{"id":8290,"date":"2023-06-09T01:32:43","date_gmt":"2023-06-09T04:32:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8290"},"modified":"2023-06-09T01:32:52","modified_gmt":"2023-06-09T04:32:52","slug":"ciganos-em-tempos-de-terror-e-tratados-como-mercadorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/06\/09\/ciganos-em-tempos-de-terror-e-tratados-como-mercadorias\/","title":{"rendered":"CIGANOS EM TEMPOS DE TERROR E TRATADOS COMO MERCADORIAS"},"content":{"rendered":"<p>O INSTITUTO DOS CIGANOS DO BRASIL EST\u00c1 RECORRENDO AO GOVERNO FEDERAL PARA TOMAR PROVID\u00caNCIAS CONTRA A\u00c7\u00d5ES DE PRECONCEITOS AO SEU POVO.<\/p>\n<p>Como nos tempos coloniais e do imp\u00e9rio quando para o Brasil eles foram deportados por Portugal e aqui perseguidos pela pol\u00edcia com toda carga de preconceitos e viol\u00eancias como bandoleiros, pregui\u00e7osos, embusteiros, ladr\u00f5es e malfeitores, o povo cigano continua a viver a mesma situa\u00e7\u00e3o de terror e sendo \u201ctratados como mercadorias\u201d, conforme desabafou Rog\u00e9rio Ribeiro, ex-presidente e assessor de Comunica\u00e7\u00e3o do Instituto dos Ciganos do Brasil.<\/p>\n<p>Em nome do presidente do Instituto, Itamar Cigano, com sede no Cear\u00e1, Rog\u00e9rio esteve nesta quarta-feira (dia 07\/06), em Bras\u00edlia, no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, Fl\u00e1vio Dino, e no Superior Tribunal de Justi\u00e7a quando protocolou documento de revoga\u00e7\u00e3o de pris\u00e3o de ciganos e em defesa do seu povo contra os preconceito e abordagens arbitr\u00e1rias por parte da pol\u00edcia, inclusive muitos deles envolvidos em abuso de poder.<\/p>\n<p>Entre outros assuntos, em audi\u00eancias, Rog\u00e9rio falou da situa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios sequestros na Bahia, como em Cama\u00e7ari e Vit\u00f3ria da Conquista, bem como nos estados da Para\u00edba, Pernambuco e Minas Gerais. \u201cChega de tanta discrimina\u00e7\u00e3o, abordagens desnecess\u00e1rias e cigano n\u00e3o \u00e9 mercadoria. Estamos solicitando apoio da For\u00e7a Nacional para que se acabe de vez com essas persegui\u00e7\u00f5es\u201d Ele se disse confiante nas tomadas de medidas do governo federal. \u201cOs preconceitos continuam fortes e as coisa devem mudar\u201d<\/p>\n<p>Cita o documento que a Associa\u00e7\u00e3o Beneficente Cultural e de Desenvolvimento Social dos Povos Ciganos do Brasil \u2013 ABECC foi formada por lideran\u00e7as de diferentes comunidades, com o intuito de promover o desenvolvimento sustent\u00e1vel, para a defesa e garantia dos direitos do seu povo em situa\u00e7\u00e3o de conflito.<\/p>\n<p>SEQUESTROS E UMA TRAG\u00c9DIA EM CONQUISTA<\/p>\n<p>\u201cAs amea\u00e7as, sequestros e declara\u00e7\u00f5es de \u00f3dio contra os povos ciganos est\u00e3o promovendo um verdadeiro medo e inseguran\u00e7a \u00e0s fam\u00edlias ciganas no estado da Bahia\u201d- destaca o documento, ao denunciar que mais de 20 pessoas de origem cigana foram v\u00edtimas de sequestros, em 2021, na regi\u00e3o metropolitana de Salvador, precisamente em Sim\u00f5es Filho e Cama\u00e7ari.<\/p>\n<p>Essas pessoas somente foram devolvidas mediante resgate com valores que chegaram a 150 mil reais. Em 2022 foram cerca de 10, sem contar outras tentativas. Neste ano, o primeiro ocorreu na tarde de quarta-feira, dia 11 de janeiro, na cidade de S\u00e3o Felipe. A v\u00edtima foi um adolescente de 14 anos. Os criminosos amea\u00e7aram matar o jovem. O resgate custou o valor de 200 mil reais.<\/p>\n<p>Os relatos prosseguem em rela\u00e7\u00e3o aos constantes sequestros, como o do dia sete de mar\u00e7o deste ano quando o cigano Lourival Gama, morador de Sim\u00f5es Filho reagiu a uma tentativa de sequestro e trocou tiros com os bandidos. A v\u00edtima foi morta com um tiro na barriga. Outros sequestros ocorreram em v\u00e1rias cidades. Outra agress\u00e3o com assalto aconteceu recentemente no munic\u00edpio de S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Pass\u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois ou tr\u00eas anos ocorreu, em Vit\u00f3ria da Conquista, uma trag\u00e9dia onde dois soldados foram mortos, no distrito de Jos\u00e9 Gon\u00e7alves. Em resposta a pol\u00edcia militar agiu com terror e v\u00e1rios ciganos (uns sete ou oito) foram eliminados em \u201csupostas trocas de tiros\u201d. Como se n\u00e3o bastasse, muitos foram espancados e uma fam\u00edlia foi obrigada a fugir do munic\u00edpio atrav\u00e9s de uma medida protetiva.