{"id":8847,"date":"2023-11-29T21:37:32","date_gmt":"2023-11-30T00:37:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8847"},"modified":"2023-11-29T21:37:41","modified_gmt":"2023-11-30T00:37:41","slug":"o-escritor-o-poeta-e-a-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/11\/29\/o-escritor-o-poeta-e-a-morte\/","title":{"rendered":"O ESCRITOR, O POETA E A MORTE"},"content":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 um ato cont\u00ednuo, um exerc\u00edcio da mente, utilizado tamb\u00e9m para manter o corpo e o esp\u00edrito alimentados. D\u00e1 apetite e fome, como exerc\u00edcio f\u00edsico, e serve para driblar a matreira morte, o ponto do fim existencial de todo ser vivo, especialmente o mais racional humano.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 ser um assunto macabro que a grande maioria prefere fazer de conta que ela n\u00e3o existe. Melhor tocar a vida e esquecer dela, mas n\u00e3o temos como escapar. Vez ou outra, a dita cuja est\u00e1 sempre batendo em nossa porta.<\/p>\n<p>Uns lutam mais que outros para sempre adiar o dia. Por injusti\u00e7a social, o pobre entra em suas garras mais cedo que o rico por quest\u00e3o financeira mais baixa. Infelizmente, o dinheiro faz adiar a sua data nas m\u00e3os de bons m\u00e9dicos e especializados hospitais.<\/p>\n<p>O escritor e o poeta, como o fazedor de arte, encontram sempre uma forma de engan\u00e1-la, como o bom malandro que enrola o dono do botequim para viver sua boemia. O poderoso e o avarento juntam mais e mais grana e nem lembram da sua fat\u00eddica vez. O poder na cabe\u00e7a faz achar que est\u00e3o livres.<\/p>\n<p>Se faz parte da minha vida, escrevo para viver, e se parar eu morro. J\u00e1 ouvi est\u00e1 frase de algu\u00e9m, ou \u00e9 minha mesmo, quando perguntado sobre a import\u00e2ncia e o significado da escrita para si. Colar palavras, pesquisar, escarafunchar e viajar na imagina\u00e7\u00e3o das letras \u00e9 uma sublima\u00e7\u00e3o. Me torna deus do olimpo.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, sorrateiramente, ela bate em sua porta, como n\u00e3o quer nada, e o escritor, com sua perspic\u00e1cia e ast\u00facia manda ela retornar outra hora porque est\u00e1 a escrever, ainda iniciando ou no meio do texto. Ele est\u00e1 me enrolando novamente &#8211; matuta consigo a morte.<\/p>\n<p>N\u00e3o se conforma. Ela \u00e9 persistente. Volta a bater na porta noutra oportunidade e, para sua decep\u00e7\u00e3o, escuta uma voz saindo l\u00e1 de dentro da escrivaninha: Continuo a escrever e sem previs\u00e3o de concluir a obra. \u201cVolte outro dia, ou outra hora\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Este cara s\u00f3 pode estar achando que sou uma besta ou uma idiota \u2013 segue a morte remoendo suas ideias na procura de outra presa. O escritor, ou poeta, se sente revigorado por ter ganhado mais tempo e ter arranjado um meio de se livrar da danada. As ideias borbulham e fervem. Mete a cara na labuta dias e dias, inventa hist\u00f3rias, causos, contos, cr\u00f4nicas, romances e at\u00e9 poesias, tudo no sentido de quebrar essa corrente e se tornar imortal.<\/p>\n<p>Ela demora, dar mais espa\u00e7o porque o cara \u00e9 duro na queda. Passa distante, olhar meio cabreira pela porta do escritor e segue sua longa jornada. \u00c9 uma peregrina indigesta que ningu\u00e9m quer cruzar pela sua frente. O melhor \u00e9 cortar caminho para que ela n\u00e3o lhe aborde.<\/p>\n<p>Algumas vezes, ronda seu quintal e percebe que o escritor ainda escreve pela madrugada a fora. -\u201cEle sofre de ins\u00f4nia? \u00a0Mais parece um lobisomem\u201d. A luz est\u00e1 acesa e ela ouve o deslizar da caneta a rascunhar no papel e o clicar nos teclados do computa. Sua escuta \u00e9 como um raio laser que penetra at\u00e9 paredes de a\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um valente teimoso, do tipo sertanejo nordestino da terra \u00e1rida, mas um dia, ou numa noite qualquer, pego ele desprevenido \u2013 assim pensa a morte, com seu bornal da dor da finitude. O escritor \u00e9 vigilante e mal dorme, s\u00f3 cochila e assim vai empurrando ela para mais longe do seu alcance.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 um ato cont\u00ednuo, um exerc\u00edcio da mente, utilizado tamb\u00e9m para manter o corpo e o esp\u00edrito alimentados. D\u00e1 apetite e fome, como exerc\u00edcio f\u00edsico, e serve para driblar a matreira morte, o ponto do fim existencial de todo ser vivo, especialmente o mais racional humano. 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