{"id":846,"date":"2015-03-02T22:48:06","date_gmt":"2015-03-03T01:48:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=846"},"modified":"2015-03-02T22:48:13","modified_gmt":"2015-03-03T01:48:13","slug":"sociedade-da-aceleracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/03\/02\/sociedade-da-aceleracao\/","title":{"rendered":"SOCIEDADE DA ACELERA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>De Orlando Senna<\/strong><\/p>\n<p><strong>Blog Refletor TAL-Television Am\u00e9rica<\/strong><\/p>\n<p><strong>Indicado e comentado por Itamar Aguiar<\/strong><\/p>\n<p>O tempo \u00e9 o maior dos mist\u00e9rios. A \u00fanica maneira do ser humano fazer uma ideia do que \u00e9 o tempo \u00e9 relacionando-o com o espa\u00e7o, com a materialidade do espa\u00e7o, com per\u00edodos que se fazem necess\u00e1rios para se deslocar entre um ponto e outro na Terra e entre nosso planeta e outros corpos do universo. Uma rela\u00e7\u00e3o que come\u00e7a na realidade de nossos passos e se dilui outra vez no mist\u00e9rio quando nos lembramos da f\u00edsica cl\u00e1ssica de Isaac Newton ao afirmar que duas linhas paralelas se encontram no infinito.<\/p>\n<p>Teorias contempor\u00e2neas, p\u00f3s qu\u00e2nticas, sup\u00f5em que as paralelas n\u00e3o se encontram e sim se separam no infinito, no mesmo n\u00e3o lugar, na mesma utopia. Tudo que se refere ao tempo, mesmo quando o relacionamos com o espa\u00e7o que achamos saber o que \u00e9, se esvai no n\u00e3o entendimento do eterno, do que n\u00e3o tem princ\u00edpio nem meio nem fim, o maior desafio para a imagina\u00e7\u00e3o humana. Einstein chegou \u00e0 conclus\u00e3o, como sabem, que tempo e espa\u00e7o est\u00e3o realmente entrela\u00e7ados, mas ambos s\u00e3o relativos. De qualquer maneira, a rela\u00e7\u00e3o espa\u00e7o\/tempo \u00e9, at\u00e9 agora, nossa t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o do fazer sentido, do minimamente entendermos onde e como vivemos (j\u00e1 que o porqu\u00ea jamais saberemos).<\/p>\n<p>\u00c0s vezes com poesia, como a possibilidade de vermos o passado, vermos com os olhos, fisicamente: quando olhamos para uma estrela brilhante que j\u00e1 n\u00e3o existe, que desapareceu h\u00e1 muito tempo e cuja luz ainda est\u00e1 cruzando o espa\u00e7o, obedecendo \u00e0 velocidade dela. Ou ouvir o passado, quando o som do trov\u00e3o s\u00f3 \u00e9 percebido depois do clar\u00e3o do rel\u00e2mpago porque velocidade de luz e som s\u00e3o diferentes. \u00c0s vezes com grande impacto no nosso viver cotidiano, como o que a humanidade est\u00e1 vivendo neste momento de mudan\u00e7a de ritmo, que soci\u00f3logos e fil\u00f3sofos batizaram como Acelera\u00e7\u00e3o Social.<\/p>\n<p><!--more-->Claro que a evolu\u00e7\u00e3o das habilidades e comportamentos da humanidade, ao longo da Hist\u00f3ria, foram acelerando pouco a pouco a vida. No aspecto do deslocar-se pelo espa\u00e7o, por exemplo, come\u00e7amos andando e evolu\u00edmos para a montaria em animais, as carro\u00e7as, as canoas, os carros com motor, as lanchas velozes, os avi\u00f5es a jato. Quando as dist\u00e2ncias s\u00e3o vencidas com mais rapidez, temos a sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apenas o espa\u00e7o mas tamb\u00e9m o tempo contraiu. A conquista do fogo, a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, as grandes guerras apressaram a vida, a cada trinta ou mais gera\u00e7\u00f5es o ritmo mudava. O fen\u00f4meno atual \u00e9 que as mudan\u00e7as acontecem a cada gera\u00e7\u00e3o, e muitas em cada uma delas, em uma exacerba\u00e7\u00e3o temporal de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 a l\u00f3gica capitalista do fazer as coisas no menor tempo poss\u00edvel, no curto prazo.