{"id":8404,"date":"2023-07-21T23:37:13","date_gmt":"2023-07-22T02:37:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8404"},"modified":"2023-07-21T23:37:27","modified_gmt":"2023-07-22T02:37:27","slug":"do-corpo-insepulto-a-luta-por-memoria-verdade-e-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/07\/21\/do-corpo-insepulto-a-luta-por-memoria-verdade-e-justica\/","title":{"rendered":"&#8220;DO CORPO INSEPULTO \u00c0 LUTA POR MEM\u00d3RIA, VERDADE E JUSTI\u00c7A&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>UM ESTUDO DO CASO DINAELZA COQUEIRO<\/p>\n<p>COLE\u00c7\u00c3O EDUCA\u00c7\u00c3O, MEM\u00d3RIA E RELIGI\u00c3O (VOLUME 3)<\/p>\n<p>A professora aposentada de Matem\u00e1tica do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia da Bahia (Ifba), mestra em Pedagogia Profissional pelo ISPETP-Cuba, pesquisadora do Museu Pedag\u00f3gico-Uesb, doutora no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria: Linguagem e Sociedade da Uesb, Gilneide Padre, com seu conhecimento do assunto, elaborou uma obra digna de estudo sobre o desaparecimento da guerrilheira conquistense Dinaelza Santana Coqueiro que lutou no Araguaia durante a ditadura civil-militar de 1964.<\/p>\n<p>Quero aqui agradecer seu livro a mim entregue e dizer que seu trabalho \u00e9 bastante consistente porque a autora n\u00e3o se prendeu apenas \u00e0 trajet\u00f3ria da personagem em quest\u00e3o, mas fez uma profunda contextualiza\u00e7\u00e3o sobre aquele triste per\u00edodo da repress\u00e3o onde mais de 300 pessoas foram desaparecidas depois de presas, torturadas e mortas.<\/p>\n<p>Seu trabalho \u00e9 um apanhado geral sobre o que foi o regime onde Gilneide levanta quest\u00f5es importantes da pol\u00edtica de mem\u00f3ria e mem\u00f3ria pol\u00edtica com base em estudiosos que remontam aos tempos da antiga Gr\u00e9cia e outras civiliza\u00e7\u00f5es desde os tempos antes de Cristo.<\/p>\n<p>A autora n\u00e3o se fixou apenas nas entrevistas aos familiares de Dinaelza e foi mais longe nos estudos quando cita v\u00e1rias obras de estudiosos e presos pol\u00edticos que foram v\u00edtimas da ditadura e se debru\u00e7aram no tema, os quais tive o prazer de ler para concluir meu livro \u201cUma Conquista Cassada \u2013 cerco e fuzil na cidade do frio\u201d. Sinto-me honrado por meu nome estar tamb\u00e9m inclu\u00eddo em sua pesquisa esclarecedora sobre os fatos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/DSC_6359.jpg\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8405\" src=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/DSC_6359.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/DSC_6359.jpg 550w, https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/DSC_6359-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Antes de tudo, recomendo uma leitura apurada da sua obra para entender aqueles tempos de chumbo onde milhares de brasileiros lutaram pela causa da liberdade e da democracia. Infelizmente, depois de quase 60 anos de tormentos, poucos conhecem essa hist\u00f3ria, que n\u00e3o mais se repita, principalmente nossos jovens que, ainda recente, foram contaminados pela onda negativista da extrema direita do governo passado.<\/p>\n<p>Posso afirmar que \u00e9 uma obra bem amarrada e contextualizada, fonte de pesquisas para outros interessados que queiram escrever sobre o assunto. Na introdu\u00e7\u00e3o do livro, Gilneide fala de Dinaelza, terceira dos seis filhos do casal Jun\u00edlia Soares Santana e Ant\u00f4nio Pereira Santana, nascida no distrito de S\u00e3o Sebasti\u00e3o (Conquista) e que depois foi morar em Jequi\u00e9. Fez o curso de Geografia na Universidade Cat\u00f3lica de Salvador onde foi l\u00edder militante com outros companheiros no combate ao regime dos generais.<\/p>\n<p>Seus irm\u00e3os Diva, Dilma, Dinor\u00e1, Dirceneide e Get\u00falio ainda hoje choram pelo luto de um corpo insepulto, o qual ainda n\u00e3o foi fechado ritualmente, conforme reza a nossa cultura. Dinaelza foi casada com Vandick Reidner Pereira Coqueiro e os dois ingressaram no PC do B. Perseguidos pol\u00edticos e procurados, o casal optou por lutar na Guerrilha do Araguaia no in\u00edcio dos anos 70 no governo carrasco do general M\u00e9dici.