{"id":8629,"date":"2023-09-27T20:54:54","date_gmt":"2023-09-27T23:54:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8629"},"modified":"2023-09-27T20:55:04","modified_gmt":"2023-09-27T23:55:04","slug":"fazer-uma-coisa-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/09\/27\/fazer-uma-coisa-so\/","title":{"rendered":"FAZER UMA COISA S\u00d3"},"content":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto)<\/p>\n<p>Quando eu tinha uns 10 anos, em Salvador, mam\u00e3e Cleonice me mandou comprar coador de caf\u00e9 de pano na Rua da Ajuda e ainda me dava o troco para o picol\u00e9. Cheguei l\u00e1, era perto de um antiqu\u00e1rio, quase na Ladeira da Pra\u00e7a, e l\u00e1 estava o vendedor: em p\u00e9 no passeio, com os dois bra\u00e7os cheios de coador. Voltei pra casa intrigado: aquele cara s\u00f3 vende uma coisa na vida.<\/p>\n<p>Tinha um primo que vendia bilhetes da Loteria Federal sentado numa escadinha que levava a uma casa lot\u00e9rica, no Forte S\u00e3o Pedro. Tinha sua freguesia certa e assim sobrevivia. \u00c0s vezes parava para cumpriment\u00e1-lo. Era de pouca conversa. Seu \u00fanico trabalho era vender a sorte no seu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Tinha um cara na Pituba que s\u00f3 vendia aipim, muito bom por sinal. Morei no bairro alguns anos e sempre o via pela manh\u00e3 com o carrinho cheio de aipim e coberto com algumas folhas. Antes de meio-dia j\u00e1 tinha vendido tudo. Esse mudou. Na \u00faltima vez em que o vi continuava a vender aipim \u2013 agora j\u00e1 descascado e embalado \u2013 junto com batata doce, banana da terra, inhame e quiabo, \u201cdiversificando os produtos para agregar valores ao seu neg\u00f3cio\u201d.<\/p>\n<p>Outro dia vi o letreiro na fachada de um restaurante: carnes, frutos do mar e massas. Dificilmente far\u00e1 as tr\u00eas coisas bem feitas.<\/p>\n<p>Sempre admirei quem vende uma coisa s\u00f3 ou quem faz uma coisa s\u00f3, e bem feita. Nunca gostei daqueles caras que parecem uma orquestra: t\u00eam uma flauta amarrada na boca, tocam guitarra, o p\u00e9 direito toca um bumbo, o p\u00e9 esquerdo toca uma caixa, t\u00eam uns guizos presos no pesco\u00e7o e se duvidar ainda tocam mais um instrumento com a orelha.<\/p>\n<p>\u201cTemo o homem de um livro s\u00f3\u201d, dizia Santo Agostinho, que tamb\u00e9m sentenciou: \u201cO mundo \u00e9 um livro, e quem fica sentado em casa l\u00ea somente uma p\u00e1gina\u201d.<\/p>\n<p>Meu pai Waldemar tinha uma padaria em Ipia\u00fa (BA) e queria abrir um segundo neg\u00f3cio. Meu av\u00f4 Chico Ribeiro o desaconselhou: \u201cOu voc\u00ea toca o sino ou acompanha a prociss\u00e3o\u201d. E tem gente que toca o sino e ainda carrega o andor na prociss\u00e3o. \u201cCuidado com o andor que o santo \u00e9 de barro\u201d.<\/p>\n<p>Nunca pintei quadros. N\u00e3o sei cantar e n\u00e3o toco nenhum instrumento. N\u00e3o sei fazer m\u00f3veis de madeira nem trocar a resist\u00eancia do chuveiro. Procuro apenas lidar com meu of\u00edcio de escrever, onde minha caneta vira p\u00e1 e pincel, enxada e picareta, enx\u00f3 e serra, martelo e chave de fenda, voz e viol\u00e3o. Meus instrumentos s\u00e3o uma caneta tinta preta e um caderno de 200 folhas. E assim toco a vida.<\/p>\n<p>(Veja cr\u00f4nicas anteriores em leiamaisba.com.br)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Chico Ribeiro Neto) Quando eu tinha uns 10 anos, em Salvador, mam\u00e3e Cleonice me mandou comprar coador de caf\u00e9 de pano na Rua da Ajuda e ainda me dava o troco para o picol\u00e9. 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