{"id":8187,"date":"2023-05-13T00:04:02","date_gmt":"2023-05-13T03:04:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8187"},"modified":"2023-05-13T00:04:13","modified_gmt":"2023-05-13T03:04:13","slug":"fluxo-e-refluxo-xviii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/05\/13\/fluxo-e-refluxo-xviii\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XVIII"},"content":{"rendered":"<p>ACEITA\u00c7\u00c3O DAS CULTURAS BRASILEIRA E AFRICANA E O RETORNO DOS ESCRAVOS \u00c0 SUA TERRA NATAL.<\/p>\n<p>Em sua pesquisa que resultou no livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, Pierre Verger mostra duas tend\u00eancias dos escravos, alforriados, mulatos e crioulos, com foco especial na Bahia. Um grupo preferia manter suas origens, costumes e religi\u00e3o africana e outro procurava se adaptar \u00e0 cultura brasileira.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o por ele abordada foi a do retorno dos africanos para sua terra natal, principalmente para o Golfo do Benin (j\u00eaje-mahi) e para a regi\u00e3o de Lagos, no caso povos das na\u00e7\u00f5es nag\u00f4s-iorub\u00e1s, tapas e hauss\u00e1s.<\/p>\n<p>Esse refluxo come\u00e7ou a partir do meado do s\u00e9culo XIX com as subleva\u00e7\u00f5es e a chegada de colonos brancos que passaram a ocupar o trabalho dos negros. Os senhores pagavam bem mais pelos servi\u00e7os prestados pelos brancos. Muitos se resignavam com a situa\u00e7\u00e3o, mas outros se rebelavam.<\/p>\n<p>LEIS DE DEPORTA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>Existiram at\u00e9 leis brasileira e municipais no sentido de deportar os negros, obrigando a pagar suas despesas. Os patr\u00f5es abusaram dos escravos e depois resolveram abandon\u00e1-los \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>Quanto a religi\u00e3o cat\u00f3lica que obrigava que os cativos professassem, muitos \u201ctrapaceavam\u201d e fingiam seguir o catolicismo, mas misturavam as rezas e os santos com seus rituais de candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Com receio de levantes e como forma de apaziguar os africanos, o governo at\u00e9 encorajava eles a se encontrarem aos domingos nos batuques organizados por na\u00e7\u00e3o de origem, mas isso depois foi proibido.<\/p>\n<p>Para evitar que um mal comum os aproximasse, o governo achou prudente autorizar as distra\u00e7\u00f5es aos domingos, que lembrassem suas identidades africanas. Existiam preconceitos e \u00f3dios entre etnias africanas advindos das antigas guerras tribais. O resultado das reuni\u00f5es acabou sendo o de manter o culto aos seus deuses orix\u00e1s e aos vuduns, divindades dos nag\u00f4s e dos fons do Daom\u00e9.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o demorou muito e o governo come\u00e7ou a impedir suas batucadas. Na Bahia, entre os objetos encontrados pela pol\u00edcia nas casas africanas, destacavam-se os instrumentos musicais e acess\u00f3rios destinados \u00e0s sess\u00f5es de candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Roger Batisde assinala que em 1618, quando da visita da inquisi\u00e7\u00e3o na Bahia, Sebasti\u00e3o Barreto denunciava o costume que tinham os negros de matar animais quando em luto para lavarem-se em seu sangue, dizendo que a alma deixava o corpo para subir ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>Por volta de 1768 foi denunciada a exist\u00eancia de verdadeiras casas de culto africanas, e muitas foram objetos de persegui\u00e7\u00e3o judicial em Pernambuco. As dan\u00e7as eram feitas \u00e0s escondidas pelos negros da Costa da Mina (Golfo do Benin). Em 1785, de acordo com Verger, os cativos angolanos da Bahia pediam permiss\u00e3o para celebrar a Gloriosa Senhora do Ros\u00e1rio, com m\u00e1scaras, dan\u00e7as e cantos como antigamente.