{"id":8636,"date":"2023-09-29T22:50:38","date_gmt":"2023-09-30T01:50:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8636"},"modified":"2023-09-29T22:50:46","modified_gmt":"2023-09-30T01:50:46","slug":"dentro-da-baleia-e-outros-ensaios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/09\/29\/dentro-da-baleia-e-outros-ensaios\/","title":{"rendered":"&#8220;DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>De George Orwell, de a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Bichos\u201d<\/p>\n<p>Para escritores e outros que ainda n\u00e3o leram, deve se debru\u00e7ar sobre as cr\u00edticas liter\u00e1rias de George Orwell aos livros \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d e \u201cPrimavera Negra\u201d, de Henry Miller, bem como de outros autores, como Alfred Edward Housman, J. Joyce. T.S. Eliot, E. Poud. D. H. Lawrence,\u00a0 Wyndham Lewis, Aldous Huxley e Lytton Strachey.<\/p>\n<p>Sobre esse grupo, diz Orweel que eles n\u00e3o parecem um grupo. Lawrence\u00a0 e Eliot n\u00e3o gostavam um do outro. Huxley adorava Lawrence, mas era repelido por Joyce. A maioria teria esnobado Huxley. Lewis atacava todos os outros.<\/p>\n<p>\u201cSe a ideia b\u00e1sica dos poetas georgianos era a \u201cbeleza da natureza\u201d, a dos escritores do p\u00f3s-guerra (I Guerra) seria o \u201csentido tr\u00e1gico da vida\u201d. Todos eles t\u00eam um temperamento hostil \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cprogresso\u201d. O sentimento \u00e9 que nem deveria acontecer.<\/p>\n<p>O pessimismo de Eliot em parte \u00e9 um lamento sobre a decad\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Em sua an\u00e1lise, a inclina\u00e7\u00e3o de todos os escritores desse grupo \u00e9 conservadora. Muitos tinham queda pelo fascismo, outros eram indiferentes. Huxley, desespero com a vida.<\/p>\n<p>Por que os principais escritores dos anos 20 s\u00e3o pessimistas? Por que h\u00e1 sempre uma sensa\u00e7\u00e3o de decad\u00eancia. N\u00e3o seria, quem sabe porque essas pessoas escreveram em uma \u00e9poca de conforto excepcional? \u201c\u00c9 s\u00f3 em per\u00edodos assim que o \u201cdesespero c\u00f3smico\u201d pode florescer. Pessoas de barriga vazia nunca se desesperam pelo universo, nem ali\u00e1s, pensam sobre o universo\u201d.<\/p>\n<p>Em suas abordagens, no primeiro cap\u00edtulo, Orwell fala do cen\u00e1rio liter\u00e1rio dos anos 20, para ele a \u00e9poca de ouro, e solta reflex\u00f5es sobre a arte do escrever onde o leitor \u00e9 al\u00e7ado a entrar nessa baleia. Ele come\u00e7a pelo romance de Miller, \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d que apareceu em 1935. O pr\u00f3prio insiste ser pura autobiografia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_6581.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8637\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_6581.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_6581.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/DSC_6581-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>O ensa\u00edsta do cen\u00e1rio da \u00e9poca na Fran\u00e7a, narra que em alguns bairros da cidade, a quantidade dos assim chamados artistas deve ter superado a dos trabalhadores. Calculou-se que no final dos anos 20 havia trinta mil pintores em Paris, a maior parte \u201cimpostores\u201d. \u201cFoi a era dos azar\u00f5es e dos g\u00eanios\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Pelas suas obscenidades nauseantes, a obra de Miller tornou-se impublic\u00e1vel. No mundo dos t\u00famulos sombrios, descrito entre outros por Lewis, sobre o qual Miller escreve, abordando apenas o lado de baixo: as formas do lupemproletariado.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria, como descreve Orwell, de quartos infestados de percevejos em hot\u00e9is para oper\u00e1rios, de brigas, de surtos de bebedeiras, bordeis baratos, refugiados russos (Revolu\u00e7\u00e3o Russa), mendic\u00e2ncia, trapa\u00e7a e empregos tempor\u00e1rios. Todo esse cheiro de azedo foi mat\u00e9ria-prima para o romance de Miller que se alimentou desse lixo.<\/p>\n<p>Quando \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d foi publicado, os italianos marchavam sobre a Abiss\u00ednia e os campos de concentra\u00e7\u00e3o de Hitler j\u00e1 estavam entupidos. Os centros intelectuais do mundo eram Roma, Moscou e Berlim. Foi um romance sobre norte-americanos combalidos mendigando b\u00eabados no Quartier Latin. Um ano mais tarde foi publicado \u201cPrimavera Negra.<\/p>\n<p>Na compara\u00e7\u00e3o com Joyce, de Ulisses, o cr\u00edtico de \u201cDentro da Baleia\u201d, diz que h\u00e1 um tra\u00e7o dele, n\u00e3o em todo lugar. Em \u201cPrimavera Negra\u201d, mesmo com pontos surrealista, todos se sentem iguais. \u201cMiller escreve sobre o ser humano na rua e, a prop\u00f3sito, \u00e9 uma pena que seja uma rua cheia de bordeias.