{"id":8328,"date":"2023-06-23T23:46:53","date_gmt":"2023-06-24T02:46:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8328"},"modified":"2023-06-23T23:47:00","modified_gmt":"2023-06-24T02:47:00","slug":"fluxo-e-refluxo-xxv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/06\/23\/fluxo-e-refluxo-xxv\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XXV"},"content":{"rendered":"<p>BRIGAM OS PORTUGUESES, OS INGLESES, HOLANDESES, FRANCESESS E OS BRASILEIROS PELO TR\u00c1FICO NEGREIRO NO GOLFO DO BENIN, NA COSTA DA \u00c1FRICA OU SOTAVENTO, TUDO PELA COMPRA DE CARNES HUMANAS EM TORCA DO TABACO, DO AGUARDENTE, DO A\u00c7\u00daCAR, DO OURO CONTRABANDEADO E AT\u00c9 POR CONCHAS \u2013 MOEDAS CHAMADAS DE CAURI (MALD\u00c1VIA) e do ZIMBO (ILHA DE LUANDA, NA ANGOLA.<\/p>\n<p>Em Notas de pesquisadores, relatadas no livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, de Pierre Verger, conta que o rei do Dahomey (Daom\u00e9) Adandozan, por volta de 1778, tinha visto durante muito tempo com olhos invejosos Ap\u00e9e, Porto Novo (pertencente a Ardra) e Badagre, em raz\u00e3o do grande n\u00famero de vasos que iam traficar nesses portos, enquanto Whidah (Uid\u00e1) estava quase totalmente abandonado. Ele adotou a pol\u00edtica do seu av\u00f4 Agaja, e resolveu estender suas possess\u00f5es e apropriar-se das mercadorias europeias acumuladas por seus vizinhos.<\/p>\n<p>Como seus vizinhos estavam cercados de lagos e p\u00e2ntanos, dif\u00edceis de serem atingidos, o rei resolveu fazer amizades com um dos pr\u00edncipes da regi\u00e3o, no caso o rei de Ardra. No fim a conspira\u00e7\u00e3o foi descoberta. Ap\u00e9e era a v\u00edtima prevista, que foi devastada e muitos foram feitos prisioneiros pelos daomeanos. Mesmo assim, o rei com sua tropa de fieis conseguiu escapar para outro reino. Ap\u00e9e resistiu e colocou Ardra em fuga, com ajuda de um negro brasileiro negociante chamado Ant\u00f4nio Vaz Coelho que conseguiu uma boa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em Ardra.<\/p>\n<p>AS LUTAS NAS BUSCAS POR ESCRAVOS<\/p>\n<p>Durante mais de 300 anos, entre o final do s\u00e9culo XV ao XIX, os traficantes donos de navios, capit\u00e3es das embarca\u00e7\u00f5es (os vasos), os senhores de engenhos e das minas, diretores de feitorias, negociantes de todas as partes e at\u00e9 escravos emancipados arriscavam suas vidas na busca incessante por cativos que rendiam altos lucros.<\/p>\n<p>Nesse com\u00e9rcio ambicioso, valia a lei do mais forte, as ast\u00facias, armadilhas, as trapa\u00e7as e as trai\u00e7\u00f5es entre eles. Cabe\u00e7as eram decapitadas, muitos eram encarcerados em calabou\u00e7os e exilados por reis por enganar e sonegar o pagamento do fisco pela parte que cabia aos reinos e coroas. Holandeses e piratas perseguiam e saqueavam as cargas dos navios, principalmente dos portugueses e brasileiros.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a costa africana era um coito de intrigas e um enxame de maribondos na disputa para ver quem mais lotava de escravos os navios negreiros nos por\u00f5es da morte, sujos e fedorentos. Os oceanos se transformaram em cemit\u00e9rios de negros que eram jogados vivos e doentes nos mares para a festa dos tubar\u00f5es.<\/p>\n<p>Os reis do Daom\u00e9 (Golfo do Benin) sempre foram os poderosos e guerreiros que brigavam pelo dom\u00ednio de outros reinos (de Ardra, Porto Novo, Badagre, Lagos) na conquista por mais e mais prisioneiros que eram vendidos como escravos. Reis, rainhas e pr\u00edncipes, considerados como inimigos, eram embarcados em navios como cativos.