{"id":8803,"date":"2023-11-16T20:30:33","date_gmt":"2023-11-16T23:30:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8803"},"modified":"2023-11-16T20:30:44","modified_gmt":"2023-11-16T23:30:44","slug":"historias-da-bahia-guardadas-no-moco-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/11\/16\/historias-da-bahia-guardadas-no-moco-2\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DA BAHIA GUARDADAS NO MOC\u00d3 (2)"},"content":{"rendered":"<p>(Algumas notas de Hildegardes Vianna no final do livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d)<\/p>\n<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Publico hoje a segunda parte da cr\u00f4nica sobre o livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d (Editora Itapu\u00e3, 1973), da folclorista Hildegardes Vianna.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cO quarto dos santos\u201d ela comenta: \u201cQuarto de santo \u00e9 atualmente express\u00e3o d\u00fabia. Pode significar casa de orix\u00e1 de candombl\u00e9 para a maioria dos leitores. Lugar de ora\u00e7\u00e3o para uns poucos. Afinal, hoje n\u00e3o h\u00e1 c\u00f4modos suficientes nas resid\u00eancias, come\u00e7ando a rarear os devotos empenhados em reunir v\u00e1rias imagens em seus nichos particulares\u201d.<\/p>\n<p>Depois de ressaltar que \u201cimagem nunca se compra, troca-se\u201d, Hildegardes explica: \u201cH\u00e1 uma supersti\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permite que algu\u00e9m diga que comprou uma imagem ou um santo. Consideram apenas como uma troca por dinheiro, porque s\u00f3 Judas vendeu um Santo\u201d.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cTodo mundo gosta de abar\u00e1\u201d ela lembra do \u201cabar\u00e1 que j\u00e1 vinha com a pimenta temperando a massa, que se desmanchava na boca como p\u00e3o-de-l\u00f3\u201d e lamenta que \u00e9 \u201cbem diferente do abar\u00e1 que se modificou pela exig\u00eancia do consumidor e n\u00e3o somente por culpa das vendedeiras. Abar\u00e1 que nem sempre traz camar\u00e3o na massa, recheado como um sandu\u00edche qualquer, com molhos de v\u00e1rios aspectos e proced\u00eancias, entupido com o vatap\u00e1, que nem sempre \u00e9 vatap\u00e1, ser\u00e1 que ainda \u00e9 abar\u00e1?\u201d. Lembro que este livro \u00e9 de 1973.<\/p>\n<p>Para ela, \u201cera f\u00e1cil identificar uma lavadeira. A vis\u00e3o de uma mulher descal\u00e7a, com uma trouxa de roupa \u00e0 cabe\u00e7a, nos dias de segunda-feira, era trivial.\u201d. Hildegardes escreve na cr\u00f4nica \u201cAs lavadeiras faziam assim\u201d: \u201cAs lavadeiras podem ser classificadas de v\u00e1rias formas: as que lavavam na casa da patroa e as que lavavam na fonte; as que lavavam por pe\u00e7a e as que lavavam por m\u00eas; as que apenas lavavam e as que lavavam e passavam, al\u00e9m das que lavavam e engomavam\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cAs m\u00e3os das baianas\u201d diz Hildegardes: \u201cEnquanto n\u00e3o aparece um poeta, deixem que eu fale das m\u00e3os das baianas que vestem suas roupas repolhudas nos dias de festa\u201d, e poetiza: \u201cReparem nas suas m\u00e3os que, agitando um galhinho de mangeric\u00e3o ou coisa que valha \u00e0 guisa de abanador, v\u00e3o e v\u00eam sobre o tabuleiro lentamente, num ritmo certo. S\u00e3o m\u00e3os nodosas, de unhas incertas. Estragadas, mas limpas. Contrastam com os bra\u00e7os sedosos e roli\u00e7os de suas donas. M\u00e3os de quem trabalha n\u00e3o s\u00e3o atraentes nem desej\u00e1veis, mas s\u00e3o m\u00e3os encantadas. M\u00e3os de fada\u201d.