{"id":8892,"date":"2023-12-07T23:18:15","date_gmt":"2023-12-08T02:18:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8892"},"modified":"2023-12-07T23:18:22","modified_gmt":"2023-12-08T02:18:22","slug":"retalhos-escritos-meus-e-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/12\/07\/retalhos-escritos-meus-e-dos-outros\/","title":{"rendered":"RETALHOS ESCRITOS (MEUS E DOS OUTROS)"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio de parede da casa de vov\u00f4 Chico em Ipia\u00fa, Bahia. O tempo mora ali e quem toma conta \u00e9 o passarinho.<\/p>\n<p>O REL\u00d3GIO DE \u201cTRISTEZA\u201d<\/p>\n<p>O melhor goleiro da turma da Rua Gabriel Soares, em Salvador, era \u201cTristeza\u201d. Voava nos paralelep\u00edpedos durante os \u201cbabas\u201d, se ralava todo mas a bola n\u00e3o entrava. O apelido vem do fato dele nunca sorrir.<\/p>\n<p>\u201cTristeza\u201d tinha um rel\u00f3gio de pulso que s\u00f3 vivia quebrando. Levava ao relojoeiro e uma semana depois o bicho parava novamente de funcionar. Um dia, depois de umas quatro idas ao relojoeiro e do bicho parar mais uma vez, \u201cTristeza\u201d botou o rel\u00f3gio em cima do meio-fio, pegou um paralelep\u00edpedo, ergueu-o no alto, gritou \u201cagora voc\u00ea n\u00e3o vai mais aborrecer ningu\u00e9m\u201d e jogou-o com toda for\u00e7a sobre o rel\u00f3gio quebr\u00e3o.<\/p>\n<p>DESPONGAR DO BONDE<\/p>\n<p>Ainda peguei o bonde em Salvador. Tinha o bonde aberto e o bonde fechado. No aberto era mais f\u00e1cil viajar sem pagar, porque a gente fugia do cobrador andando pelos estribos.<\/p>\n<p>Eu, com uns 11 anos, e meu irm\u00e3o Cleomar, com uns 13, \u00edamos para o Cine Pax, na Baixa dos Sapateiros, que passava dois filmes de cob\u00f3i. A gente pegava um bonde, saltava na Pra\u00e7a da S\u00e9 e descia uma ladeira vizinha \u00e0 Igreja de S\u00e3o Francisco, que ia dar no Pax.<\/p>\n<p>Era um bonde aberto. Cleomar prop\u00f4s que a gente despongasse (saltar do bonde ainda em movimento)\u00a0 antes do bonde fazer a curva na Pra\u00e7a da S\u00e9. Eu n\u00e3o sabia despongar. Tem que\u00a0 ter uma arte pra isso: tem que pular do bonde com o corpo inclinado para tr\u00e1s porque sen\u00e3o voc\u00ea cai pra frente. Pulei reto, que nem uma vara em p\u00e9, todo duro. N\u00e3o deu outra: sa\u00ed \u201ccatando ficha\u201d e fui me estabacar numa velhinha, derrubando-a. Ela gritou \u201csocorro\u201d e s\u00f3 ouvi o grito de Cleomar \u201ccorre, Chico\u201d e me piquei ainda ouvindo os xingamentos da velhinha que me freou.<\/p>\n<p>DO ATO DE ESCREVER<\/p>\n<p>\u201cRemexa na mem\u00f3ria, na inf\u00e2ncia, nos sonhos, nas tes\u00f5es, nos fracassos, nas esperan\u00e7as mais descabidas&#8230;no fundo do po\u00e7o sem fundo do inconsciente: \u00e9 l\u00e1 que est\u00e1 o seu texto\u201d. (Do escritor Caio Fernando Abreu).<\/p>\n<p>BALC\u00c3O DE UMA VENDA<\/p>\n<p>O escritor Jos\u00e9 J. Veiga, em seu excelente livro \u201cA Hora dos Ruminantes\u201d, descreve na p\u00e1gina 19 o balc\u00e3o de uma venda na pequena cidade de Manarairema: \u201cO ch\u00e3o precisava de vassoura, o balc\u00e3o precisava de uma limpeza com pano molhado para tirar aquelas argolas do fundo de copo de cacha\u00e7a, os derramados de a\u00e7\u00facar, a gordura salgada dos pesos de carne seca, os farelos de rapadura e farinha\u201d.<\/p>\n<p>O TRATOR DO NATAL<\/p>\n<p>Nunca esque\u00e7o do trator que ganhei do meu pai Waldemar quando tinha uns quatro anos, em Ipia\u00fa. O trator soltava fagulhas enquanto andava e fiz sucesso no passeio da Rua 2 de Julho. Todo menino queria pegar no brinquedo encantador.<\/p>\n<p>Natal dorme na lembran\u00e7a e sempre acorda quando dezembro come\u00e7a. O pisca-pisca da fachada do Shopping Barra s\u00f3 me lembra o trator, e d\u00e1 vontade de chorar.<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) O rel\u00f3gio de parede da casa de vov\u00f4 Chico em Ipia\u00fa, Bahia. O tempo mora ali e quem toma conta \u00e9 o passarinho. O REL\u00d3GIO DE \u201cTRISTEZA\u201d O melhor goleiro da turma da Rua Gabriel Soares, em Salvador, era \u201cTristeza\u201d. 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