<\/p>\n<p>Toda essa trag\u00e9dia humana, vergonhosa e criminosa, institucionalizada pelos governantes onde at\u00e9 o escravo desejava ter um escravo como um bem que dava status e servia como uma\u00a0 hipoteca, inspirou escritores, intelectuais, pesquisadores e, especialmente, poetas, como o baiano Castro Alves em \u201cEspumas Flutuantes\u201d no c\u00e9lebre poema \u201cO Navio Negreiro\u201d onde clama num trecho: Senhor Deus dos desgra\u00e7ados!\/ Dizei-me v\u00f3s, Senhor Deus!\/ Se \u00e9 loucura&#8230; se \u00e9 verdade\/ Tanto horror perante os c\u00e9us&#8230;\/ \u00d4 mar! Por que n\u00e3o apagas\/ Com a esponja de tuas vagas\/ De teu manto este borr\u00e3o?&#8230;\/ Astros! Noite! Tempestades!\/ Rolai das imensidades! Varrei os mares, tuf\u00e3o&#8230; \/ Quem s\u00e3o estes desgra\u00e7ados&#8230;<\/p>\n<p>Foram estes negros trazidos de v\u00e1rios reinos da \u00c1frica, dominados pelas pot\u00eancias de colonizadores que aqui deixaram no Brasil suas culturas na m\u00fasica, nas comidas, na capoeira, em seus gingados, nas palavras e no sincretismo religioso.<\/p>\n<p>Aqui foram colocados nos troncos e sofreram horr\u00edveis torturas de seus senhores, e at\u00e9 a Igreja Cat\u00f3lica foi escravista e conivente. No entanto, at\u00e9 hoje s\u00e3o v\u00edtimas de racismo e de todo tipo de discrimina\u00e7\u00e3o, como a social. A maioria vive na pobreza em favelas e nas periferias das cidades.<\/p>\n<p>Muitos desses relatos est\u00e3o na obra do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo Pierre Verger, \u201c Fluxo e \u201cRefluxo\u201d, que da Bahia se fez filho e se tornou adepto da religi\u00e3o de matriz africana. Pelos meados do s\u00e9culo XIX, a partir de 1835, com a revolta dos mal\u00eas, esses negros, por vontade pr\u00f3pria e outros por expuls\u00e3o das autoridades brasileiras, fizeram \u00a0a viagem de volta para suas terras de origens e formaram col\u00f4nias, sobretudo em Ajud\u00e1 (Uid\u00e1), Porto Novo, Badagre e em Lagos.<\/p>\n<p>Eram v\u00e1rias etnias e na\u00e7\u00f5es, como os nag\u00f4s-iorub\u00e1s, os j\u00eajes-mahis, os tapas, hauss\u00e1s que atravessaram o Atl\u00e2ntico com suas bagagens e pertences, mas, mesmo assim, a grande maioria n\u00e3o teve o destino certo porque os brancos roubaram seus bens e n\u00e3o lhes deixaram nos portos desejados e contratados.<\/p>\n<p>Tiveram que amargar o sofrimento de se aventurar pelo interior africano para alcan\u00e7ar sua terra natal ou aportar em outros reinos diferentes. Em v\u00e1rios locais formaram \u201ccol\u00f4nias brasileiras\u201d, hostilizadas pelos nativos e ind\u00edgenas. Muitos eram at\u00e9 chamados de \u201cbrancos\u201d por serem considerados bo\u00e7ais que falavam o portugu\u00eas e praticavam o catolicismo e o islamismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BRIGAM OS PORTUGUESES, OS INGLESES, HOLANDESES, FRANCESESS E OS BRASILEIROS PELO TR\u00c1FICO NEGREIRO NO GOLFO DO BENIN, NA COSTA DA \u00c1FRICA OU SOTAVENTO, TUDO PELA COMPRA DE CARNES HUMANAS EM TORCA DO TABACO, DO AGUARDENTE, DO A\u00c7\u00daCAR, DO OURO CONTRABANDEADO E AT\u00c9 POR CONCHAS \u2013 MOEDAS CHAMADAS DE CAURI (MALD\u00c1VIA) e do ZIMBO (ILHA DE [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8328"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8328"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8328\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8329,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8328\/revisions\/8329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}