{"id":8728,"date":"2023-10-27T23:32:07","date_gmt":"2023-10-28T02:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8728"},"modified":"2023-10-27T23:32:14","modified_gmt":"2023-10-28T02:32:14","slug":"dentro-da-baleia-e-outros-ensaios-final","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/10\/27\/dentro-da-baleia-e-outros-ensaios-final\/","title":{"rendered":"&#8220;DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS&#8221; (Final)"},"content":{"rendered":"<p>REFLEX\u00d5ES SOBRE A LITERATURA NOS REGIMES TOTALIT\u00c1RIOS E NAS DEMOCRACIAS; A PROSA E O POEMA; OS CIENTISTAS; E OS MAL\u00c9FICIOS DA MECANIZA\u00c7\u00c3O NAS ARTES. \u201cCOMO ACONTECE COM CERTOS ANIMAIS SELVAGENS, A IMAGINA\u00c7\u00c3O N\u00c3O SOBREVIVE EM CATIVEIRO\u201d.<\/p>\n<p>O escritor indiano-ingl\u00eas, George Orwell, em sua obra \u201cDentro da Baleia e Outros ensaios\u201d faz uma reflex\u00e3o sobre a literatura nos regimes totalit\u00e1rios e nas democracias e como ela consegue sobreviver. Sobre o poema e a prosa, diz que o primeiro pode ser elaborado em conjunto, at\u00e9 na batida de um instrumento onde uma inspira\u00e7\u00e3o vai se juntar com a do outro, enquanto a segunda requer mais solid\u00e3o e trabalho individual.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cA Preven\u00e7\u00e3o contra a Literatura\u201d, ele come\u00e7a citando \u201cPen Club\u201d (clube internacional de escritores fundado em 1921) e a Areopag\u00edtica de John Milton, de 1644, um panfleto em defesa da liberdade de imprensa. Sobre o clube, descreve que, de um lado, estavam os apologistas do totalitarismo e do outro os inimigos do monop\u00f3lio e da burocracia (a concentra\u00e7\u00e3o da imprensa nas m\u00e3os de uns poucos ricos).<\/p>\n<p>\u201cA independ\u00eancia do escritor e do artista \u00e9 devorada por for\u00e7as econ\u00f4micas vagas e, ao mesmo tempo, corro\u00edda por aqueles que deveriam ser seus defensores\u201d&#8230; \u201cA liberdade de pensamento e de imprensa s\u00e3o normalmente atacadas com argumentos que nem vale a pena mencionar\u201d. \u00c9 claro que ele fala da sua \u00e9poca dos anos 30\/40, mas sua observa\u00e7\u00e3o vale para nossos tempos atuais.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, afirma que os cat\u00f3licos e os comunistas s\u00e3o semelhantes na suposi\u00e7\u00e3o de que um oponente n\u00e3o pode ser ao mesmo tempo honesto e inteligente. Cada um deles alega que a verdade j\u00e1 foi revelada e que o her\u00e9tico est\u00e1 secretamente ciente da \u201cverdade\u201d e resiste a ela meramente por raz\u00f5es ego\u00edstas.<\/p>\n<p>Em sua cr\u00edtica, a liberdade do intelecto significa liberdade para relatar o que se viu e sentiu, e n\u00e3o ser obrigado a fabricar fatos e sentimentos imagin\u00e1rios. \u201cO argumento de que contar a verdade \u201cseria inoportuno\u201d ou \u201cfavoreceria o jogo\u201d de algu\u00e9m \u00e9 considerada irrespond\u00edvel, e poucas pessoas se incomodam com a perspectiva de as mentiras que elas toleram irem para os jornais e livros de hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Orwell destaca que a mentira organizada, praticada por estados totalit\u00e1rios, \u00e9 algo inerente ao totalitarismo. Para ele, uma mentira grande n\u00e3o \u00e9 pior do que uma pequena. \u201cUma sociedade totalit\u00e1ria que tivesse sucesso em se perpetuar estabeleceria provavelmente um sistema de pensamento esquizofr\u00eanico\u201d&#8230; Segundo o escritor, existem pessoas que consideram um esc\u00e2ndalo falsificar um texto cient\u00edfico, mas que nada seria errado falsificar um fato hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Na literatura pol\u00edtica, em sua avalia\u00e7\u00e3o, o totalitarismo exerce maior press\u00e3o sobre o intelecto. \u201cIsso explica em parte o fato de em todos os pa\u00edses ser mais f\u00e1cil para os cientistas do que para os escritores alinhar-se aos respectivos governos\u201d.<\/p>\n<p>Sobre a Inglaterra, onde os inimigos da verdade s\u00e3o os bar\u00f5es da imprensa e na R\u00fassia sovi\u00e9tica ser um territ\u00f3rio proibido na imprensa brit\u00e2nica, certos temas s\u00e3o exclu\u00eddos do debate. \u201cTodo escritor \u00e9 um pol\u00edtico, e cada livro \u00e9 necessariamente um trabalho de reportagem honesta\u201d. Muitos sup\u00f5em que o escritor \u00e9 uma pena de aluguel &#8211; assinala.