<\/p>\n<p>Antigamente, o xar\u00e9u era um peixe farto em Salvador. Dizem que o xar\u00e9u sumiu ou ficou raro nas nossas praias porque ele \u00e9 um peixe que n\u00e3o gosta de zoada e o barulho dos carros na orla o afastou. A cr\u00f4nica \u201cNo tempo do xar\u00e9u\u201d diz assim: \u201cXar\u00e9u era o peixe mais popular, mais barato, mais gostoso, mais consumido nesta nossa cidade. Xar\u00e9u fresquinho, pegado em Amaralina, comprado inteiro por pre\u00e7o mais irris\u00f3rio que o de uma \u00fanica posta de outro pescado. (As ovas, vendidas separadamente, constituem iguarias preciosas quando devidamente fritas)\u201d.<\/p>\n<p>Antigamente, no est\u00e1dio da Fonte Nova, quando faltavam 10 ou 15 minutos para o final do jogo, os port\u00f5es eram abertos para a entrada do \u201cxar\u00e9u\u201d, o pessoal que n\u00e3o podia pagar o ingresso.<\/p>\n<p>O jornalista Jos\u00e9 de Jesus Barreto conta que teve uma vez em que o \u201cxar\u00e9u\u201d assistiu todo o segundo tempo. Foi no jogo Bahia x Santa Cruz, pela Ta\u00e7a de Prata, antigo nome dado ao campeonato brasileiro. O Bahia havia tomado 4 x 0 no primeiro jogo e precisava fazer 5 x 0 para se classificar \u00e0s oitavas de final. Foi na noite de 5 de abril de 1981. Acabou o primeiro tempo com 3 x 0 para o Bahia e a\u00ed o presidente do tricolor, Paulo Maracaj\u00e1, no intervalo do jogo mandou abrir os port\u00f5es para entrar o \u201cxar\u00e9u\u201d, uma multid\u00e3o que lotou a Fonte Nova, aumentou a press\u00e3o da torcida e o Bahia deu os 5 x 0 que precisava, auxiliado pelo \u00e1rbitro Carlos Rosa Martins, que deixou de marcar \u201cum impedimento escandaloso\u201d no \u00faltimo gol do Bahia, aos 43 minutos do segundo tempo, lembra Barreto. A Fonte Nova explodiu de alegria e o \u201cxar\u00e9u\u201d teve um peso importante.<\/p>\n<p>Segundo Jos\u00e9 de Jesus Barrreto, outro fator que certamente ajudou o Bahia foi o que um radialista (o rep\u00f3rter de pista) perguntou ao juiz, quando este retornou do intervalo e se espantou diante da Fonte Nova lotada para o segundo tempo: \u201cO senhor vai ter coragem de anular um gol ou de marcar um p\u00eanalti contra esse time?\u201d<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cPalavras m\u00e1s\u201d Hildegardes escreve: \u201cAs horas eram boas e m\u00e1s. A pior de todas, a do meio-dia, quando o diabo sa\u00eda do inferno para a sua ronda di\u00e1ria\u201d. Mais adiante, observa: \u201cO que eram palavras ruins? Coitado era uma. N\u00e3o se lamentava algu\u00e9m, impunemente, exclamando: Coitado! \u201cCoitado do diabo que perdeu a gra\u00e7a de Deus, n\u00e3o eu que sou criatura de Deus, Padre todo poderoso. Coitado, por que?\u201d<\/p>\n<p>Hildegardes assinala: \u201cEspregui\u00e7ar-se com o gemido \u201cAi-Ai\u201d sem acrescentar \u201cmeu Deus\u201d era caso para reprimenda. \u201cAi-Ai\u201d era o diabo mais velho do inferno\u201d. Ela ainda observa: \u201cQuem tinha coragem de viver repetindo o nome de mis\u00e9ria, de desgra\u00e7a, apenas para descarregar o seu g\u00eanio?\u201d<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Algumas notas de Hildegardes Vianna no final do livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d) (Chico Ribeiro Neto) Publico hoje a segunda parte da cr\u00f4nica sobre o livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d (Editora Itapu\u00e3, 1973), da folclorista Hildegardes Vianna. Na cr\u00f4nica \u201cO quarto dos santos\u201d ela comenta: \u201cQuarto de santo \u00e9 atualmente express\u00e3o d\u00fabia. 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