{"id":8241,"date":"2023-05-26T22:28:49","date_gmt":"2023-05-27T01:28:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8241"},"modified":"2023-05-26T22:28:56","modified_gmt":"2023-05-27T01:28:56","slug":"fluxo-e-refluxo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/05\/26\/fluxo-e-refluxo-xxi\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XXI"},"content":{"rendered":"<p>\u201cFORMA\u00c7\u00c3O DE UMA SOCIEDADE BRASILEIRA NO GOLFO DO BENIN NO S\u00c9CULO XIX\u201d<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo do seu livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, Pierre Verger observa que ap\u00f3s a Revolta do Mal\u00eas, em 1835, uma grande leva de negros africanos libertos, por conta pr\u00f3prio (press\u00e3o dos senhores patr\u00f5es) e outros por expuls\u00e3o das autoridades e da pol\u00edcia (subleva\u00e7\u00f5es e rebeli\u00f5es) decidiu retornar para suas terras de origem e l\u00e1 formaram col\u00f4nias brasileiras nas cidades de Agou\u00e9, Uid\u00e1, Lagos e Porto Novo, adotando costumes h\u00e1bitos, religi\u00e3o e cultura.<\/p>\n<p>Verger cita em sua obra que \u201cem discurso sobre reexporta\u00e7\u00e3o dos negros, Miguel Calmon du Pin e Almeida, deputado da Bahia, declarava que um dos chefes de um pa\u00eds da Alta Guin\u00e9, exatamente onde o tr\u00e1fico de escravos era mais florescente, mostrava-se mais esclarecido do que os outros: Ele n\u00e3o s\u00f3 tinha acolhido muito bem os africanos libertos e expulsos da Bahia, mas tamb\u00e9m lhes havia concedido terra onde se instalarem; e como existia entre eles um bom n\u00famero de pedreiros e carpinteiros, parece que constru\u00edram uma aldeia e passaram a cultivar a terra\u201d.<\/p>\n<p>LIGADOS AO MODO DE VIDA<\/p>\n<p>Os que voltaram para a \u00c1frica permaneceram ligados ao modo de vida adquiridos no Brasil. Ao saberem da boa acolhida dos emigrantes, muitos africanos da Bahia come\u00e7aram a organizar, voluntariamente, o seu transporte (um dos l\u00edderes foi Joaquim d\u00b4Almeida) para a nova col\u00f4nia no Golfo do Benin. Mais de quatrocentos passaportes foram expedidos pelo governo da prov\u00edncia \u00e0s pessoas e fam\u00edlias que os requeriam &#8211; relatava o deputado.<\/p>\n<p>Miguel du Pin dizia: \u201cVejo nesse estabelecimento n\u00e3o somente um lugar em que os nossos africanos libertos podem viver sem despesas, mas tamb\u00e9m um n\u00facleo de popula\u00e7\u00e3o, talvez mesmo um novo Estado, que, participando da nossa l\u00edngua e da mesma civiliza\u00e7\u00e3o, contribuir\u00e1 um dia para a extens\u00e3o de nosso com\u00e9rcio e de nossa ind\u00fastria nascente\u201d.<\/p>\n<p>O retorno era resultado de duas influ\u00eancias, a espont\u00e2nea, feita pela lealdade \u00e0 terra de onde tinham sido arrancados \u00e0 for\u00e7a, e a outra involunt\u00e1ria, provocada pelas medidas tomadas pela pol\u00edcia em consequ\u00eancia das revoltas e subleva\u00e7\u00f5es dos africanos, escravos e emancipados.<\/p>\n<p>Sobre essa quest\u00e3o, o estudioso Gilberto Freyre destaca que esses africanos vindos do Brasil (grande maioria da Bahia) se tornaram \u201cbrasileiros\u201d (abrasileirados) por meio da natureza e da cultura vigorosamente mesti\u00e7a. Voltaram com costumes, h\u00e1bitos, modos de vida, abaianados, aportuguesados e at\u00e9 mesmo nos v\u00edcios. Levaram o gosto pela farinha da mandioca, da goiabada e at\u00e9 mantiveram devo\u00e7\u00f5es como a do Senhor do Bonfim, al\u00e9m de festas, dan\u00e7as e cantos.