{"id":8162,"date":"2023-05-05T23:48:45","date_gmt":"2023-05-06T02:48:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8162"},"modified":"2023-05-05T23:49:08","modified_gmt":"2023-05-06T02:49:08","slug":"fluxo-e-refluxo-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/05\/05\/fluxo-e-refluxo-xvi\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XVI"},"content":{"rendered":"<p>\u201cCONDI\u00c7\u00d5ES DE VIDA DOS ESCRAVOS NA BAHIA NO S\u00c9CULO XIX\u201d<\/p>\n<p>O livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, de Pierre Verger, traz uma s\u00e9rie de an\u00fancios classificados do Jornal da Bahia onde os propriet\u00e1rios de escravos notificavam as fugas de seus cativos, a maioria de negros nag\u00f4s, citando as caracter\u00edsticas e tra\u00e7os f\u00edsicos da pessoa, trajes, idades, cicatrizes no corpo (a maioria nos rostos, peitos, p\u00e9s e bra\u00e7os como marcas das torturas), suas atividades laborais, nomes e a quantia da recompensa a ser dada a quem encontrasse o fugido da sua casa, com\u00e9rcio ou fazenda.<\/p>\n<p>Foi a \u00e9poca maior dos ca\u00e7adores de recompensa. No an\u00fancio, o dono advertia processar quem do seu escravo se apropriasse ou dessa guarida.\u00a0 Um fato curioso chama a aten\u00e7\u00e3o: O surgimento de crian\u00e7as e jovens pardos de pele branca como escravos. Numa atitude hip\u00f3crita religiosa, os chefes de pol\u00edcia, traficantes e at\u00e9 o presidente da prov\u00edncia faziam campanhas filantr\u00f3picas para arrecadar dinheiro para alforriar o cativo por causa da cor da sua pele ser bem mais clara.<\/p>\n<p>Os cativos que viviam no campo tinham melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e alimenta\u00e7\u00e3o do que aqueles que trabalhavam nas ind\u00fastrias e no com\u00e9rcio nas cidades. Mesmo assim, na zona rural tinham os patr\u00f5es de menor recurso e sovinas que regravam a comida e maltratavam mais ainda seus escravos que costumavam fugir para fazendas mais ricas.<\/p>\n<p>A obra \u201cFluxo e Refluxo\u201d, de Pierre Verger, etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo, destaca as diversas \u00e1reas de trabalho dos escravos, tais como os dom\u00e9sticos de casa (eram mais acolhidos), os de aluguel, de ganho de rua (tabuleiros de frutas e quitutes), os carregadores (gozavam de certa liberdade), os vendedores ambulantes que comercializavam mercadorias para seus senhores, os carpinteiros, m\u00fasicos, barbeiros, carpinas, ferreiros, entre outras atividades.<\/p>\n<p>Em Salvador, como a cidade era alta e baixa, os escravos executavam a fun\u00e7\u00e3o de cavalos e transportavam de um lugar para o outro os mais pesados produtos, usando os palanquins (redes cobertas por interm\u00e9dio de uma longa vara). Depois passaram a usar as cadeiras.<\/p>\n<p>Verger cita Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e observadores viajantes que narravam as condi\u00e7\u00f5es dos escravos na Bahia durante o s\u00e9culo XIX. Sobre Nina Rodrigues, comenta que tinha uma tend\u00eancia a mostrar o esp\u00edrito de segrega\u00e7\u00e3o e de reserva manifestado pelos escravos e alforriados: eles \u201cficavam segregados da popula\u00e7\u00e3o geral, no seio da qual viviam e trabalhavam, para fechar e limitar seu c\u00edrculo aos pequenos grupos particulares das diversas na\u00e7\u00f5es africanas\u201d. Conservavam sua l\u00edngua, suas tradi\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as.<\/p>\n<p>Para os trabalhadores dos campos e das minas, segundo Verger, comprar sua liberdade era praticamente imposs\u00edvel. Os dom\u00e9sticos podiam esperar sua carta de alforria por ocasi\u00e3o da morte de seu senhor, em recompensa aos bons e leais servi\u00e7os prestados. Os negros de ganho e vendedores ambulantes, ativos e h\u00e1beis, que tinham o direito de guardar para si uma parte de suas receitas, compravam mais f\u00e1cil a liberdade. Havia uma distin\u00e7\u00e3o entre africanos e crioulos, negros ou mulatos.