<\/p>\n<p>Em sua \u00f3tica, o jornalista n\u00e3o \u00e9 livre e tem consci\u00eancia da falta de liberdade quando \u00e9 for\u00e7ado a escrever mentiras ou a suprimir o que a ele parecem not\u00edcias importantes. \u201cO escritor imaginativo n\u00e3o \u00e9 livre quando precisa falsificar os sentimentos subjetivos que, de um ponto de vista, s\u00e3o fatos. Ele pode distorcer a realidade de forma a tornar mais claros seus objetivos, mas n\u00e3o pode adulterar seu cen\u00e1rio mental. Se ele for for\u00e7ado a fazer isso, o \u00fanico resultado ser\u00e1 que suas faculdades criativas v\u00e3o secar\u201d.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, literatura genuinamente apol\u00edtica \u00e9 coisa que n\u00e3o existe, menos ainda em uma \u00e9poca como a nossa, quando medos, \u00f3dios e lealdades de um tipo claramente pol\u00edtico est\u00e3o pr\u00f3ximos da superf\u00edcie na consci\u00eancia de todas as pessoas.<\/p>\n<p>A PROSA E A POESIA<\/p>\n<p>Em seu ensaio, ressalta que a literatura algumas vezes floresceu sob regimes desp\u00f3ticos, por\u00e9m conforme foi assinalado com frequ\u00eancia, os despotismos do passado n\u00e3o eram totalitaristas. A prosa liter\u00e1ria atingiu seu n\u00edvel mais alto nos per\u00edodos de democracia e livre reflex\u00e3o. \u00a0Essa prosa desapareceu durante a \u00fanica era de f\u00e9 que a Europa j\u00e1 teve. Ao longo da Idade M\u00e9dia, quase n\u00e3o existiu prosa liter\u00e1ria imaginativa, e bem pouco texto hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>De acordo com ele, n\u00e3o est\u00e1 claro se os efeitos do totalitarismo sobre a poesia s\u00e3o necessariamente t\u00e3o fatais quanto sobre a prosa. H\u00e1 uma s\u00e9rie de raz\u00f5es convergentes pelas quais \u00e9 um pouco mais f\u00e1cil para um poeta do que para um prosador sentir-se \u00e0 vontade em uma sociedade autorit\u00e1ria. Burocratas e outros homens \u201cpr\u00e1ticos\u201d desprezam os poetas por terem grande interesse no que ele est\u00e1 dizendo.<\/p>\n<p>\u201cA ideia contida em um poema \u00e9 sempre simples. Um poema \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de sons e associa\u00e7\u00f5es, como uma pintura \u00e9 um combinado de pinceladas. Para fragmentos curtos, na verdade, como no refr\u00e3o de uma m\u00fasica, a poesia pode at\u00e9 mesmo abrir m\u00e3o totalmente do significado. \u00c9 relativamente f\u00e1cil para um poeta manter-se distante de temas perigosos e evitar expressar heresias e, mesmos quando expressam, elas podem passar despercebidas\u201d.<\/p>\n<p>Na poesia existe, segundo o ensa\u00edsta, o tipo de colabora\u00e7\u00e3o, o contr\u00e1rio da prosa que \u00e9 feita mais na solid\u00e3o. \u201cA poesia pode sobreviver at\u00e9 mesmo sob regime mais inquisitorial. Mesmo em uma sociedade em que a liberdade e a individualidade foram extintas, ainda haveria necessidade de m\u00fasicas patriotas e baladas heroicas que comemorassem conquistas e bajula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das sociedades totalit\u00e1rias sugere que a perda de liberdade \u00e9 inimiga de todas as formas de literatura \u2013 segundo sentencia Orwell, ao apontar que a literatura alem\u00e3 quase desapareceu durante o governo de Hitler, e a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi diferente na It\u00e1lia, bem como na R\u00fassia desde que se deteriorou nos primeiros dias da Revolu\u00e7\u00e3o em 1917, embora alguns poemas pare\u00e7am ser melhores do que na prosa.<\/p>\n<p>Sobre a Europa Ocidental e a Am\u00e9rica, destaca que parcelas da literatura passaram pelo Partido Comunista ou foram simpatizantes, mas esse movimento para a esquerda produziu poucos livros dignos de se ler. \u201cO catolicismo ortodoxo parece ter um efeito esmagador sobre certos g\u00eaneros, como o romance. Ningu\u00e9m jamais escreveu um bom livro em louvor \u00e0 Inquisi\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em sua cr\u00edtica, a poesia pode sobreviver em regimes totalit\u00e1rios, mas o escritor da prosa n\u00e3o teria escolha entre o sil\u00eancio e a morte. \u201cA destrui\u00e7\u00e3o da liberdade mutila o jornalista, o escritor, o historiador, o romancista, o cr\u00edtico e o poeta, nessa ordem\u201d.