{"id":866,"date":"2015-03-09T23:08:05","date_gmt":"2015-03-10T02:08:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=866"},"modified":"2015-03-09T23:08:12","modified_gmt":"2015-03-10T02:08:12","slug":"pepetela-e-a-alma-de-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/03\/09\/pepetela-e-a-alma-de-angola\/","title":{"rendered":"PEPETELA E A ALMA DE ANGOLA"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>De Orlando Senna<\/strong><\/p>\n<p><strong>Blog Refletor Tal-Telev\u00edsi\u00f3n Am\u00e9rica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Indicado pelo professor Itamar Aguiar<\/strong><\/p>\n<p>Angola est\u00e1 celebrando 40 anos de independ\u00eancia, ocorrida em 1975 quando Portugal devolveu a soberania do pa\u00eds aos angolanos, depois de meio mil\u00eanio de domina\u00e7\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de uma Angola independente, durante essas quatro d\u00e9cadas, n\u00e3o foi, nem est\u00e1 sendo, nada f\u00e1cil. Teve de superar uma guerra intestina entre os tr\u00eas grupos armados que lutaram pela independ\u00eancia (MPLA, UNITA, FNLA), que s\u00f3 terminou em 2002, e tentativas de invas\u00e3o por parte da \u00c1frica do Sul, do brutal regime do apartheid.<\/p>\n<p>O MPLA-Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola controlou a situa\u00e7\u00e3o e fixou-se no poder, sob a lideran\u00e7a do poeta Agostinho Neto e pautado pelo marxismo-leninismo, que foi substitu\u00eddo no final da d\u00e9cada 1990 por um sistema de economia de mercado e democracia multipartid\u00e1ria. Multipartid\u00e1ria em termos, j\u00e1 que, ap\u00f3s a morte de Agostinho Neto em 1979, ocupou o poder o engenheiro Jos\u00e9 Eduardo dos Santos, que est\u00e1 completando 36 anos como presidente.<\/p>\n<p>Especialistas em pol\u00edtica africana dizem que as reelei\u00e7\u00f5es se devem ao bom desempenho de Santos na administra\u00e7\u00e3o das maiores riquezas de Angola, petr\u00f3leo e diamantes, mas os problemas sociais e econ\u00f4micos s\u00e3o muitos, al\u00e9m de suspeitas e acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o (Isabel dos Santos, filha do presidente, \u00e9 considerada a mulher mais rica da \u00c1frica). Esse cen\u00e1rio confuso e convulso, com elementos relacionados tanto \u00e0 ancestralidade (a milenar cultura banto) como \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um novo pa\u00eds formado por v\u00e1rias etnias \u00e9 o tema central da obra de um dos maiores escritores da atualidade, o angolano Pepetela, Pr\u00eamio Cam\u00f5es de 1997.<\/p>\n<p><!--more-->Neste m\u00eas de mar\u00e7o a editora LeYa est\u00e1 lan\u00e7ando no Brasil mais um de seus livros,\u00a0<em>Lueji-O nascimento de um imp\u00e9rio<\/em>, uma singular Hist\u00f3ria de Angola em dois planos, narrada atrav\u00e9s de duas mulheres separadas por 400 anos, ambas perseguindo suas identidades pessoais e sociais: Lueji, rainha do Reino Lunda (1050 a 1887), e a contempor\u00e2nea Lu, uma jovem bailarina. A editora LeYa e antes a \u00c1tica publicaram no Brasil v\u00e1rios dos mais de 20 livros dele, a maioria romances inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Conheci a literatura de Pepetela e o pr\u00f3prio no fim da d\u00e9cada 1970, quando fui a Luanda para trabalhar com ele no projeto de um filme angolano-mo\u00e7ambicano, que n\u00e3o foi consumado, a partir de seu romance\u00a0<em>Mayombe<\/em>, sobre os sentimentos, op\u00e7\u00f5es, sintonias e assintonias de um grupo guerrilheiro em a\u00e7\u00e3o durante a guerra de liberta\u00e7\u00e3o de Angola. Pepetela, na \u00e9poca um dos comandantes guerrilheiros do MPLA, escreveu o livro enquanto combatia, em meio a tiroteios e ang\u00fastias. Pepetela, seu nome de guerra, que adotou para sempre, \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o em umbundo, um dos idiomas angolanos, do seu sobrenome portugu\u00eas Pestana (foi batizado como Artur Pestana). E sua \u00fanica filha se chama Lueji.