{"id":8970,"date":"2023-12-29T23:14:38","date_gmt":"2023-12-30T02:14:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8970"},"modified":"2023-12-29T23:14:46","modified_gmt":"2023-12-30T02:14:46","slug":"os-tormentos-dos-escravos-cristaos-nas-gales-e-o-medo-de-um-novo-dono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/12\/29\/os-tormentos-dos-escravos-cristaos-nas-gales-e-o-medo-de-um-novo-dono\/","title":{"rendered":"OS TORMENTOS DOS ESCRAVOS CRIST\u00c3OS NAS GAL\u00c9S E O MEDO DE UM NOVO DONO"},"content":{"rendered":"<p>O pior sofrimento estava reservado para os escravos brancos ou crist\u00e3os que eram capturados pelos mouros e mu\u00e7ulmanos da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Argel e Tr\u00edpoli) e depois levados para remar nas gal\u00e9s por cinco ou seis semanas em alto mar, com a finalidade de saquear mais navios.<\/p>\n<p>Eles eram acorrentados nos bancos de madeira, com grilh\u00f5es e trancas nos p\u00e9s, sujeitos a chuva e ao sol. As ra\u00e7\u00f5es eram limitadas, do tipo chamada de biscoitos de marinheiros (tinham que ter bons dentes para mastiga-los). Muitos morriam de exaust\u00e3o enquanto eram espancados com chibatadas e outros castigos. Os que ficam em terra temiam ser revendidos para um novo senhor e privados de poss\u00edveis resgates.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo III do livro \u201cEscravos Crist\u00e3os, Senhores Mu\u00e7ulmanos\u201d, o autor Robert Davis fala sobre o \u201cTrabalho Escravo\u201d onde descreve o relato de diversos cativos que foram v\u00edtimas da escravid\u00e3o branca entre os s\u00e9culos XVI e final do XVIII, fazendo um paralelo com o que tamb\u00e9m passaram os negros africanos levados para as Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, ele cita o portugu\u00eas Jo\u00e3o Mascarenhas em um trecho do seu testemunho onde diz que \u201cn\u00e3o h\u00e1 pior momento na vida do que aquele em que o escravo fica na expectativa para descobrir quem ser\u00e1 o seu dono\u201d. Segundo ele, se seu destino for cair nas m\u00e3os \u201cde um senhor desumano, nada de bom poder\u00e1 ser vislumbrado em seu futuro e dever\u00e1 considerar-se o mais infeliz entre seus iguais: N\u00e3o h\u00e1 pior inferno nesta vida\u201d.<\/p>\n<p>Mascarenhas assinala que o escravo poder\u00e1 ser revendido, sobrecarreg\u00e1-lo com trabalho, aprision\u00e1-lo, mutil\u00e1-lo, mat\u00e1-lo, sem ningu\u00e9m poder interferir.\u00a0 Outro cativo William Okeley destaca que \u201cse um patr\u00e3o matasse seu cativo, pelo que pude constatar, enfrentaria as mesmas consequ\u00eancias do que se tivesse matado seu cavalo\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com historiadores, todos os novos cativos, assim que desembarcavam, eram separados em duas classes bastante distintas: os escravos para resgaste e aqueles para o trabalho. \u201cTais compradores, conforme analistas, eram na maioria das vezes \u201cmouros\u201d ou \u201ctagarins\u201d (antigos moradores mu\u00e7ulmanos da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica que foram expulsos ou fugiram de l\u00e1) e renegados europeus\u201d.<\/p>\n<p>Um senhor propriet\u00e1rio de Argel declarou que comprou seus escravos para conseguir algum lucro com eles. Pelo pouco que se sabe do pre\u00e7o de venda inicial dos escravos no badist\u00e3o (mercado), a expectativa de ganho girava em torno de 10 a 12% ao ano por cada cativo.<\/p>\n<p>Com base em pesquisadores, o autor da obra ressalta que os compradores que \u201cs\u00f3 adquiriam escravos para serv\u00ed-los, n\u00e3o para o tr\u00e1fico,\u201d eram, na maior parte das vezes, turcos ou jan\u00edzaros (gregos ou ortodoxos) renegados e alguns agentes do conselho governante local, chamados de divan.<\/p>\n<p>Quando visavam mais o trabalho do que o resgate, esses propriet\u00e1rios estipulavam uma gama maior de tarefas aos seus vassalos do que os adquirentes para revenda. Num comparativo com a escravid\u00e3o negra destinada \u00e0s Am\u00e9ricas, a principal demanda era para trabalhadores rurais com fins comerciais nas lavouras de a\u00e7\u00facar, arroz, algod\u00e3o e tabaco. Na Berb\u00e9ria, as tarefas eram voltadas para homens livres que n\u00e3o estavam mais dispostos a realizar.<\/p>\n<p>Um senhor de Argel, chamado Ali Pegelin, chegou a possuir vinte mulheres escravas, crist\u00e3s, que ficavam a servi\u00e7o da sua esposa. A maior parte dos servi\u00e7os eram concentrados mais nas cidades em constru\u00e7\u00f5es diversas, carregamento de pedras, mordomos e trabalhos dom\u00e9sticos em geral.<\/p>\n<p>No decorrer do s\u00e9culo XVII, quando emiss\u00e1rios de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es crist\u00e3s e de Roma come\u00e7aram a se fixar em consulados ou miss\u00f5es nas capitais das reg\u00eancias berberes, come\u00e7aram a surgir vagas para os escravos, como criados contratados desses europeus. Algumas dessas atividades eram semelhantes aos trabalhos prestados por empregados dom\u00e9sticos na Europa, como pegar \u00e1gua ao amanhecer, limpar banheiros, buscar p\u00e3o quente, lavar roupas e cuidar das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>No entanto, a maioria era usada para extra\u00e7\u00e3o de pedras, constru\u00e7\u00e3o civil, corte de \u00e1rvores, colheitas e remar nas gal\u00e9s. \u201cAli\u00e1s, foram as gal\u00e9s que se tornaram a ep\u00edtome da escravid\u00e3o dos europeus brancos na Berb\u00e9ria, assim como foi o corte de cana para os africanos que trabalhavam nas Am\u00e9ricas\u201d.<\/p>\n<p>Como dizia Mascarenhas, se o sujeito n\u00e3o foi um galeotto, n\u00e3o podia dizer que foi um escravo&#8230;\u201d \u201c\u00c9 uma afli\u00e7\u00e3o sem tamanho ver os pobres escravos obrigados a remar sob constantes e violentas chicotadas e pauladas&#8230; De todas as agruras que esses pobres cativos s\u00e3o for\u00e7ados a padecer, a pior, sem sombra de d\u00favidas, \u00e9 aquela que sofrem nas gal\u00e9s dos turcos berberes.\u201d<\/p>\n<p>A maioria era levada para as gal\u00e9s porque n\u00e3o tinha outros talentos ou nenhuma habilidade especial, nem sinais claros de riqueza para a venda. Geralmente eram camponeses, pescadores, soldados rasos ou marujos comuns.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pior sofrimento estava reservado para os escravos brancos ou crist\u00e3os que eram capturados pelos mouros e mu\u00e7ulmanos da regi\u00e3o da Berb\u00e9ria (T\u00fanis, Argel e Tr\u00edpoli) e depois levados para remar nas gal\u00e9s por cinco ou seis semanas em alto mar, com a finalidade de saquear mais navios. 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