<\/p>\n<p>A MECANIZA\u00c7\u00c3O NAS ARTES<\/p>\n<p>George Orwell chegou a prever a mecaniza\u00e7\u00e3o das artes como um todo onde haveria uma queda de produ\u00e7\u00e3o, autenticidade e conte\u00fado. \u201c\u00c9 prov\u00e1vel que romances e contos sejam substitu\u00eddos por filmes e programas de r\u00e1dio. Um processo de mecaniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 pode ser visto em funcionamento no cinema e no r\u00e1dio em n\u00edveis mais baixos de jornalismo\u201d.<\/p>\n<p>Os filmes da Disney s\u00e3o produzidos por um processo fabril de forma mec\u00e2nica, em parte por grupos de artistas que precisam sujeitar seu estilo individual. Pe\u00e7as de r\u00e1dio s\u00e3o escritas por redatores exaustos. O que eles escrevem \u00e9 um material bruto, fatiado e formatado por produtores censores, bem como livros encomendados por departamentos do governo \u2013 ressalta o autor.<\/p>\n<p>Nessa mecaniza\u00e7\u00e3o ele cita contos, seriados e poemas para revistas mais baratas. Declara que em jornais abundam an\u00fancios de escolas de literatura, todas oferecendo enredos prontos por poucos xilins por hora. Outras fornecem frases de abertura e de encerramento de cada cap\u00edtulo. Algumas, pacotes de cart\u00f5es, com anota\u00e7\u00f5es sobre personagens e situa\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o, conforme diz, seria eliminada do processo de escrita. De forma indireta ele chegou a prever a cria\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial quando afirmou que a imagina\u00e7\u00e3o seria eliminada do processo de escrita. Os livros seriam planejados por burocratas e depois passariam por tantas m\u00e3os que terminariam n\u00e3o sendo mais um produto individual do que um carro da Ford ao fim da linha de montagem. Para o autor, algo assim seria uma porcaria.<\/p>\n<p>\u201cPara exercer seu direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o, voc\u00ea precisa lutar contra a press\u00e3o econ\u00f4mica e contra parcelas poderosas da opini\u00e3o p\u00fablica, mas n\u00e3o, ainda contra a pol\u00edcia secreta. O grande p\u00fablico n\u00e3o se importa com a quest\u00e3o, de uma forma ou de outra. Eles s\u00e3o ao mesmo tempo l\u00facidos demais e est\u00fapidos demais para desenvolverem o ponto de vista totalit\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>OS CIENTISTAS PRIVILEGIADOS<\/p>\n<p>Segundo Orwell, a R\u00fassia \u00e9 um pais grande em desenvolvimento que tem uma necessidade aguda de cientistas e, por isso, trata eles com generosidade. Desde que n\u00e3o se metam com psicologia, eles s\u00e3o privilegiados. Por sua vez, os escritores s\u00e3o perseguidos e deles \u00e9 extirpada a liberdade de express\u00e3o. O cientista deve dizer: Os escritores s\u00e3o perseguidos. \u201cE da\u00ed, eu n\u00e3o sou escritor\u201d. O Estado totalit\u00e1rio tolera o cientista porque precisa dele, a exemplo da Alemanha nazista onde eles n\u00e3o ofereceram resist\u00eancia a Hitler- enfatiza Orwell.<\/p>\n<p>O cientista pode at\u00e9 gozar de certo grau de liberdade, mas Orwell adverte que se ele quer salvaguardar a integridade da ci\u00eancia, \u00e9 seu dever ser solid\u00e1rio para com os colegas liter\u00e1rios e n\u00e3o considerar com indiferen\u00e7a que escritores sejam silenciados ou levados ao suic\u00eddio, e os jornais falsificados.<\/p>\n<p>Por fim, ele ressalta que a literatura est\u00e1 condenada se a liberdade de pensamento perecer. Em seu ponto de vista, uma mente vendida \u00e9 uma mente estragada, tornando imposs\u00edvel a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. \u201cNo momento, sabemos apenas que a imagina\u00e7\u00e3o, como certos animais selvagens, n\u00e3o sobrevive em cativeiro\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>REFLEX\u00d5ES SOBRE A LITERATURA NOS REGIMES TOTALIT\u00c1RIOS E NAS DEMOCRACIAS; A PROSA E O POEMA; OS CIENTISTAS; E OS MAL\u00c9FICIOS DA MECANIZA\u00c7\u00c3O NAS ARTES. \u201cCOMO ACONTECE COM CERTOS ANIMAIS SELVAGENS, A IMAGINA\u00c7\u00c3O N\u00c3O SOBREVIVE EM CATIVEIRO\u201d. 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