{"id":8835,"date":"2023-11-25T00:37:54","date_gmt":"2023-11-25T03:37:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8835"},"modified":"2023-11-25T00:38:03","modified_gmt":"2023-11-25T03:38:03","slug":"a-luta-pela-independencia-e-a-abolicao-na-perola-das-antilhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/11\/25\/a-luta-pela-independencia-e-a-abolicao-na-perola-das-antilhas\/","title":{"rendered":"A LUTA PELA INDEPEND\u00caNCIA E A ABOLI\u00c7\u00c3O NA &#8220;P\u00c9ROLA DAS ANTILHAS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Os negros cativos de S\u00e3o Domingos (hoje Haiti \u2013 \u201cP\u00e9rola das Antilhas\u201d) conseguiram a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 29 de agosto de 1793, mas a luta s\u00f3 foi totalmente consolidada com a independ\u00eancia, decretada em 1\u00ba de janeiro de 1804. Era a segunda independ\u00eancia nas Am\u00e9ricas, ap\u00f3s a dos Estados Unidos, em 1783.<\/p>\n<p>Quem conta toda essa hist\u00f3ria \u00e9 o escritor Marcel Dorigny em seu livro \u201cAs Aboli\u00e7\u00f5es da Escravatura no Brasil e no Mundo\u201d, no cap\u00edtulo \u201cA Primeira Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura (1789-1804). Em \u201co fracasso da aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico\u201d (1789-1790), ele narra que a ofensiva contra o com\u00e9rcio negreiro foi inaugurada pelos ingleses atrav\u00e9s de uma mo\u00e7\u00e3o parlamentar entregue a William Wilberforce, em maio de 1788.<\/p>\n<p>No entanto, um lobbie ligado \u00e0s col\u00f4nias e aos armadores se mobilizaram contra a proposta com 14 mil assinaturas recolhidas em Liverpool. O projeto foi rejeitado. Do outro lado, os fundadores da Sociedade dos Amigos do Negros, de Paris, acompanharam os debates e seguiram a escola inglesa numa for\u00e7a conjunta pela aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Os dirigentes da Sociedade, liderados por Condorcet, lan\u00e7aram em todo pa\u00eds franc\u00eas uma vasta campanha contra o tr\u00e1fico, mas n\u00e3o diretamente contra a escravid\u00e3o em si. Nessa linha, um parlamentar ingl\u00eas abriu a discuss\u00e3o no sentido do governo reduzir as comiss\u00f5es pagas para estimular o tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1789 o foco das proposi\u00e7\u00f5es era a aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, mas, por detr\u00e1s disso, questionava-se a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Da Inglaterra, o avan\u00e7o voltou-se para Paris a partir da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem, votada em 26 de outubro de 1789, cujo artigo primeiro dizia que \u201cos homens nascem e s\u00e3o livres e iguais em direitos\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo assim, segundo Marcel, a lei colocava de fora a escravid\u00e3o e o tr\u00e1fico. Nesse contexto, a Sociedade Amigos dos Negros confiou ao parlamentar Mirabeau a miss\u00e3o de preparar um discurso contra o tr\u00e1fico negreiro com o fim de arrancar uma lei de aboli\u00e7\u00e3o de todo com\u00e9rcio de seres humanos. O trabalho mobilizou toda uma equipe de pol\u00edticos, como \u00c9tienne Dumont, \u00c9tienne Clavi\u00e8re, Salomon Reybaz e o ingl\u00eas Thomas Clarkson.<\/p>\n<p>Com objetivo de sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica, Mirabeau recorreu a fortes ilustra\u00e7\u00f5es de mortes e castigos impostos aos negros, como as m\u00e1quinas de abrir a boca dos cativos para aliment\u00e1-los \u00e0 for\u00e7a. Na verdade, o discurso n\u00e3o chegou a ser proferido, mais uma vez por causa dos movimentos em favor das col\u00f4nias e dos armadores de navios.<\/p>\n<p>O famoso discurso s\u00f3 foi lan\u00e7ado em 22 de mar\u00e7o de 1790 diante da Sociedade dos Amigos dos Negros, s\u00f3 que n\u00e3o houve repercuss\u00e3o devido ao boicote dos conservadores. O assunto deixou de existir nas assembleias revolucion\u00e1rias at\u00e9 que o deputado Gr\u00e9goire retomou a quest\u00e3o, em 27 de julho de 1793. Uma conven\u00e7\u00e3o resolveu, ent\u00e3o, acabar com o subs\u00eddio da Rep\u00fablica concedido ao tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Os \u201clivres de cor\u201d, mesti\u00e7os e negros das col\u00f4nias passaram a reivindicar os direitos civis e c\u00edvicos do artigo primeiro da Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos. Os colonos reagiram e chegaram a excluir essa categoria de libertos das assembleias, criadas pelo decreto de 28 de mar\u00e7o de 1790.