<\/p>\n<p>V\u00cdTIMAS DE UMA SOCIEDADE SEGREGACIONISTA<\/p>\n<p>O autor da obra \u201cCiganos no Brasil-uma breve hist\u00f3ria\u201d Rodrigo Correia Teixeira, desmistifica o estigma da vis\u00e3o estereotipada dos ciganos como sujos, embusteiros, baderneiros, trapaceiros e pregui\u00e7osos. Eram v\u00edtimas de uma sociedade segregacionista. Nascer cigano era ter seu destino marcado do lado oposto da \u201cboa sociedade\u201d. Sempre foram prejulgados, inclusive por crimes n\u00e3o cometidos, como de ladr\u00f5es, assassinos, salteadores e at\u00e9 sequestradores de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Perseguidos por D. Jo\u00e3o V, de Portugal, muitas das vezes condenados injustamente, eram embarcados para o Brasil Col\u00f4nia, mas at\u00e9 certo ponto bem aceitos na corte de D. Jo\u00e3o VI e no primeiro Imp\u00e9rio, como artistas dan\u00e7arinos, m\u00fasicos e circenses. Muitos ficaram ricos como negociantes de escravos, mas suas atividades mais fortes eram no ramo do com\u00e9rcio de cavalos, bestas e a pr\u00e1tica da \u201cbuena dicha\u201d (leitura das m\u00e3os), no caso das mulheres.<\/p>\n<p>CAMINHOS IN\u00d3SPITOS<\/p>\n<p>Afirma o escritor, na conclus\u00e3o do seu livro, que, \u201ccomo n\u00f4mades ou sedentarizados, perambulavam por caminhos in\u00f3spitos, acampavam em \u00e1reas pouco prop\u00edcias e se estabeleciam em espa\u00e7os insalubres nas cidades\u201d, como \u00e9 o caso do Campo de Santana, ou Rua dos Ciganos (Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no Rio de Janeiro).<\/p>\n<p>Destaca que \u201ca sobreviv\u00eancia foi a realiza\u00e7\u00e3o mais duradoura, o grande evento da hist\u00f3ria cigana\u201d. Ele cita Angus Fraser, como maior historiador sobre o assunto, quando diz que, quando se consideram as vicissitudes que eles encontraram, deve-se concluir que a sua principal fa\u00e7anha foi a de ter sobrevivido\u201d. Teixeira acrescenta que \u201co universo cigano, mais que de duplicidade, \u00e9 repleto de multiplicidades, entre as quais est\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es com os n\u00e3o-ciganos, as identidades dos grupos e as imagens que se formaram dos ciganos\u201d.<\/p>\n<p>UM CIGANO NA PRESID\u00caNCIA DA REP\u00daBLICA<\/p>\n<p>O Brasil j\u00e1 teve presidentes nordestino (pau-de-arara), ga\u00facho fazendeiro, mineiros, paulistas, marechal das Alagoas, generais da ditadura civil-militar, um s\u00e1dico capit\u00e3o, mas poucos sabem de um presidente-cigano, Juscelino Kubitschek, que construiu Bras\u00edlia, a qual virou um covil de ladr\u00f5es, mas n\u00e3o por culpa da na\u00e7\u00e3o cigana.<\/p>\n<p>Quem revelou esta curiosidade, que eu nem sabia, foi o autor do livro \u201cCiganos no Brasil \u2013 Uma Breve Hist\u00f3ria\u201d, de Rodrigo Corr\u00eaa Teixeira. Os \u00a0Calon, ou Kal\u00e9, vieram da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e aqui se aportaram desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p>No entanto, na primeira metade do s\u00e9culo XIX, o Brasil recebeu o grupo Rom, ou Roma, da Europa do Leste, com suas fam\u00edlias. De acordo com informa\u00e7\u00f5es, o Rom que mais cedo chegou ao territ\u00f3rio mineiro foi Jan Nepomuscky Kubitschek, que trabalhou como marceneiro no Serro e em Diamantina. Ele era o av\u00f3 direto de Juscelino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O INSTITUTO DOS CIGANOS DO BRASIL EST\u00c1 RECORRENDO AO GOVERNO FEDERAL PARA TOMAR PROVID\u00caNCIAS CONTRA A\u00c7\u00d5ES DE PRECONCEITOS AO SEU POVO. 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