{"id":8683,"date":"2023-10-14T00:01:05","date_gmt":"2023-10-14T03:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8683"},"modified":"2023-10-14T00:01:13","modified_gmt":"2023-10-14T03:01:13","slug":"dentro-da-baleia-e-outros-ensaios-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/10\/14\/dentro-da-baleia-e-outros-ensaios-iii\/","title":{"rendered":"&#8220;DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS&#8221; III"},"content":{"rendered":"<p>AS CR\u00cdTICAS DE TOLST\u00d3I \u00c0S PE\u00c7AS DE SHAKESPEARE E A DEFESA DE GEORGE ORWELL EM RESPOSTA AO RUSSO.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cLear, Tolst\u00f3i e o Bobo\u201d, o autor de \u201cDentro da Baleia e Outros Ensaios\u201d, George Orwell exp\u00f5e as cr\u00edticas de Tolst\u00f3i contra o escritor e dramaturgo Shakespeare onde, ao mesmo tempo, rebate o russo relatando partes negativas de sua vida e afirma que ele n\u00e3o tinha propriedade para menosprezar as obras do poeta ingl\u00eas, especialmente quanto a sua habilidade para com as palavras, que soavam como m\u00fasica.<\/p>\n<p>Ao analisar a pe\u00e7a Rei Lear, Tolst\u00f3i, atrav\u00e9s do seu panfleto, considera que Shakespeare n\u00e3o \u00e9 nem \u201cum autor mediado\u201d, quanto mais um g\u00eanio. Em sua apresenta\u00e7\u00e3o sobre o do enredo de Rei Lear, o russo julga como est\u00fapido, verborr\u00e1gico, antinatural, incompreens\u00edvel, bomb\u00e1stico, vulgar, tedioso e repleto de epis\u00f3dios inveross\u00edmeis, \u201cloucos desvarios\u201d, cheio de obscenidades, sem contar as faltas morais e est\u00e9ticas.<\/p>\n<p>\u201cLear \u00e9, de qualquer forma, pl\u00e1gio de uma pe\u00e7a mais antiga e muito melhor, Rei Leir, de autoria desconhecida, que Shakespeare roubou e arruinou\u201d. Em seu panfleto, o russo arrasa o ingl\u00eas com termos depreciativos. O veredicto final de Tolst\u00f3i sobre Lear, conforme descreve Orwell, \u201c\u00e9 que nenhum observador n\u00e3o hipnotizado, se um observador assim existisse, conseguiria ler a pe\u00e7a at\u00e9 o fim com nenhum sentimento, exceto \u201cavers\u00e3o e fastio\u201d.<\/p>\n<p>Sua cr\u00edtica \u00e1spera inclui todas suas outras pe\u00e7as, segundo ele, sem sentido que foram, dramatizados, como P\u00e9ricles, Noite de Reis, A Tempestade, Cimbelino, Troilo e Cr\u00e9ssida. Ele acha que Shakespeare tem alguma habilidade t\u00e9cnica, devido em parte ao seu passado, como ator, mas absolutamente nenhum outro m\u00e9rito.<\/p>\n<p>Para Tolst\u00f3i, a linguagem do ingl\u00eas \u00e9 exagerada e rid\u00edcula, que enfia os pr\u00f3prios pensamentos aleat\u00f3rios na boca de qualquer personagem que por acaso esteja \u00e0 m\u00e3o. \u201cDemonstra \u201cuma aus\u00eancia completa de senso est\u00e9tico, e suas palavras \u201dn\u00e3o t\u00eam nada em comum com a arte e nem com a poesia. Shakespeare pode ter sido o que voc\u00ea quiser, mas ele n\u00e3o era um artista\u201d \u2013 diz Tolst\u00f3i, acrescentando que sua tend\u00eancia \u00e9 do \u201ctipo mais baixo e imoral\u201d. \u201cSeu princ\u00edpio \u00e9 que o fim justifica o meio\u201d.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do russo, a fama do ingl\u00eas est\u00e1 em uma esp\u00e9cie de \u201chipnose das massas\u201d ou em uma \u201csugest\u00e3o epid\u00eamica\u201d. Ressalta ainda que o mundo civilizado vem sendo induzido a pensar que Shakespeare \u00e9 um bom escritor. Sobre a fama do ingl\u00eas, o russo declara que ela foi promovida por acad\u00eamicos alem\u00e3es no final do s\u00e9culo XVIII. \u201cSua reputa\u00e7\u00e3o surgiu na Alemanha e de l\u00e1 foi transferida para a Inglaterra\u201d.