{"id":8646,"date":"2023-10-03T22:48:18","date_gmt":"2023-10-04T01:48:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8646"},"modified":"2023-10-03T22:49:38","modified_gmt":"2023-10-04T01:49:38","slug":"8646","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/10\/03\/8646\/","title":{"rendered":"EU ACEITO E N\u00c3O ACUSO"},"content":{"rendered":"<p>Eu aceito sua m\u00e3o em casamento. Juro amor eterno, ser fiel no respeito, na alegria e na tristeza, nos momentos mais dif\u00edceis, na pobreza e na riqueza. S\u00e3o palavras do altar que tamb\u00e9m fa\u00e7o na vida real, na minha aldeia e na tribo em que vivo. S\u00e3o compromissos n\u00e3o cumpridos.<\/p>\n<p>O tempo vai se arrastando at\u00e9 a monotonia, e esse elo um dia se quebra quando batem as adversidades. Priorizei os direitos em detrimento dos deveres. N\u00e3o acuso a mim mesmo como sou e nem reviso o passado como aprendizagem. Eu aceito porque acho que deve ser assim o viver sem acusar, aqui no sentido de contestar. Nem pedi para vir ao mundo.\u00a0 N\u00e3o passo de um sopro.<\/p>\n<p>O enlace matrimonial \u00e9 apenas um contrato social como qualquer outro nesse sistema capitalista de apar\u00eancias e vaidades onde sou levado a seguir normas como manda o figurino da ordem das coisas. A tudo eu aceito, mas n\u00e3o acuso nem os meus pr\u00f3prios atos.<\/p>\n<p>Eu aceito fazer parte dessa engrenagem, ver o progresso destruir o ser humano e a pr\u00f3pria m\u00e1quina me triturar. A pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia acaba de engolir ela mesma, porque \u00e9 cativa e escrava do mercado e n\u00e3o est\u00e1 a servi\u00e7o do humanizar. Aceito tudo que diz essa m\u00eddia vazia, sem conte\u00fado.<\/p>\n<p>N\u00e3o passo apenas de uma mat\u00e9ria-prima do poder selecionador das ra\u00e7as que cuida em eliminar, lentamente, de morte os mais fracos, e eu aceito e n\u00e3o acuso esse processo perverso do massacre. Eu aceito a viol\u00eancia e as matan\u00e7as, as corrup\u00e7\u00f5es, os conluios e as injusti\u00e7as sociais como se fizessem parte de uma lei natural, sem revers\u00e3o. Aceito que as coisas s\u00e3o assim e n\u00e3o h\u00e1 como mudar.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acuso o meu comodismo, individualismo, meu ego\u00edsmo e passividade diante dos horrores da vida daqueles que padecem na fome e na exclus\u00e3o total, sem a usufruir da dignidade merecida. \u00c0s vezes entro com um aux\u00edlio de doa\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias para enganar minha consci\u00eancia de que ela est\u00e1 em paz comigo mesmo.<\/p>\n<p>Eu aceito ser apenas uma pe\u00e7a ou parafuso para fazer a m\u00e1quina girar e nem questiono e acuso se ela tirou milhares de empregos dos exclu\u00eddos que n\u00e3o tiveram forma\u00e7\u00e3o escolar e ensino para acompanhar sua engenharia. Eu estou sentado sobre um iceberg derretendo e nem percebo. N\u00e3o passo de um burgu\u00eas-puritano dentro da barriga de uma baleia, como o Jonas da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Se tenho uma casa para morar, um carrinho na garagem ou na porta para rodar, um bar para tomar umas geladas com os falsos amigos, eu aceito o meu mudinho mesquinho e n\u00e3o acuso a decad\u00eancia e o decl\u00ednio da humanidade que est\u00e1 auto se destruindo.<\/p>\n<p>Nem acuso o aquecimento global, os desmatamentos, as queimadas, os tuf\u00f5es e os ciclones, o consumismo do lixo e vou seguindo minha vidinha mon\u00f3tona, sem gra\u00e7a e nem penso na morte que pode bater em minha porta a qualquer hora. Sou um idiota imbecil que acha que j\u00e1 cumpriu sua miss\u00e3o na terra.<\/p>\n<p>Eu aceito o anormal como normal, o errado como o certo e o desonesto como um bom predicado do \u201cvencedor\u201d a qualquer pre\u00e7o. Aceito o levar vantagem em tudo, ser bicho toupeira ou a avestruz que mete a cabe\u00e7a no ch\u00e3o. Aceito tudo aquilo que os outros aceitam.<\/p>\n<p>N\u00e3o acuso quem rouba e s\u00f3 quero mesmo \u00e9 passar o dia no celular hipnotizado nas redes sociais, lendo besteiras e fake news, disseminando o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia. N\u00e3o acuso a ignor\u00e2ncia e aceito ser patrulhado em minha liberdade de express\u00e3o. Tenho medo de externar livremente o que penso para n\u00e3o ser moralmente linchado. Aceito a censura volunt\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por tanto aceitar, eu termino entrando em isolamento e depress\u00e3o, o mal do s\u00e9culo que eu n\u00e3o acuso como consequ\u00eancia dessa sociedade constru\u00edda com pilares de areia. Como nas juras de amor, n\u00e3o passo de um traidor de mim mesmo, um simples carv\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu aceito e n\u00e3o acuso porque sempre ando a dizer que n\u00e3o tenho tempo para refletir, conversar com os outros, responder as mensagens e s\u00f3 fa\u00e7o me encantar e concordar com as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas (intelig\u00eancia artificial), sem fazer indaga\u00e7\u00f5es. Se os outros aceitam e acham ser bom para a humanidade, eu tamb\u00e9m aceito. N\u00e3o quero entrar nessa de filosofar porque isso \u00e9 coisa de intelectual desocupado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu aceito sua m\u00e3o em casamento. Juro amor eterno, ser fiel no respeito, na alegria e na tristeza, nos momentos mais dif\u00edceis, na pobreza e na riqueza. S\u00e3o palavras do altar que tamb\u00e9m fa\u00e7o na vida real, na minha aldeia e na tribo em que vivo. S\u00e3o compromissos n\u00e3o cumpridos. 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