<\/p>\n<p>Diante disso, os \u201clivres de cor\u201d de S\u00e3o Domingos resolveram, no final de 1790, pegar em armas, seguindo o exemplo dos parisienses que tomaram a Bastilha. Mal organizados, os revoltosos foram logo esmagados e seus principais l\u00edderes Vicent Og\u00e9 e Jean-Baptiste Chavannes condenados ao apedrejamento em pra\u00e7a p\u00fablica, em 25 de fevereiro de 1791. Os outros foram enforcados e sentenciados \u00e0s gal\u00e9s.<\/p>\n<p>Apesar do fracasso, as ideias de liberdade n\u00e3o deixaram de existir e tiveram um f\u00e9rtil terreno na cis\u00e3o dos advers\u00e1rios que estavam em guerra, como a Inglaterra, Fran\u00e7a, Holanda e Espanha, que aliviaram a repress\u00e3o. Outra rebeli\u00e3o come\u00e7ou em 23 de agosto de 1791, perto de Cap-Fran\u00e7ais, a partir de uma cerim\u00f4nia noturna m\u00e1gico-religiosa, de inspira\u00e7\u00e3o vudu e mesclada a ritos crist\u00e3os, no \u201cbosque Caiman\u201d.<\/p>\n<p>Desse ato, 54 escravos prometeram jurar por liberdade. Boukman, letrado, vindo da Jamaica, foi o mestre da cerim\u00f4nia. Logo foi morto, mas continua como um mito no Haiti. A Assembleia da Fran\u00e7a enviou tropas para combater os rebeldes, mas depois, como manobra, decidiu criar um decreto para aproximar brancos e \u201clivres de cor\u201d, concedendo a estes direitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Dominada pelos partid\u00e1rios de Brissot, a Assembleia enviou tr\u00eas comiss\u00e1rios a S\u00e3o Domingos (L\u00e9ger-Felicit\u00e9 Sonthonax, \u00c9tienne Polverel e Ailhaud), para fazerem valer o decreto. Eles chegaram em 1792 em meio a uma guerra entre espanh\u00f3is e ingleses. A comiss\u00e3o fracassou e tiveram como sa\u00edda a aboli\u00e7\u00e3o, em 29 de agosto de 1793.<\/p>\n<p>Abolida a escravid\u00e3o, tr\u00eas novos deputados representando o povo de S\u00e3o Domingos foram eleitos e enviados a Paris, sendo eles Louis-Pierre Dufay (branco), Jean-Baptiste Mills (mesti\u00e7o) e Jean-Baptiste Belley (negro). Eles chegaram em Paris em 1794 e foram detidos, mas soltos depois quando relataram tudo o que estava ocorrendo na col\u00f4nia.<\/p>\n<p>A conven\u00e7\u00e3o votou pela aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em Haiti, estendida \u00e0s outras col\u00f4nias, mas na pr\u00e1tica a escravid\u00e3o continuou em Guadalupe e na Guiana, conquistada tempos depois, em dezembro de 1794. Pela lei de 1\u00ba de janeiro de 1798, as col\u00f4nias foram transformadas em departamentos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o golpe de Estado de Napole\u00e3o Bonaparte, uma nova Constitui\u00e7\u00e3o ignorou a integra\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias, abrindo caminho para o restabelecimento da escravid\u00e3o, principalmente com o fim da guerra com a Inglaterra (Tratado de Londres \u2013 1801 e de Amiens \u2013 1802). Em Guadalupe houve uma forte repress\u00e3o e a escravid\u00e3o voltou em 7 de julho de 1802. Em S\u00e3o Domingos, o enviado de Napole\u00e3o, seu cunhado Emmanuel Leclerc, se deu mal.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito ind\u00edgena, liderado pelos generais Toussaint Louverture,\u00a0 Jean- Jacques Dessalines e J\u00e9r\u00f4me P\u00e9ttion conseguiu vencer a reconquista militar da col\u00f4nia. Apesar da captura de Louverture, morto depois em Paris, as tropas francesas, comandadas por Rochambeau, capitularam em 18 de novembro de 1803.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o n\u00e3o foi restabelecida e S\u00e3o Domingos se tornou Rep\u00fablica do Haiti, em 1\u00ba de janeiro de 1804. \u201cAssim, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa nas col\u00f4nias foi marcada pela revolta vitoriosa dos escravos de S\u00e3o Domingos, que lhe impuseram uma aboli\u00e7\u00e3o radical da escravid\u00e3o, estendida \u00e0s outras col\u00f4nias&#8230;\u201d \u2013 conforme assinalou o escritor e historiador Marcel Dorigny.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os negros cativos de S\u00e3o Domingos (hoje Haiti \u2013 \u201cP\u00e9rola das Antilhas\u201d) conseguiram a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura em 29 de agosto de 1793, mas a luta s\u00f3 foi totalmente consolidada com a independ\u00eancia, decretada em 1\u00ba de janeiro de 1804. 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