<\/p>\n<p>Do outro lado, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cr\u00edticas de Tolst\u00f3i, o autor de \u201cDentro da Baleia e Outros Ensaios\u201d, retruca que o sentimento que se tem \u00e9 de que, ao descrever o ingl\u00eas como um mau escritor, ele est\u00e1 dizendo algo demonstrativamente inver\u00eddico. Para Orwell, n\u00e3o existe nenhum tipo de evid\u00eancia ou argumento pelo qual se possa demonstrar que Shakespeare, ou qualquer outro escritor, seja \u201cbom\u201d, nem que seja \u201cruim\u201d. \u201cN\u00e3o existe teste de m\u00e9rito liter\u00e1rio, a n\u00e3o ser a sobreviv\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTeorias art\u00edsticas como a de Tolst\u00f3i s\u00e3o bastante in\u00fateis porque n\u00e3o apenas partem de princ\u00edpios arbitr\u00e1rios como dependem de termos vagos, que podem ser interpretados de qualquer forma que se queira\u201d. Orwell indaga o porqu\u00ea dos ataques de Tolst\u00f3i. Em sua opini\u00e3o, o russo usa muitos argumentos fracos ou desonestos. \u201cSua an\u00e1lise sobre Rei Lear \u00e9 \u201cimparcial\u201d, como duas vezes ele alega ser. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 um longo exerc\u00edcio de distor\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Orwell afirma que nenhuma dessas interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas \u00e9 por si muito grosseira, mas o efeito cumulativo \u00e9 exagerar a incoer\u00eancia psicol\u00f3gica da pe\u00e7a. Diz tamb\u00e9m que Tolst\u00f3i n\u00e3o \u00e9 capaz de explicar por que as pe\u00e7as de Shakespeare ainda estavam sendo impressas e encenadas duzentos anos depois de sua morte. Mais diante chama o trabalho de Tolst\u00f3i de simples adivinha\u00e7\u00e3o, pontuado por declara\u00e7\u00f5es falsas expl\u00edcitas.<\/p>\n<p>Destaca que muitas das acusa\u00e7\u00f5es do russo se contradizem mutuamente. \u201cDe modo geral, \u00e9 dif\u00edcil sentir que as cr\u00edticas de Tolst\u00f3i s\u00e3o feitas de boa-f\u00e9\u201d. Entende ser imposs\u00edvel que ele acreditasse na tese principal que, por um s\u00e9culo ou mais, todo mundo civilizado tenha sido engolfado por uma mentira enorme e palp\u00e1vel que ele, e somente ele, tenha sido capaz de perceber.<\/p>\n<p>Em determinado trecho, Orwell chega a concordar com Tolst\u00f3i quando critica que a pe\u00e7a Lear n\u00e3o \u00e9 muito boa por ser longa demais e ter excessos de personagens e de subtramas.<\/p>\n<p>Entretanto, assinala que \u201cTolst\u00f3i era capaz de repudiar a viol\u00eancia f\u00edsica e de enxergar o que isso implica, mas n\u00e3o era capaz de toler\u00e2ncia nem de humildade, e, mesmo sem conhecer nenhum de seus outros textos, uma pessoa poderia deduzir sua tend\u00eancia \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o espiritual a partir desse \u00fanico panfleto\u201d. Sua rixa com Shakespeare vai al\u00e9m. \u00c9 uma rixa entre as atitudes religiosas e as humanistas diante da vida \u2013 rebate Orwell.<\/p>\n<p>O autor de \u201cDentro da Baleia e Outros Ensaios\u201d observa que existe um epis\u00f3dio de semelhan\u00e7as entre a pe\u00e7a de Lear e a vida de Tolst\u00f3i que foi seu ato imenso e gratuito de ren\u00fancia. \u201cEm sua velhice renunciou \u00e0s propriedades, aos t\u00edtulos e direitos autorais e fez uma tentativa, n\u00e3o bem-sucedida de escapar de sua posi\u00e7\u00e3o privilegiada e levar a vida de um campon\u00eas. Tolst\u00f3i renunciou ao mundo na expectativa de que isso o faria feliz, mas n\u00e3o foi feliz\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS CR\u00cdTICAS DE TOLST\u00d3I \u00c0S PE\u00c7AS DE SHAKESPEARE E A DEFESA DE GEORGE ORWELL EM RESPOSTA AO RUSSO. 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