<\/p>\n<p>Os estrangeiros descreviam esses rituais como animalidades e manifesta\u00e7\u00f5es est\u00fapidas. Na Lavagem do Bonfim, segundo eles, os atos eram de desrespeito e os jornais noticiavam como abusos e h\u00e1bitos que a civiliza\u00e7\u00e3o condena. Para os peri\u00f3dicos, era uma orgia desordenada e um verdadeiro bacanal dos tempos pag\u00e3os. As can\u00e7\u00f5es eram consideradas de prost\u00edbulos. Muitos eram presos em suas casas por terem instrumentos dos cultos.<\/p>\n<p>Em 1857 o munic\u00edpio baixou uma decis\u00e3o proibindo os batuques, dan\u00e7as, reuni\u00f5es de escravos em qualquer lugar, sob pena de oito dias de pris\u00e3o para cada um dos contraventores. Em 1859, num lugar chamado de Quinta das Beatas, 42 indiv\u00edduos foram presos por terem se reunido em batuques, dentre eles um pai de terreiro de seu candombl\u00e9 (pai de santo).<\/p>\n<p>A DEPORTA\u00c7\u00c3O DOS AFRICANOS<\/p>\n<p>Por volta de 1850, com o fim do tr\u00e1fico negreiro e a chegada de colonos brancos, surgia uma discrimina\u00e7\u00e3o entre os crioulos livres e os africanos emancipados. Os brancos eram trabalhadores bra\u00e7ais que n\u00e3o aceitavam trabalhar no meio de pessoas de cor e escravas, conforme relatava o c\u00f4nsul brit\u00e2nico no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Pelo recenseamento de 1848 havia no Rio 8449 africanos livres e 5012 crioulos de cor livres contra 110.512 escravos. Eram 142.403 brancos, entre os quais, 37.924 estrangeiros, sendo a grande maioria de portugueses (oito mil colonos brancos).<\/p>\n<p>Os negros come\u00e7aram a perder seus servi\u00e7os e os ganhos eram menores que os dos brancos. Foi a\u00ed que os africanos descontentes decidiram retornar aos seus locais de origem. Um africano pediu ao c\u00f4nsul para achar um navio brit\u00e2nico para transportar 500 pessoas. Eles recusavam ir para outro lugar que n\u00e3o fosse a \u00c1frica.<\/p>\n<p>Na Bahia, o governo, mediante um decreto, encorajava o trabalho de m\u00e3o de obra nacional e proibia o uso de barqueiro africano fazer seu servi\u00e7o no cais e nas entradas p\u00fablicas da cidade. O trabalho era somente para brasileiros e crioulos livres. Por causa disso, 750 africanos emancipados foram expulsos de seu emprego.<\/p>\n<p>O Jornal da Bahia noticiava em primeiro de novembro de 1861 que aquele dia era anivers\u00e1rio da admiss\u00e3o dos homens livres para os servi\u00e7os desses barcos, exclu\u00eddos os africanos e os escravos. Em maio de 1853 chegou a ocorrer na Bahia um alarme de insurrei\u00e7\u00e3o por causa da exclus\u00e3o dos africanos no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Dizia o c\u00f4nsul John Morgan que as autoridades tudo faziam para se desvencilharem dos negros livres com o argumento de que a perman\u00eancia deles na prov\u00edncia era um perigo. O c\u00f4nsul citou que o chefe de pol\u00edcia, com base na lei brasileira, ordenou uma escuna holandesa que ficasse pronta para partir para a col\u00f4nia de Elmina, tentando for\u00e7ar esse pavilh\u00e3o a transportar negros que estavam presos no Aljube para a costa da \u00c1frica.<\/p>\n<p>O chefe de pol\u00edcia persistia em violar leis diferentes entre as na\u00e7\u00f5es. \u201cEsses africanos s\u00e3o agora arrancados de suas mulheres e de seus filhos com a mesma barb\u00e1rie que aquela dos infames ladr\u00f5es de homens que os haviam arrancado, antigamente, de seu pa\u00eds natal\u201d \u2013 escrevia o c\u00f4nsul. Depois de muita conversa\u00e7\u00e3o, a escuna holandesa foi liberada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ACEITA\u00c7\u00c3O DAS CULTURAS BRASILEIRA E AFRICANA E O RETORNO DOS ESCRAVOS \u00c0 SUA TERRA NATAL. Em sua pesquisa que resultou no livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, Pierre Verger mostra duas tend\u00eancias dos escravos, alforriados, mulatos e crioulos, com foco especial na Bahia. 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