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que raz\u00e3o o cinema e a televis\u00e3o ainda n\u00e3o mergulharam no mar de personagens e hist\u00f3rias de Pepetela (Angola \u00e9 uma excelente op\u00e7\u00e3o para a atual pol\u00edtica de coprodu\u00e7\u00f5es do Brasil), mas sabemos todos que o g\u00eanero romance nos conta as sagas de povos e culturas com maior profundidade do que a Hist\u00f3ria com H mai\u00fasculo. Vale lembrar Homero e a Gr\u00e9cia, Dostoi\u00e9vski e a R\u00fassia, Balzac e Victor Hugo e a Fran\u00e7a, Jane Austen e a Inglaterra,\u00a0Dante Alighieri e o mundo medieval, Garc\u00eda M\u00e1rquez e a Am\u00e9rica hisp\u00e2nica, Machado de Assis e o Brasil. \u00c9 nos romances, e n\u00e3o na historiografia, que podemos conhecer a alma dos povos.<\/p>\n<p>Pepetela, com sua delicada, sutil, maliciosa, bem humorada e aguda arte liter\u00e1ria est\u00e1 desvendando a alma de Angola, de um pa\u00eds em constru\u00e7\u00e3o habitado por culturas pr\u00e9-hist\u00f3ricas, de um conjunto de povos que, mesmo escravizado durante s\u00e9culos, influenciou culturas assentadas como a portuguesa e culturas novas como a brasileira. Mais ou menos a cada dois anos ele d\u00e1 \u00e0 luz um novo livro e \u00e9 sempre uma surpresa.<\/p>\n<p>No ano passado li seu romance mais recente,\u00a0<em>O t\u00edmido e as mulheres<\/em>, sobre a esfuziante Luanda da atualidade, seis milh\u00f5es de habitantes, a cidade mais cara do mundo, com novos ricos, novos milion\u00e1rios e muitas favelas, os musseques como se diz por l\u00e1. Uma roda viva de desejos, desilus\u00f5es, encantamentos, paix\u00f5es, desesperos, alegrias e a busca incans\u00e1vel de felicidades e de atalhos para o futuro. Uma \u00c1frica que muitos de voc\u00eas n\u00e3o conhecem e outros muitos nem fazem ideia. Recomendo: leiam e vivam Pepetela.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p><strong>Coment\u00e1rio:<\/strong><\/p>\n<p>Orlando que nos anos 1970 contribuiu com a cinematografia e com a organiza\u00e7\u00e3o da TV de Angola, com o seu especial poder de s\u00edntese, nos brinda desta feita com informa\u00e7\u00f5es preciosas sobre a obra liter\u00e1ria de Pepetela e, a import\u00e2ncia de Angola no contexto da hist\u00f3ria da Europa, Africana e das Am\u00e9ricas e, mui especialmente destaco o Brasil para onde foram traficados em torno de quatro milh\u00f5es de africanos, dentre os quais, a maior quantidade de bantos e, dentre estes, a maioria de indiv\u00edduos Angolanos distribu\u00eddos pelas diversas regi\u00f5es do Pa\u00eds, os quais contribu\u00edram com a cria\u00e7\u00e3o da l\u00edngua Portuguesa fala no Brasil. Assim, afirma Yeda Pessoa de Castro: \u201d- a presen\u00e7a do povo banto, anterior em dois s\u00e9culos \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de ewes e em tr\u00eas s\u00e9culos \u00e0 de iorub\u00e1s, foi marcante e constante em todas as regi\u00f5es do Brasil [&#8230;] e o negro banto, mais do que outros, o principal modelador da l\u00edngua portuguesa em sua fei\u00e7\u00e3o brasileira e seu difusor pelo territ\u00f3rio brasileiro sob regime col\u00f4nia e escravista (CASTRO, 2001, p.129).<\/p>\n<p>A grande influ\u00eancia dos angolanos na forma\u00e7\u00e3o da l\u00edngua portuguesa falada no Brasil, com certeza, justifica e potencializa a import\u00e2ncia de conhecermos a obra liter\u00e1ria de Pepetela e denota o conhecimento e perspic\u00e1cia de Orlando ao eleger o tema, <strong>Pepetela e a alma de Angola, <\/strong>e escrever o presente artigo.<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; De Orlando Senna Blog Refletor Tal-Telev\u00edsi\u00f3n Am\u00e9rica Indicado pelo professor Itamar Aguiar Angola est\u00e1 celebrando 40 anos de independ\u00eancia, ocorrida em 1975 quando Portugal devolveu a soberania do pa\u00eds aos angolanos, depois de meio mil\u00eanio de domina\u00e7\u00e3o. A constru\u00e7\u00e3o de uma Angola independente, durante essas quatro d\u00e9cadas, n\u00e3o foi, nem est\u00e1 sendo, nada f\u00e1cil. 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