<\/p>\n<p>Como pontuou a professora Gilneide, \u201cdesde o final da d\u00e9cada de 1970, seus familiares v\u00eam empreendendo incessante luta em busca do seu corpo insepulto\u201d. Sobre essa quest\u00e3o, a autora cita Panizo (2012) quando declara que o desaparecido \u00e9 um sujeito ativo, e, por meio dele, mant\u00e9m-se a busca da mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a; busca n\u00e3o apenas restrita aos desmandos do per\u00edodo ditatorial, mas que assume atualidade, na medida em que vai se ampliando na luta pelos direitos humanos alhures e aqui.<\/p>\n<p>\u201cCom rela\u00e7\u00e3o aos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia, o que hoje se sabe \u00e9 que todos os guerrilheiros combatentes da terceira campanha est\u00e3o mortos\u201d \u2013 assinala a autora da obra. Acrescenta que os familiares dos desparecidos pol\u00edticos, ainda nos dias atuais, s\u00e3o submetidos \u00e0 tortura intermin\u00e1vel, at\u00e9 que um ponto final seja colocado nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O projeto \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d, arquitetado por D. Paulo Evaristo Arns, da Igreja Cat\u00f3lica, o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright, assegura \u201cuma pr\u00e1tica de tortura muito mais cruel do que o mais criativo dos engenhos humanos\u201d. Como bem ressaltou Gilneide, no caso da Guerrilha do Araguaia, em que n\u00e3o houve inqu\u00e9ritos, e, mais ainda, houve a\u00e7\u00e3o determinada do Estado para apagar qualquer vest\u00edgio daquele confronto, a situa\u00e7\u00e3o fica bem mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 poss\u00edvel que corpos tenham sido deixados insepultos na mata ou que tenham sido removidos de um lugar de inuma\u00e7\u00e3o para outro com maior dificuldade de ser encontrado, ou podem ter sido lan\u00e7ados na \u00e1gua dos rios e mares\u201d. Em seu livro, a pesquisadora fala de ritos de passagem, separa\u00e7\u00e3o, ritos de margem e ritos de agrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desses ritos, destaca as eras do homem de Neandertal, Paleol\u00edtico e Neol\u00edtico. Nas palavras de Martin, \u201co homem \u00e9 tradicionalmente conservador no culto aos seus mortos e a mudan\u00e7a das culturas reflete mais lentamente nos rituais e nos costumes funer\u00e1rios do que na evolu\u00e7\u00e3o da vida cotidiana\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, queria aqui deixar a minha opini\u00e3o de que a Anistia de 1979, planejada pelos generais da linha dura, foi intencional e visou abrir caminhos para o processo de limpeza da \u00e1rea e proteger os torturadores de seus crimes, mais do que propriamente anistiar os presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Essa anistia, digo, deixou feridas abertas que jamais ser\u00e3o curadas porque n\u00e3o houve um acerto de contas com os verdadeiros opressores. N\u00e3o contentes, torturaram tamb\u00e9m a nossa mem\u00f3ria, diferente da Argentina, do Chile e do Uruguai, nossos vizinhos, que fecharam as feridas com a puni\u00e7\u00e3o dos criminosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UM ESTUDO DO CASO DINAELZA COQUEIRO COLE\u00c7\u00c3O EDUCA\u00c7\u00c3O, MEM\u00d3RIA E RELIGI\u00c3O (VOLUME 3) A professora aposentada de Matem\u00e1tica do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia da Bahia (Ifba), mestra em Pedagogia Profissional pelo ISPETP-Cuba, pesquisadora do Museu Pedag\u00f3gico-Uesb, doutora no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria: Linguagem e Sociedade da Uesb, Gilneide Padre, com seu [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8404"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8404"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8406,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8404\/revisions\/8406"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}