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo alem\u00e3o Hartmut Rosa \u00e9 o estudioso de nossa era mais referenciado, principalmente ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de seu livro cujo t\u00edtulo pode ser traduzido como\u00a0<em>Acelera\u00e7\u00e3o Social: uma Nova Teoria da Modernidade<\/em>\u00a0(n\u00e3o conhe\u00e7o tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas ou espanhol). Rosa descreve tr\u00eas acelera\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas: a tecnol\u00f3gica, que incide na percep\u00e7\u00e3o do tempo na vida social; a das mudan\u00e7as sociais, que incide na percep\u00e7\u00e3o do ritmo e gera incertezas; a do ritmo da vida (aumento de a\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias, multitarefas, fazer v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo), que incide no embotamento da pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o. Essa teoria est\u00e1 bem relatada no v\u00eddeo\u00a0<em>Tempo e acelera\u00e7\u00e3o social na hipermodernidade<\/em>, baseado em uma tese de\u00a0Evie Giannini (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yTARiMPJYrg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=yTARiMPJYrg<\/a>).<\/p>\n<p>Os efeitos da super acelera\u00e7\u00e3o, segundo Rosa e outros estudiosos, reflete-se na incapacidade das institui\u00e7\u00f5es de seguir o novo ritmo. Institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f4micas, educacionais, sanit\u00e1rias est\u00e3o sendo desestabilizadas, muitas \u00e0 beira do colapso (os pol\u00edticos, por exemplo, est\u00e3o desacreditados em todas as partes do mundo devido \u00e0 lentid\u00e3o com que reagem ao fluxo contempor\u00e2neo). Como nem todas as organiza\u00e7\u00f5es sociais conseguem se adequar \u00e0 espantosa celeridade, fala-se em \u201cdessincroniza\u00e7\u00f5es\u201d e possibilidade de colapsos de empresas e governos. As pessoas, ou grande parte delas, est\u00e3o imersas nessa velocidade da vida mas n\u00e3o conseguem ter controle sobre ela, o que gera ang\u00fastia, esvaziamento dos conte\u00fados e aliena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa agudiza\u00e7\u00e3o do tempo social no que est\u00e1 sendo definido como hipermodernidade, de alguma maneira estabelece uma ponte com a arte de Jorge Luis Borges, com seu conto\u00a0<em>El jard\u00edn\u00a0de\u00a0senderos que se bifurcan<\/em>, de 1941, onde ele tece a possibilidade de um labirinto no tempo. N\u00e3o no espa\u00e7o, n\u00e3o o labirinto de D\u00e9dalo e do Minotauro, mas uma teia de caminhos na imponderabilidade temporal. Partindo da normalidade de que a cada passo na vida o indiv\u00edduo encontra v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de caminhos, v\u00e1rias portas por onde seguir, e escolhe uma, Borges subverte isso propondo a abertura de todas as portas ao mesmo tempo. Conseguem pensar nisso?<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p><strong>Breve coment\u00e1rio: <\/strong><\/p>\n<p>\u201cO tempo \u00e9 uma fronteira entre presente e futuro, uma linha que se encolhe \u00e0s nossas costas, at\u00e9 o ponto exato onde se apaga. A subvers\u00e3o do tempo\u201d (MALDONATO, 2001, p, 111).<\/p>\n<p>As oportunas considera\u00e7\u00f5es de Orlando sobre o tempo nos inspiram, e nos conduz aos tempos de crian\u00e7as outono, inverno, primavera e ver\u00e3o: tempo de brincar de roda, de cantar cirandas e soltar pi\u00e3o; tempo de jogar triangulo de pular amarelinha; tempo de empinar arraia, de soltar bal\u00e3o, de correr na rua cata vento de papel na m\u00e3o; tempo de brincar de bacond\u00ea, de fazer boi com fruta de quiabento. De quando as crian\u00e7as inventavam e faziam os pr\u00f3prios brinquedos.<\/p>\n<p>E, tamb\u00e9m, de outros tempos, da gera\u00e7\u00e3o do passa o dedo: do Tablet, do Celular, do Computador, da Televis\u00e3o. Tempos apenas de ver\u00e3o&#8230; \u201cvem ver\u00e3o, vem ver\u00e3o, vem! Vai ver\u00e3o, vai ver\u00e3o, vai!\u201d. Nesse, tempo imp\u00e9rio do virtual, tempo \u00fanico de imensa clareira, tempo de seca onde a falta d\u2019\u00e1gua amea\u00e7a multid\u00e3o. Voc\u00ea tem mesmo medo de que?\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Orlando Senna Blog Refletor TAL-Television Am\u00e9rica Indicado e comentado por Itamar Aguiar O tempo \u00e9 o maior dos mist\u00e9rios. 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