{"id":8614,"date":"2023-09-21T23:49:29","date_gmt":"2023-09-22T02:49:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8614"},"modified":"2023-09-21T23:49:34","modified_gmt":"2023-09-22T02:49:34","slug":"por-que-suica-baiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/09\/21\/por-que-suica-baiana\/","title":{"rendered":"POR QUE SUI\u00c7A BAIANA?"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Gonz\u00e1lez &#8211; jornalista<\/p>\n<p>As frases ditas h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo pelo pol\u00eamico jornalista Nelson Rodrigues continuam atuais, assim como sua obra liter\u00e1ria, suas pe\u00e7as teatrais, seus princ\u00edpios conservadores e seu amor pelo futebol. Uma de suas mais conhecidas teorias, a que deu o nome de Complexo de Vira-Lata\u201d, coloca em discuss\u00e3o a baixa autoestima do brasileiro, pr\u00f3digo em acatar o que vem de fora.<\/p>\n<p>Se vivo estivesse, o escritor pernambucano, autor de \u201c\u00c0 Sombra das Chuteiras Imortais\u201d, bradaria com veem\u00eancia, com voz rouca e o cigarro no canto da boca, contra a aus\u00eancia de orgulho do conquistense, inclusive da m\u00eddia local, ao se referir a sua terra como a \u201cSu\u00ed\u00e7a Baiana\u201d.<\/p>\n<p>Segundo os defensores do termo inadequado h\u00e1 uma semelhan\u00e7a entre as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas de Vit\u00f3ria da Conquista e da Su\u00ed\u00e7a. O que n\u00e3o \u00e9 verdade. Celebrado como modelo de desenvolvimento econ\u00f4mico e social, a Su\u00ed\u00e7a registra entre dezembro e fevereiro temperaturas abaixo de zero. Aqui, os term\u00f4metros raramente chegam aos 10 graus.<\/p>\n<p>De acordo com os meteorologistas, Piat\u00e3 e Morro do Chap\u00e9u, na Chapada Diamantina, registram as mais baixas temperaturas na Bahia, seguidos de Vit\u00f3ria da Conquista. O inverno este ano n\u00e3o foi t\u00e3o severo com a popula\u00e7\u00e3o conquistense, v\u00edtima do aquecimento global, como bilh\u00f5es de pessoas neste planeta.<\/p>\n<p>Como todos podem observar, o com\u00e9rcio varejista de artigos de vestu\u00e1rio deixou de vender como em anos anteriores e vai ter que esperar 2024 para repassar ao consumidor o que est\u00e1 estocado. No recente Festival de Inverno, as jovens usavam vestidos de al\u00e7a, porque os term\u00f4metros, mesmo nas madrugadas, insistiam em marcar temperaturas amenas.<\/p>\n<p>O autor dessa discordante compara\u00e7\u00e3o preferiu ficar no anonimato, ao contr\u00e1rio do romancista franc\u00eas Albert Camus, que em 1949 deu ao Recife a alcunha de Veneza brasileira, fascinado com a topografia da cidade, cortada por pontes sobre os rios Capibaribe e Beberibe. Na verdade, o recifense\u00a0nunca se revelou envaidecido pelo qualificativo dado por um europeu.<\/p>\n<p>Arraial de Conquista foi o nome que o sertanista portugu\u00eas deu em 1783 \u00e0 regi\u00e3o que se tornaria uma esp\u00e9cie de capital do Sudoeste baiano e do Norte mineiro. Em julho de 1891, a antiga vila foi elevada \u00e0 categoria de cidade, batizada de Conquista, recebendo em dezembro de 1943 o prenome de Vit\u00f3ria porque j\u00e1 havia em Minas Gerais um munic\u00edpio com o mesmo nome.<\/p>\n<p>Com uma \u00e1rea de 3.254.186 km\u00b2 e uma popula\u00e7\u00e3o de 387.524 habitantes (Censo de 2022), Vit\u00f3ria da Conquista exibe indicadores econ\u00f4micos e sociais que a colocam no top 10 entre os munic\u00edpios nordestinos, excetuando as capitais. No entanto, est\u00e1 longe de rivalizar com cidades do mesmo porte situadas no Sul e Sudeste, em parte por culpa dos seus gestores e legisladores, que substituem o trabalho pela politicagem.