{"id":8210,"date":"2023-05-19T23:55:12","date_gmt":"2023-05-20T02:55:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8210"},"modified":"2023-05-19T23:55:19","modified_gmt":"2023-05-20T02:55:19","slug":"fluxo-e-refluxo-xx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/05\/19\/fluxo-e-refluxo-xx\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XX"},"content":{"rendered":"<p>DO TR\u00c1FICO DE ESCRAVOS AO COM\u00c9RCIO DO AZEITE DE DEND\u00ca AP\u00d3S 1810<\/p>\n<p>Por volta de 1850\/51 os ingleses \u201cengrossaram o caldo\u201d com seus potentes cruzadores para impedir de vez o tr\u00e1fico ilegal de escravos e chegaram a invadir as \u00e1guas brasileiras. Na \u00c1frica, derrubaram \u00e0 for\u00e7a os reinos de Lagos e Daom\u00e9, no Golfo do Benin. Nessa \u00e9poca estava em ascens\u00e3o o com\u00e9rcio do azeite de dend\u00ea no lugar do tabaco e da cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Os aprisionamentos de navios negreiros eram levados a julgamento para a col\u00f4nia de Serra Leoa e l\u00e1 os libertos n\u00e3o tinham muita op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser irem para as ilhas brit\u00e2nicas (Jamaica, Barbados, Demerara, Trindad) para o trabalho da cana de a\u00e7\u00facar como \u201ctrabalhadores livres\u201d, com sal\u00e1rio reduzido. Pelos tratados, os negros capturados deviam ser fixados nas col\u00f4nias da na\u00e7\u00e3o de origem. Muitos eram empregados na marinha e no ex\u00e9rcito, sem suas pr\u00f3prias vontades.<\/p>\n<p>De qualquer forma, os ingleses aproveitavam da situa\u00e7\u00e3o. Essa emigra\u00e7\u00e3o era confundida pelas pot\u00eancias estrangeiras como tr\u00e1fico de escravos. Os inglese ofereciam casa e um terreno para cultivar seus vegetais e cada trabalhador recebia meio d\u00f3lar, meia libra de peixe e uma pequena quantidade de rum. Assim eles reduziam custos se os negros ficassem em Serra Leoa. Al\u00e9m do mais, vendiam fuzis e armas. As outras na\u00e7\u00f5es aproveitavam para fazer seus neg\u00f3cios, inclusive de b\u00edblias. O capit\u00e3o Canot dizia que o tr\u00e1fico dos negros \u00e9 a abomina\u00e7\u00e3o das abomina\u00e7\u00f5es, mas o ouro n\u00e3o traz o cheiro de onde vem. Os tratados s\u00e3o legais e pagos pontualmente.<\/p>\n<p>Um estudo do Select Commitee apontava que os produtos manufaturados serviam para facilitar o com\u00e9rcio de escravos. Indiretamente, atrav\u00e9s do Brasil e Cuba, pelas mercadorias da Inglaterra vendidas \u00e0s pessoas que as utilizavam para troc\u00e1-las por escravos. Entretanto, o impedimento do com\u00e9rcio seria um s\u00e9rio preju\u00edzo para o povo da \u00c1frica. N\u00e3o havia meio de distinguir o que era legal do ilegal. O \u00fanico meio de lutar contra o tr\u00e1fico era o bloqueio, segundo as autoridades inglesas.<\/p>\n<p>O homem mais rico da terra, o baiano Francisco F\u00e9lix de Souza, o Xax\u00e1 de Souza, foi o \u00fanico a resistir na negocia\u00e7\u00e3o de escravos, ao lado de Joaquim Pereira Marinho, Domingos Martins e Jos\u00e9 Cerqueira Lima. Ele, o Xax\u00e1, sempre aparece no livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo Pierre Verger como maior protagonista da hist\u00f3ria da escravatura. O navio Brasileiro Rel\u00e2mpago foi o \u00faltimo a atravessar o Atl\u00e2ntico na pr\u00e1tica do tr\u00e1fico ilegal por volta de 1851.<\/p>\n<p>Mesmo com o abandono dos fortes ingl\u00eas, franc\u00eas e portugu\u00eas, na cidade de Uid\u00e1, o maior porto africano a transportar escravos e outras mercadorias, o Xax\u00e1 de Souza continuou l\u00e1 com seus interesses na Bahia, mesmo com as explos\u00f5es feitas pelo rei de Daom\u00e9, Abandozan.