{"id":8395,"date":"2023-07-21T00:34:28","date_gmt":"2023-07-21T03:34:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8395"},"modified":"2023-07-21T00:34:34","modified_gmt":"2023-07-21T03:34:34","slug":"as-instrucoes-de-terror-e-um-matuto-na-cidade-maravilhosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/07\/21\/as-instrucoes-de-terror-e-um-matuto-na-cidade-maravilhosa\/","title":{"rendered":"AS INSTRU\u00c7\u00d5ES DE &#8220;TERROR&#8221; E UM MATUTO NA &#8220;CIDADE MARAVILHOSA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Para quem tem medo de avi\u00e3o e quem tamb\u00e9m n\u00e3o tem, como lembra o cantor, compositor e poeta cearense Belchior em sua bela can\u00e7\u00e3o, \u00e9 no m\u00ednimo assustador e at\u00e9 cheira a contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado passado fui \u00e0 \u201cCidade Maravilhosa\u201d, que j\u00e1 n\u00e3o tem muita coisa disso diante de tanta viol\u00eancia e, na prepara\u00e7\u00e3o para a decolagem, fiquei a matutar com as instru\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a dada pela tripula\u00e7\u00e3o antes do \u201cp\u00e1ssaro\u201d voar aos c\u00e9us rumo ao nosso destino.<\/p>\n<p>Primeiro entra um membro da tripula\u00e7\u00e3o com a cara feia e bem s\u00e9ria e vai transmitindo as instru\u00e7\u00f5es gravadas, mil vezes repetidas em cada viagem. Se n\u00e3o me engano, come\u00e7a pelas m\u00e1scaras de oxig\u00eanio que caem no caso de haver despressuriza\u00e7\u00e3o. \u201cAntes de ajudar algu\u00e9m, ajuste a sua\u201d.<\/p>\n<p>A coisa vai ficando sombria com o andar do \u201cpapo\u201d esquisito. Logo bate a danada da morte na cabe\u00e7a. Essa aeronave tem duas sa\u00eddas de emerg\u00eancia na parte traseira de cada lado, duas no meio e mais duas na frente.<\/p>\n<p>O mais arrepiante que d\u00e1 vontade de voc\u00ea pedir para abrir a porta e sair, vem no final. Em caso de um pouso na \u00e1gua (coisa mais rara de ocorrer), pegue seu colete salva-vidas que est\u00e1 embaixo da poltrona e sopre no canudo para encher de ar.<\/p>\n<p>A esta altura, o viajante que estiver atento, porque quase ningu\u00e9m presta mais aten\u00e7\u00e3o, j\u00e1 est\u00e1 nervoso e pensando como vai ter uma conversa com S\u00e3o Pedro l\u00e1 na porta do c\u00e9u. Pede perd\u00e3o de seus pecados e at\u00e9 confessa para a mulher ao lado, caso ela esteja, que j\u00e1 deu uma pulada de cerca ou de muro.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa hora que d\u00e1 vontade de dizer para o instrutor ou instrutora: V\u00e1 para a puta que te pariu com suas informa\u00e7\u00f5es de terror! Se esse gigante voador cortante do vento e do ar der um treco em algum motor ou equipamento e come\u00e7ar a cair, meu amigo, n\u00e3o sobra uma viva alma.<\/p>\n<p>Vamos no popular e deixar desse lero-lero porque todo mundo vai morrer mesmo. Olha, se essa m\u00e1quina embicar em dire\u00e7\u00e3o a terra, j\u00e1 era, n\u00e3o sobra ningu\u00e9m para contar a hist\u00f3ria. Esque\u00e7am as instru\u00e7\u00f5es. Na agonia, muitos cora\u00e7\u00f5es param de bater l\u00e1 em cima mesmo.<\/p>\n<p>Tudo bem! Temos um alento que \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o dos estudiosos e t\u00e9cnicos da avia\u00e7\u00e3o de que \u201cesse bicho\u201d a\u00ed \u00e9 um dos meios de transportes mais seguros do mundo. Portanto, relaxa, meu camarada, porque l\u00e1 embaixo pode ser bem pior!<\/p>\n<p>Na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro aterrissei no \u201cElefante Branco\u201d chamado de Gale\u00e3o e depois percorri uma trilha de t\u00faneis e avenidas de viol\u00eancia, exposto a um tiroteio no meio do caminho.<\/p>\n<p>Ainda bem que cheguei ileso em meu destino, no meu caso no Bairro das Laranjeiras e, como sou tricolor at\u00e9 que me senti envaidecido, mas o tr\u00e2nsito e o formigar de gente em correrias me deixou atordoado, como se fosse um matuto nordestino da Bahia em terras estranhas.<\/p>\n<p>As pessoas cruzam meu caminho com caras fechadas. Ningu\u00e9m liga para ningu\u00e9m. Fiquei no apartamento do meu filho onde a janela do quarto bate bem de frente com o vaiv\u00e9m louco de ve\u00edculos que soltam gases t\u00f3xicos no ar durante 24 horas. N\u00e3o d\u00e1 muito para levantar bem-humorado, mas procuro disfar\u00e7ar o inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o bem a cidade, mas resolvo ir sozinho ao Bairro do Flamengo, meu advers\u00e1rio nas \u201cbatalhas\u201d futebol\u00edsticas. Com duas m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas, resolvi, por seguran\u00e7a, coloc\u00e1-las na mochila.<\/p>\n<p>Meu primeiro contato foi com o porteiro com um bom dia e fui logo indagando se dava para ir andando at\u00e9 o meu ponto na rua Ferreira Viana, no hotel Windsor Fl\u00f3rida. Disse que era um pouco longe e me recomendou pegar um taxi ou um Uber. N\u00e3o sou simp\u00e1tico a essa empresa capitalista norte-americana que invade pa\u00edses e tira o p\u00e3o da boca dos nossos taxistas.<\/p>\n<p>Como tenho forma\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica e aprendi a ter outras informa\u00e7\u00f5es, atravessei a rua e logo vejo um gari em seu trabalho di\u00e1rio de limpeza. Prestativo e atencioso, me ensinou e chegar at\u00e9 l\u00e1 e garantiu que dava para ir na paleta. \u201cSegue direto o tempo todo at\u00e9 o Largo do Machado. Chegando l\u00e1 \u00e9 s\u00f3 perguntar que qualquer um vai lhe indicar a posi\u00e7\u00e3o certa do hotel\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e3o dois pontos de vistas diferentes. Um que fica todo dia sentado vigiando quem entra e sai no pr\u00e9dio. O outro roda o dia todo e tem uma no\u00e7\u00e3o do longe e do mais perto que pode ser alcan\u00e7ada sem a necessidade de um carro. Decidi seguir o gari e fiz meu exerc\u00edcio num percurso em torno de um quil\u00f4metro e meio ou dois.<\/p>\n<p>Fui perguntado aqui e acol\u00e1 sempre para algu\u00e9m sentado num banco de jardim ou um motoqueiro parado numa esquina. Visei gente mais humilde e nunca \u00e0quelas pessoas carrancudas no corre-corre do dia a dia, mas cair na besteira de abordar um mo\u00e7o no celular. Mudo e surdo nem respondeu ao meu bom dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem tem medo de avi\u00e3o e quem tamb\u00e9m n\u00e3o tem, como lembra o cantor, compositor e poeta cearense Belchior em sua bela can\u00e7\u00e3o, \u00e9 no m\u00ednimo assustador e at\u00e9 cheira a contradi\u00e7\u00e3o. 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