<\/p>\n<p>No passado, Conquista foi rotulada como a \u201cCapital do Caf\u00e9\u201d. As lavouras da rubi\u00e1cea ocupavam grandes \u00e1reas do Planalto Conquistense. Essa honraria foi \u201croubada\u201d pelos nossos vizinhos da pequena, mas empreendedora Barra do Cho\u00e7a, que vem exportando para o exterior um caf\u00e9 de \u00f3tima qualidade.<\/p>\n<p>Do caf\u00e9 ao biscoito. Por iniciativa do vereador Edvaldo Ferreira Jr. (MDB), Conquista poder\u00e1 receber o t\u00edtulo de \u201cCapital Estadual do Biscoito\u201d. O projeto de lei foi encaminhado ao deputado Tiago Correa (PSDB) para ser votado pela Assembleia Legislativa do Estado.<\/p>\n<p>Autor de dois projetos qualificados como controversos (mo\u00e7\u00e3o de aplausos para o empres\u00e1rio bolsonarista Luciano Hank (o homem do terno verde) e constru\u00e7\u00e3o de um cemit\u00e9rio para c\u00e3es de estima\u00e7\u00e3o), o vereador emedebista justifica sua proposta: \u201cA fabrica\u00e7\u00e3o do biscoito avoador coloca a cidade na rota do empreendedorismo e do turismo na Bahia e faz parte de uma enorme cadeia produtiva que gera emprego e renda para Conquista\u201d. Edvaldo Jr. tamb\u00e9m idealiza criar a \u201cSemana do Biscoito\u201d.<\/p>\n<p>Lembro que, em setembro do ano passado, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema Neto, sancionou a Lei 23.946, criando a \u201cCapital Estadual do Caf\u00e9 com Biscoito\u201d e a \u201cCapital Estadual do Biscoito Artesanal\u201d, credenciais dadas, respectivamente, \u00e0s cidades de S\u00e3o Tiago e Japomar.<\/p>\n<p>Retomando a nossa conversa sobre Nelson Rodrigues, recordo sua paix\u00e3o pela Sele\u00e7\u00e3o Brasileira e pelo Fluminense (\u201cSe o Fluminense jogasse no c\u00e9u, eu morreria para v\u00ea-lo jogar\u201d). Na sede do clube, em Laranjeiras, no Rio, foi colocado um busto em homenagem ao criador do Sobrenatural do Almeida, uma esp\u00e9cie de anjo de guarda do Tricolor.<\/p>\n<p>A Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de 1958 foi a raz\u00e3o que levou N\u00e9lson Rodrigues a escrever a cr\u00f4nica \u201cComplexo de Vira-Lata\u201d, publicada na semana que antecedeu a estreia da equipe comandada pelo t\u00e9cnico Vicente Feola na Copa do Mundo da Su\u00e9cia, onde ganhou sua primeira \u201cJules Rimet\u201d.<\/p>\n<p>Diante das frustra\u00e7\u00f5es causadas pelos times de 1950 (derrota para o Uruguai na partida final) e de 1954 (goleado pela Hungria nas quartas de final), o de 1958 levou na bagagem para a Su\u00e9cia o descr\u00e9dito do torcedor brasileiro. Um dos poucos otimistas, Nelson Rodrigues escreveu: \u201cPerdemos em 1950 de maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: Obdulio Varela (\u201ccapit\u00e3o\u201d da equipe uruguaia) nos tratou a pontap\u00e9s, como se vira-lata f\u00f4ssemos\u201d. A maldita express\u00e3o atravessou d\u00e9cadas e tem sido at\u00e9 hoje tema de estudos e debates nos c\u00edrculos liter\u00e1rios e sociais.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o licen\u00e7a aos meus colegas de imprensa que evitem se referir a Vit\u00f3ria da Conquista como a \u201cSu\u00ed\u00e7a Baiana\u201d. Vamos lembrar do pequeno (\u00e1rea de 41.285 km\u00b2) pa\u00eds do centro da Europa como um exemplo de democracia, de economia est\u00e1vel, de excelente qualidade de vida, e um dos principais destinos tur\u00edsticos do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Gonz\u00e1lez &#8211; jornalista As frases ditas h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo pelo pol\u00eamico jornalista Nelson Rodrigues continuam atuais, assim como sua obra liter\u00e1ria, suas pe\u00e7as teatrais, seus princ\u00edpios conservadores e seu amor pelo futebol. 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