<\/p>\n<p>Apesar do tratado de 1810 com os portugueses que permitia realizar seu \u201cdiab\u00f3lico com\u00e9rcio\u201d, os navios examinados em Porto Novo e Onim (Lagos) eram levados para Serra Leoa e acabavam condenados. Na \u00e9poca havia 45 navios da Bahia fazendo o tr\u00e1fico entre Palmas e Calabar. Todos partiam para a Costa da Mina e traficavam em Popo, Ajud\u00e1 (Uid\u00e1), Porto Novo, Badagri e Onim.<\/p>\n<p>Mesmo com a proibi\u00e7\u00e3o, o tr\u00e1fico continuou florescente no s\u00e9culo XIX at\u00e9 por volta de 1851. A Bahia era o porto principal de onde os navios partiam sob as cores brasileiras e estrangeiras para burlar a vigil\u00e2ncia inglesa. Colocavam como destino Molembo, mas iam para Lagos. Usavam falsos livros, passaportes e bandeiras diferentes. A bandeira brasileira desapareceu do tr\u00e1fico pela entrada em vigor, em 13 de mar\u00e7o de 1830, do tratado de 1826, mas o com\u00e9rcio permaneceu sob bandeira portuguesa.<\/p>\n<p>Verger relata que em 1835 quatro vasos portugueses e doze espanh\u00f3is foram julgados e condenados, quando 4.645 escravos foram libertados. O total desde 1819 \u00e9 de 37.248 africanos. Ap\u00f3s o tratado com a Espanha, em 1835, um grande passo foi dado em dire\u00e7\u00e3o \u00e1 aboli\u00e7\u00e3o. No entanto, no futuro os espanh\u00f3is obtiveram documentos portugueses.<\/p>\n<p>Em 1839 houve uma diminui\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico por causa da vigil\u00e2ncia dos cruzadores ingleses e pelos inc\u00eandios das feitorias em Onim que continham bens de valor. Por volta de 1840, os brit\u00e2nicos come\u00e7aram tamb\u00e9m a destruir instala\u00e7\u00f5es e dep\u00f3sitos de escravos na costa da \u00c1frica. Os navios presos e condenados eram por vezes recomprados pelos comandantes dos cruzadores ingleses que os transformavam em auxiliares da esquadra ou pelos pr\u00f3prios donos e capit\u00e3es dos vasos.<\/p>\n<p>O autor da obra tamb\u00e9m fala das lucrativas negocia\u00e7\u00f5es com mercadorias encontradas a bordo dos navios negreiros condenados. Eram vendidas em leil\u00e3o a um pre\u00e7o baixo. Gra\u00e7as a isso, a popula\u00e7\u00e3o negra de Serra Leoa se beneficiava das vendas e os moradores se tornavam mascates e comerciantes ambulantes em pa\u00edses vizinhos. Eles eram bons comerciantes e chegaram a acumular bens. Os akus, por exemplo, eram os judeus da \u00c1frica e fizeram fortunas, retornando para seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>O COM\u00c9RCIO DO AZEITE DO DEND\u00ca<\/p>\n<p>A convers\u00e3o do tr\u00e1fico de escravos para o azeite de dend\u00ea, do algod\u00e3o, de peles e outros produtos que vinham se juntar ao com\u00e9rcio estabelecido de ouro, da goma ar\u00e1bica, da pimenta, da cera e do marfim foi, no come\u00e7o, mais o resultado de iniciativas privadas de alguns comerciantes de Londres e Marselha, do que de uma pol\u00edtica deliberada dos governos. Foi criado o Comit\u00ea dos Mercadores de Londres.<\/p>\n<p>Do lado franc\u00eas, armadores de Havre, Bordeaux, Marselha e Nantes enviavam navios para fazerem trocas na costa. Os irm\u00e3os Regis Victor e Louis tinham o monop\u00f3lio e chegaram a fundar feitorias em Uid\u00e1, em 1841, o maior centro do tr\u00e1fico de escravos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DO TR\u00c1FICO DE ESCRAVOS AO COM\u00c9RCIO DO AZEITE DE DEND\u00ca AP\u00d3S 1810 Por volta de 1850\/51 os ingleses \u201cengrossaram o caldo\u201d com seus potentes cruzadores para impedir de vez o tr\u00e1fico ilegal de escravos e chegaram a invadir as \u00e1guas brasileiras. 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