<\/p>\n<p>Para Nina Rodrigues, os crioulos livres ou escravos achavam que os africanos ficavam sempre marcados por suas origens pag\u00e3s, e estes preferem a conviv\u00eancia dos patr\u00edcios, pois sabem que, se os temem pela reputa\u00e7\u00e3o de feiticeiros, n\u00e3o os estima a popula\u00e7\u00e3o crioula. Os africanos importados pelo tr\u00e1fico contra sua vontade n\u00e3o se integravam na vida do pa\u00eds e n\u00e3o adotavam o Brasil como p\u00e1tria. Eles ficavam segregados da popula\u00e7\u00e3o em geral e se juntavam aos seus grupos.<\/p>\n<p>O governo brasileiro tinha se comprometido com os ingleses a repatriar os negros de contrabando encontrados nos navios negreiros apreendidos, mas o n\u00famero era t\u00e3o grande que as despesas eram superiores aos recursos do Tesouro Nacional.<\/p>\n<p>Muitos viajantes escreveram sobre a situa\u00e7\u00e3o dos escravos no Brasil, como Henrry Koster, em 1809. Em sua vis\u00e3o, os escravos no Brasil gozavam de maiores vantagens que seus irm\u00e3os das col\u00f4nias brit\u00e2nicas. Os muitos dias de santos da religi\u00e3o cat\u00f3lica (35 dias e mais os domingos) davam aos escravos dias de repouso ou tempo para trabalharem para eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Entre as fontes de informa\u00e7\u00e3o figuravam os classificados e not\u00edcias dos jornais da \u00e9poca, nas quais Gilberto Freyre muito utilizou para elaborar suas pesquisas. Os inqu\u00e9ritos judiciais, como as revoltas e subleva\u00e7\u00f5es, continham boas informa\u00e7\u00f5es para os pesquisadores e historiadores.<\/p>\n<p>Quanto os bens m\u00f3veis e gado, Verger ressalta que nos invent\u00e1rios das sucess\u00f5es dos s\u00e9culos XVII e XIX, os escravos eram uma parte priorit\u00e1ria do capital que figuravam nas listas antes mesmo do rebanho, dos instrumentos agr\u00edcolas e mobili\u00e1rios da casa. Existiam casos de escravos que possu\u00edam seus pr\u00f3prios escravos.<\/p>\n<p>Os cativos das cidades (vendedores) eram obrigados a levar todos os dias uma certa quantia de seus ganhos para seus senhores. S\u00e3o considerados como um capital de a\u00e7\u00e3o que deve render lucros para seus patr\u00f5es.\u00a0 Depois de velhos, geralmente eram abandonados.<\/p>\n<p>Sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida entre os do campo e da cidade, Freyre descreve que os da casa grande eram mais nutridos com feij\u00e3o e toucinhos, milho ou angu, pir\u00e3o de mandioca, inhame e arroz. Eram alimentos fundamentais para os escravos. Usavam tamb\u00e9m o quiabo, a taioba e outras folhas de f\u00e1cil e barato cultivo, desprezados pelos senhores.<\/p>\n<p>De acordo com Gilberto Freyre, os escravos das \u00e1reas mais patriarcais tiveram um tratamento, um regime alimentar e um g\u00eanero de vida superiores aos dos escravos em \u00e1reas j\u00e1 industriais ou comerciais, embora ainda de escravid\u00e3o, distantes da rela\u00e7\u00e3o com seu senhor, reduzidos a m\u00e1quina de fazer dinheiro, principalmente no ciclo do caf\u00e9 no Brasil.<\/p>\n<p>De um modo geral, muitos escravos fugiam das casas de seus senhores na cidade para voltar para seus antigos donos no campo, seja porque n\u00e3o se acostumavam com a vida urbana, ou por fidelidade ao ex-senhor, bem como pela lembran\u00e7a da vida \u201cfolgada\u201d na zona rural, onde podiam dispor de pequenos terrenos para cultivar suas hortas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cCONDI\u00c7\u00d5ES DE VIDA DOS ESCRAVOS NA BAHIA NO S\u00c9CULO XIX\u201d O livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, de Pierre Verger, traz uma s\u00e9rie de an\u00fancios classificados do Jornal da Bahia onde os propriet\u00e1rios de escravos notificavam as fugas de seus cativos, a maioria de negros nag\u00f4s, citando as caracter\u00edsticas e tra\u00e7os f\u00edsicos da pessoa, trajes, idades, cicatrizes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8162"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8162"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8162\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}