{"id":8765,"date":"2023-11-07T22:48:10","date_gmt":"2023-11-08T01:48:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8765"},"modified":"2023-11-07T22:48:55","modified_gmt":"2023-11-08T01:48:55","slug":"historias-da-bahia-guardadas-no-moco-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/11\/07\/historias-da-bahia-guardadas-no-moco-1\/","title":{"rendered":"HIST\u00d3RIAS DA BAHIA GUARDADAS NO MOC\u00d3 (1)"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Releio o livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d, da folclorista Hildegardes Vianna, Editora Itapu\u00e3, 1973. Uma bela viagem no tempo. Diz a autora na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, que traz 61 cr\u00f4nicas: \u201cA BAHIA J\u00c1 FOI ASSIM, at\u00e9 mais ou menos 1940. Depois, tudo mudou. Minhas cr\u00f4nicas s\u00e3o baseadas em muita coisa que ainda alcancei, e tamb\u00e9m em informes preciosos de amigos prestimosos\u201d.<\/p>\n<p>O livro \u2013 t\u00e3o bom que vou coment\u00e1-lo em duas cr\u00f4nicas \u2013 \u00e9 prefaciado pelo antrop\u00f3logo Thales de Azevedo, que define Hildegardes como \u201cuma \u2018costumbrista\u2019 liter\u00e1ria\u201d e escreve: \u201cO folclore, a\u00ed, deixa de ser simploriamente tradi\u00e7\u00e3o e curiosidade para assumir o seu significado pr\u00f3prio de fixa\u00e7\u00e3o e intelig\u00eancia dos modos de ser humanos em qualquer \u00e9poca e lugar, mesmo quando n\u00e3o sejam tratados com o aparato te\u00f3rico e terminol\u00f3gico das ci\u00eancias da cultura\u201d.<\/p>\n<p>Hildegardes Vianna encerra assim a cr\u00f4nica \u201cA Ben\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cHoje, a ben\u00e7\u00e3o vive ainda na boca dos mo\u00e7os por um desses fen\u00f4menos dif\u00edceis de explicar. O mundo mudou. Os costumes evolu\u00edram. Mas, apesar dos pesares, n\u00e3o \u00e9 custoso se encontrar um homenzarr\u00e3o, deste tamanho, gritando para a sua velha, j\u00e1 na porta da rua: \u201cBen\u00e7\u00e3o, m\u00e3e!\u201d. Tamb\u00e9m isto \u00e9 sinal dos tempos\u201d.<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica \u201cO Ajuste\u201d \u00e9 aberta assim: \u201cO sistema do Tire e Pague, se simplificou a vida da cidade, por outro lado lhe roubou muitos encantos. Tornou quase todos os bairros iguais, sem diferen\u00e7as marcantes na paisagem humana. Retirou aquela cordialidade existente entre vendedores e compradores, aquele interc\u00e2mbio di\u00e1rio de impress\u00f5es que humanizava cada a\u00e7\u00e3o\u201d. Ela descreve a passagem do verdureiro: \u201cVinha com seu tabuleiro \u00e0 cabe\u00e7a, cavalete ao ombro, de porta em porta da freguesia, anunciando a sua chegada de maneira mais ou menos discreta\u201d.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cEles, os carroceiros\u201d, escreve Hildegardes: \u201cO tipo era inconfund\u00edvel. Cal\u00e7a e camisa feitas com pano de saco de farinha do Reino, chap\u00e9u de couro ensebado e deformado pelo uso, alpercatas toscas (mais tapa-sola que outra coisa), vez por outra um jaleco, mangual dependurado ao pulso direito, uma praga eternamente \u00e0 flor dos l\u00e1bios. Por fortuna, apenas o burro ou mula e a carro\u00e7a. Por amor, as mulheres de todos os amores. Por divertimento, um toque de viola ou um gole de cacha\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Na cr\u00f4nica \u201cBotica Velha\u201d diz ela: \u201cUm tipo que sumiu na paisagem humana da cidade foi o \u201chomem das folhas\u201d que supria a botica velha. Passava pelas ruas de semana em semana, de m\u00eas em m\u00eas, balaio sobre a cabe\u00e7a, moc\u00f3 pendurado ao ombro, cabaz na m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Hildegardes prossegue: \u201cNo balaio vinham as plantas corriqueiras: maria-preta, ang\u00e9lica de cheiro, macela galega, angico, chic\u00f3ria, rompe-gib\u00e3o, carqueja, alm\u00e9cega, crista-de-galo, dand\u00e1, assa-peixe branco, eucalipto, laranjeira da terra, fedegoso, velame branco, malva, sabugueiro, etc. No moc\u00f3 apenas as encomendas representadas por mandacaru de sete quinas, abacate branco, quixaba, escada de macaco, cord\u00e3o de S\u00e3o Francisco, aroeira, artem\u00edsia de cheiro, bananeira de S\u00e3o Tom\u00e9, resina de jatob\u00e1, etc.\u201d<\/p>\n<p>A cr\u00f4nica \u201cA mulher do mingau\u201d come\u00e7a assim: \u201cEra naquele tempo em que havia aquele ditado: \u201cQuando eu nasci j\u00e1 se bebia mingau\u201d. Mingau vendido ao clarear do dia por uma mulher que mercava por mercar, porque era f\u00e1cil fazer freguesia certa. Em sua grande gamela redonda de pau, assentada sobre a grossa rodilha de pano de saco que lhe protegia a cabe\u00e7a, a vendedeira equilibrava um lat\u00e3o com o mingau fervente, muito bem enrolado em toalhas alvas, que se confundiam com o verdadeiro pedestal de panos dobrados\u201d.<\/p>\n<p>Hildegardes Vianna morreu em 12 de junho de 2005, aos 87 anos. Seu acervo, um dos mais ricos sobre o folclore brasileiro, foi doado \u00e0 Academia de Letras da Bahia. O Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia tamb\u00e9m possui documentos da escritora, no Arquivo Hist\u00f3rico, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para consulta. (Fonte: www.ighb.org.br).<\/p>\n<p>(Continua na pr\u00f3xima semana)<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Releio o livro \u201cA Bahia j\u00e1 foi assim\u201d, da folclorista Hildegardes Vianna, Editora Itapu\u00e3, 1973. Uma bela viagem no tempo. Diz a autora na apresenta\u00e7\u00e3o do livro, que traz 61 cr\u00f4nicas: \u201cA BAHIA J\u00c1 FOI ASSIM, at\u00e9 mais ou menos 1940. Depois, tudo mudou. 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