<\/p>\n<p>\u201cEm \u201cPrimavera\u201d h\u00e1 um flashback maravilhoso de Nova Iorque fervilhante de irlandeses, mas as cenas de Paris s\u00e3o as melhores\u201d. No romance de \u201cTr\u00f3pico\u201d, os b\u00eabados e vagabundos s\u00e3o tratados com maestria na t\u00e9cnica rigorosamente \u00fanica \u2013 assinala, ao pontuar que as sensa\u00e7\u00f5es s\u00e3o que todas as aventuras deles acontecem com voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u201cA grosseria indiferente com que os personagens de \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d falam \u00e9 muito rara na fic\u00e7\u00e3o, mas comum na vida real. George Orwwll esclarece que \u201cTr\u00f3pico\u201d n\u00e3o \u00e9 um livro de um jovem. Miller tinha mais de 40 anos quando foi publicado. \u00c9 um livro maturado na pobreza e na obscuridade. A prosa \u00e9 um espanto e, em partes de \u201cPrimavera\u201d, ainda melhor\u201d. Palavras impublic\u00e1veis est\u00e3o em todas as partes.<\/p>\n<p>\u201cMiller \u00e9 uma pessoa falando sobre a vida, um homem de neg\u00f3cios norte-americano comum, com coragem intelectual e um dom para as palavras\u201d. &#8230;\u201dTendo atr\u00e1s de si anos de lupemproletariado, fome, vagabundagem, sujeira, fracasso, noites ao relento, batalhas contra agentes de imigra\u00e7\u00e3o, lutas infinitas por um pouco de dinheiro, Miller descobre que est\u00e1 se divertindo\u201d.<\/p>\n<p>Sobre Walt Whitman, em \u201cFolhas de Relva\u201d, o ensa\u00edsta afirma que ele escreveu num per\u00edodo de prosperidade nos anos 30 onde a liberdade valia mais que a palavra. Voltando a Miller, assinala que existe uma correla\u00e7\u00e3o Whitman. \u201cTr\u00f3pico\u201d termina com uma passagem whitmanesca, na qual, depois das lux\u00farias, trapa\u00e7as, brigas, bebedeiras e imbecilidades, ele simplesmente se senta e observa o Sena passar, em uma esp\u00e9cie de aceita\u00e7\u00e3o (eu aceito) m\u00edstica das coisas como elas s\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDizer \u201ceu aceito\u201d em uma \u00e9poca como a nossa, \u00e9 dizer que voc\u00ea aceita campos de concentra\u00e7\u00e3o, cassetetes de borracha, Hitler, Stalin, bombas, avi\u00f5es, comidas enlatadas, metralhadoras, golpes, expurgos, lemas, esteiras de linhas de produ\u00e7\u00e3o, m\u00e1scaras contra g\u00e1s, submarinos, espi\u00f5es, arruaceiros, censura \u00e0 imprensa, pris\u00f5es clandestinas, aspirinas, filmes de Hollywood e assassinatos pol\u00edticos\u201d.<\/p>\n<p>Para Orweel, a verdade \u00e9 que a vida cotidiana comum consiste muito mais de horrores do que os autores de fic\u00e7\u00e3o se d\u00e3o ao trabalho de admitir.\u00a0 Ele faz reflex\u00f5es com base em outros autores, que se encaixam no mundo atual quando fala que vivemos em um mundo que est\u00e1 se encolhendo. As \u201cvistas democr\u00e1ticas\u201d terminaram em arame farpado. \u201cAceitar a civiliza\u00e7\u00e3o como ela \u00e9, praticamente significa aceitar o decl\u00ednio\u201d.<\/p>\n<p>Orweel ressalta que as pessoas em \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d chegam muito perto de serem comuns, na medida em que s\u00e3o pregui\u00e7osas, desonradas e mais ou menos \u201cart\u00edsticas. Entre as d\u00e9cadas de 20 e 30, avaliar um livro por seu conte\u00fado era pecado imperdo\u00e1vel, e mesmo ter consci\u00eancia do conte\u00fado era considerada falta de gosto \u2013 afirma o autor de \u201cDentro da Baleia\u201d.<\/p>\n<p>Nos anos 1930-1935 algo acontece e a atmosfera liter\u00e1ria muda, na vis\u00e3o de Orwell, que cita Auden, Spender e outros como novo grupo de escritores que entram em cena, com \u201ctend\u00eancia diversa\u201d. \u201cSa\u00edmos do crep\u00fasculo dos deuses e entramos em um tipo de clima escoteiro, com joelhos \u00e0 mostra e cantorias em grupo\u201d. O literato deixa de ser um expatriado cultural com inclina\u00e7\u00e3o para a Igreja, tornando-se voltado para o comunismo. Se a ideia b\u00e1sica dos escritores dos anos 20 \u00e9 o \u201csentido tr\u00e1gico da vida\u201d, para os novos \u00e9 o \u201cprop\u00f3sito s\u00e9rio\u201d- observa o cr\u00edtico liter\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De George Orwell, de a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Bichos\u201d Para escritores e outros que ainda n\u00e3o leram, deve se debru\u00e7ar sobre as cr\u00edticas liter\u00e1rias de George Orwell aos livros \u201cTr\u00f3pico de C\u00e2ncer\u201d e \u201cPrimavera Negra\u201d, de Henry Miller, bem como de outros autores, como Alfred Edward Housman, J. Joyce. T.S. Eliot, E. Poud. D. H. 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