{"id":8372,"date":"2023-07-07T23:03:46","date_gmt":"2023-07-08T02:03:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8372"},"modified":"2023-07-07T23:04:13","modified_gmt":"2023-07-08T02:04:13","slug":"fluxo-e-refluxo-xxvii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/07\/07\/fluxo-e-refluxo-xxvii\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XXVII"},"content":{"rendered":"<p>POSF\u00c1CIO \u2013 VERGER HISTORIADOR, POR JO\u00c3O JOS\u00c9 REIS.<\/p>\n<p>No posf\u00e1cio, o escritor Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis diz que \u201cFluxo e Refluxo\u201d (livro de Pierre Verger) \u00e9 um estudo detalhado do tr\u00e1fico negreiro para a Bahia a partir do Golfo do Benim, regi\u00e3o ent\u00e3o considerada pelos luso-brasileiros como Costa da Mina. Ela se estende do sudoeste da Nig\u00e9ria ao litoral do Togo, passando pela Rep\u00fablica do Benim.<\/p>\n<p>No entanto, segundo ele, para efeito do tr\u00e1fico baiano, \u201ca geografia abrange tamb\u00e9m paisagens mais interioranas do Golfo, como o reino de Oy\u00f3, ao norte do territ\u00f3rio iorub\u00e1, chegando mesmo ao pa\u00eds hauss\u00e1s, ainda mais adentro, no norte da Nig\u00e9ria\u201d. Antes de realizar o livro, Verger j\u00e1 tinha percorrido v\u00e1rios lugares.<\/p>\n<p>Em seu coment\u00e1rio, Jos\u00e9 Reis destaca que, \u201cse os jejes foram maioria entre os africanos traficados ao longo do s\u00e9culo XVIII, os nag\u00f4s predominaram no s\u00e9culo seguinte, numa concentra\u00e7\u00e3o nunca antes verificada, pois chegaram a constituir cerca de 80% dos cativos nascidos na \u00c1frica que viviam na Bahia no final da d\u00e9cada de 1850\u201d.<\/p>\n<p>Os n\u00fameros apresentados por Verger sobre o tr\u00e1fico no Golfo do Benim foram revisados pelo projeto Slave Voyages que documentou cerca de 36 mil viagens negreiras entre a \u00c1frica e as diversas regi\u00f5es das Am\u00e9ricas. Pelos dados levantados, o Brasil figura como a regi\u00e3o que mais importou m\u00e3o-de-obra africana escravizada, em torno de 45% dos pertos de 11 milh\u00f5es de v\u00edtimas do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>De acordo com Verger, a Bahia teria recebido 1,2 milh\u00e3o de cativos, 71% dos quais vindos do Golfo do Benim. \u201cEsses n\u00fameros agora cresceram para 1,5 milh\u00e3o, o que corresponde a 32% do tr\u00e1fico brasileiro, mas a propor\u00e7\u00e3o registrada por Verger para os vindos do Golfo do Benim se mant\u00e9m, pelo menos para o s\u00e9culo XIX\u201d.<\/p>\n<p>Ainda conforme o autor do posf\u00e1cio, Verger noticia com detalhes que a autonomia baiana no tr\u00e1fico era relativa, ou melhor, era disputada no sentido de que os negociantes estavam em constante tens\u00e3o com a Coroa Portuguesa e seus representantes coloniais quanto a regulamenta\u00e7\u00e3o e ao controle do com\u00e9rcio de gente. A metr\u00f3pole buscou por diversos meios disciplinar o com\u00e9rcio entre as duas regi\u00f5es, no que encontrou acirrada oposi\u00e7\u00e3o de uns traficantes.<\/p>\n<p>\u201cDo outro lado do tabuleiro, os africanos negociavam com absoluta soberania junto aos comerciantes e representantes europeus, muitos deles dubl\u00eas de traficantes. O poder e a riqueza dos reis, chefes e negociantes africanos cresceram \u00e0 sombra do tr\u00e1fico, pelo que competiam e guerreavam entre si em busca da prefer\u00eancia no fornecimento dos cativos. Por vezes, v\u00e1rios governantes da \u00c1frica enviavam embaixadas \u00e0 Bahia e a Lisboa (mais tarde ao Rio de Janeiro), para negociar termos das rela\u00e7\u00f5es comerciais&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Portugal, Fran\u00e7a, Holanda, Inglaterra e Espanha, principalmente, foram na\u00e7\u00f5es envolvidas no tr\u00e1fico com seus imp\u00e9rios coloniais. Verger deixa claro que os europeus foram os principais respons\u00e1veis pela tr\u00e1gica hist\u00f3ria do tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Apesar de alguns historiadores apontarem o ano de 1931 como primeira proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico para o Brasil, no caso da Bahia essa data \u00e9 anterior, j\u00e1 que pelo tratado de 1815, entre Portugal e Inglaterra, esse com\u00e9rcio seria oficialmente abolido acima da linha do Equador. Nessa latitude estavam os principais portos que faziam o tr\u00e1fico com a Bahia, localizados no Golfo do Benim. Desde 1810, os cruzadores ingleses aprisionavam navios baianos naquela linha.<\/p>\n<p>\u201cNo caso da Bahia, o car\u00e1ter internacional do tr\u00e1fico ilegal permanece at\u00e9 o \u00faltimo e tr\u00e1gico desembarque, em 1851, que resultou na morte de dezenas de escravos afogados ou de cansa\u00e7o e fome. No chamado desembarque da Pontinha, o navio negreiro Rel\u00e2mpago tinha por capit\u00e3o um venezuelano, o piloto e o copiloto espanh\u00f3is de M\u00e1laga, um italiano como seu \u00faltimo propriet\u00e1rio e o rei de Lagos (Onim) como principal interessado na carga humana\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo ano de 1851, a Inglaterra bombardeou Lagos, dep\u00f4s o rei Kosoko e o substituiu por Akitoy\u00ea, que aceitou a pol\u00edtica antitr\u00e1fico ingl\u00eas. Assim tinha in\u00edcio a ocupa\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica na Nig\u00e9ria. Verger denuncia em sua obra que o esp\u00edrito dos colonizadores na \u00c1frica era de que o branco, \u201cmesmo se um bandido em territ\u00f3rio africano, devia sempre ser respeitado pelas autoridades africanas\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Verger, os iorub\u00e1s, enquanto nag\u00f4s, teriam criado na Bahia uma nova civiliza\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, tendo na religi\u00e3o os orix\u00e1s, o seu principal pilar. Sobre as rebeli\u00f5es na Bahia, como a Revolta dos Mal\u00eas, em 1835, Verger seguiu os passos de Nina Rodrigues atrav\u00e9s de pesquisas no Arquivo P\u00fablico da Bahia. Eles atribu\u00edam ao isl\u00e3 militante a responsabilidade pelos movimentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POSF\u00c1CIO \u2013 VERGER HISTORIADOR, POR JO\u00c3O JOS\u00c9 REIS. No posf\u00e1cio, o escritor Jo\u00e3o Jos\u00e9 Reis diz que \u201cFluxo e Refluxo\u201d (livro de Pierre Verger) \u00e9 um estudo detalhado do tr\u00e1fico negreiro para a Bahia a partir do Golfo do Benim, regi\u00e3o ent\u00e3o considerada pelos luso-brasileiros como Costa da Mina. 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