00e7os.<\/p>\n<p>\u201cPelo visto, nenhum escravo teve direito a receber uma muda de roupas at\u00e9 os anos 1720\u201d. Um estudioso no assunto descreveu que, quando um escravo \u00e9 levado para Argel, recebe uma camisa grosseira, um carpete de tecido r\u00fastico, um pequeno cafet\u00e3, um gorro vermelho e um cobertor de l\u00e1.<\/p>\n<p>\u201cTudo leva a crer, na melhor das hip\u00f3teses, que nos anos 1790, as roupas destinadas aos escravos na Berb\u00e9ria ficam aqu\u00e9m at\u00e9 mesmo da indument\u00e1ria dada pelos senhores no sul dos Estados Unidos, como dois trajes completos de algod\u00e3o para a primavera e ver\u00e3o e dois de l\u00e1 para o inverno, quatro pares de sapatos e tr\u00eas chap\u00e9us\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA disparidade entre a vestimenta dos escravos negros no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX no sul dos Estados Unidos e dos cativos no Magreb ainda \u00e9 surpreendente\u201d. O pesquisador Eugene Genovese, com base num tal de senhor Robert Collins, ressaltou que \u201cno sul dos EUA, at\u00e9 a trouxa mais generosa restringia os escravos a lavar e trocar de roupas no m\u00e1ximo uma vez por semana. Isso era inimagin\u00e1vel no caso dos escravos da Berb\u00e9ria, confinados nos banhos p\u00fablicos\u201d.<\/p>\n<p>Collins afirmou que no geral era necess\u00e1rio pagar a \u00e1gua e poucos tinham condi\u00e7\u00f5es para isso. S\u00f3 o necess\u00e1rio para beber. Por isso, a maioria dos membros da classe de cativos atraia todos os olhares para aquele espet\u00e1culo lament\u00e1vel de cabelos e barbas cortados com uma adega. \u201cSeus rostos eram machucados e cobertos de lama e poeira. Eles perambulavam pela cidade com apar\u00eancia de mendigos, com as roupas todas cobertas de vermes\u201d.<\/p>\n<p>Os escravos de T\u00fanis e Tr\u00edpoli costumavam mancar em raz\u00e3o das correntes e grilh\u00f5es pesando cerca de 10 a 15 quilos, ou com um gambetto, como os italianos chamavam (grilheta de ferro). Dizem que os escravos das gal\u00e9s eram marcados com uma cruz na sola dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de vida variavam tanto quanto a quantidade de roupas, dependendo se estivessem hospedados nas casas de seus senhores ou fossem cativos p\u00fablicos, isto \u00e9, dos governantes, designados ao trabalho bra\u00e7al nas gal\u00e9s, nas pedreiras ou arredores das cidades.\u00a0 Quem se dava melhor eram aqueles cujos senhores os alugavam para os mission\u00e1rios crist\u00e3os e c\u00f4nsules na cidade. Esses tinham uma vida praticamente id\u00eantica aos servi\u00e7ais da Europa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comentamos aqui nos outros cap\u00edtulos do livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores mu\u00e7ulmanos\u201d, do autor Robert Davis, que aqueles capturados pelos mouros da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Tr\u00edpoli e Argel) nos navios e por via terrestre e que n\u00e3o possu\u00edam talentos, nem sinais de riqueza e posi\u00e7\u00e3o social ao serem colocados \u00e0 venda, iam servir nas gal\u00e9s [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8990"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8990"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8990\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8991,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8990\/revisions\/8991"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8990"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8990"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8990"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}