<\/p>\n<p>Muitos se estabeleceram na regi\u00e3o Mahi, ao norte de Abom\u00e9, na cidadezinha de Agou\u00e9, na fronteira entre Daom\u00e9 e o Togo. Viajantes estrangeiros descreviam esses negros como de apar\u00eancia crist\u00e3, mas muitos tinham suas pr\u00f3prias religi\u00f5es (islamismo e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s suas divindades negras). Eles chegaram a construir uma igrejinha em Agou\u00e9. Por volta de 1842\/43, Joaquim d\u00b4Almeida, crioulo brasileiro emancipado, estava prestes a deixar a Bahia. Adquiriu objetos necess\u00e1rios \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da missa.<\/p>\n<p>Ele levantou uma capela, em 1845, e foi dedicada ao Senhor Bom Jesus da Reden\u00e7\u00e3o, em lembran\u00e7a a uma capela da Bahia. As origens crist\u00e3s de Agou\u00e9 remontam h\u00e1 mais de trinta anos da nossa chegada definitiva \u2013 descrevia o abade Pierre Bouche.<\/p>\n<p>O abade Laffite constatava em sua narrativa, que \u201cfoi nesse momento que chegaram muitos negros que reconheci serem escravos libertos do Brasil, por causa de suas roupas de camis\u00f5es estampados de flores. Os \u201cbrasileiros\u201d me conduziram a uma pequena capela que o mais rico deles (Joaquim) tinha mandado construir nos limites de sua propriedade\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, Pierre Bouche observava que eles de crist\u00e3os s\u00f3 tinham o nome, e aqui retornaram \u00e0s pr\u00e1ticas do paganismo ou da religi\u00e3o mu\u00e7ulmana. Na verdade, havia um sincretismo religioso entre o cristianismo e o fetichismo. Laffite dizia que os africanos \u201cbrasileiros\u201d s\u00f3 tinham de crist\u00e3o o batismo e que continuavam a invocar as divindades negras.<\/p>\n<p>OS GRUPOS<\/p>\n<p>O governador do forte de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista de Ajud\u00e1 classificava os libertos como \u201cpassageiros\u201d (aqueles que foram para o Brasil nos navios negreiros e depois voltaram). Afirmava que esses \u201cpassageiros\u201d eram considerados brancos de uma nova esp\u00e9cie em que a cor da pele n\u00e3o interferia em nada para a classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira que se formava em algumas cidades do Golfo do Benin, como Agou\u00e9, Porto Novo, Uid\u00e1 e Lagos era composta de comerciantes de escravos vindos de Portugal e do Brasil, de seus descendentes mulatos, de capit\u00e3es de navios negreiros estabelecidos na \u00c1frica e de africanos libertos, que tinham retornado do Brasil, principalmente da Bahia.<\/p>\n<p>Um outro grupo era constitu\u00eddo de escravos libertos em Serra Leoa, iorub\u00e1s em sua maioria. Eles eram chamados de akus em Freetown por causa de v\u00e1rias sauda\u00e7\u00f5es que come\u00e7avam por oku e sal\u00f4s ou sar\u00f4s, diminutivo de Serra Leoa. Os sarr\u00f4s separavam-se dos \u201cbrasileiros\u201d por sua convers\u00e3o ao protestantismo e pela l\u00edngua crioula, baseada no ingl\u00eas. Os que vinham do Brasil e Cuba falavam o portugu\u00eas ou o espanhol. Os mu\u00e7ulmanos do Brasil formavam outro grupo, mas eram pr\u00f3ximos dos h\u00e1bitos e o modo de vida dos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFORMA\u00c7\u00c3O DE UMA SOCIEDADE BRASILEIRA NO GOLFO DO BENIN NO S\u00c9CULO XIX\u201d Neste cap\u00edtulo do seu livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, Pierre Verger observa que ap\u00f3s a Revolta do Mal\u00eas, em 1835, uma grande leva de negros africanos libertos, por conta pr\u00f3prio (press\u00e3o dos senhores patr\u00f5es) e outros por expuls\u00e3o das autoridades e da pol\u00edcia (subleva\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8241"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8241"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8242,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8241\/revisions\/8242"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}