{"id":8113,"date":"2023-04-21T22:21:15","date_gmt":"2023-04-22T01:21:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8113"},"modified":"2023-04-21T22:21:40","modified_gmt":"2023-04-22T01:21:40","slug":"fluxo-e-refluxo-xv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/04\/21\/fluxo-e-refluxo-xv\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XV"},"content":{"rendered":"<p>OS DETALHES SOBRE O TR\u00c1FICO ILEGAL DE\u00a0 ESCRAVOS NA BAHIA.<\/p>\n<p>Eram muitas as trapa\u00e7as dos navegantes baianos para burlar as vigil\u00e2ncias inglesas contra o tr\u00e1fico ilegal de escravos da \u00c1frica na Costa do Benin, principalmente ao norte acima da linha do Equador. Todas irregularidades e transgress\u00f5es \u00e0s leis, tratados e conven\u00e7\u00f5es est\u00e3o documentadas na obra \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo franc\u00eas Pierre Verger.<\/p>\n<p>Veja o que o autor descreve, atrav\u00e9s de cartas do c\u00f4nsul Poter, sobre o assunto: \u201cUma declara\u00e7\u00e3o feita em 10 de abril de 1834 (o tr\u00e1fico tornou-se ilegal no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX) por um marinheiro do navio Musca d\u00e1 detalhes a respeito do desembarque na Bahia de 228 escravos mandados pelo Xax\u00e1 de Souza (Francisco F\u00e9lix de Souza).<\/p>\n<p>O marinheiro desceu para terra com o segundo capit\u00e3o para tomar disposi\u00e7\u00f5es com o consignat\u00e1rio na regi\u00e3o da \u201cTorre\u201d (Casa Garcia D\u00b4\u00c1vila). Ent\u00e3o navegaram quatro ou cinco dias ao largo da \u201cTorre\u201d, e uma grande garoupeira veio pegar os escravos a bordo e trouxe uma carga de pedras como lastro\u201d.<\/p>\n<p>Em outra passagem, conta que um cruzador brit\u00e2nico vindo do Rio de Janeiro, em setembro de 1838, trazia uma declara\u00e7\u00e3o sobre o caso do brigue americano Dido que chegou a Salvador com 575 escravos e estava \u00e0 vista das dunas de areia das praias da Bahia.<\/p>\n<p>Como viu uma corveta inglesa, o Dido i\u00e7ou as cores americanas. Na mesma noite, 570 cativos (cinco morreram na travessia) foram entregues no povoado perto da ponta de Itapu\u00e3. O navio foi limpo e no dia seguinte apareceu na Bahia com a bandeira dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em agosto de 1841, o c\u00f4nsul Poter escrevia para Hamilton Hamilton, no Rio de Janeiro, a respeito do brigue Pic\u00e3o que havia desembarcado 480 escravos na costa oeste da ilha de Itaparica. Ap\u00f3s o sucesso da empreitada, indiv\u00edduos organizaram uma companhia a fim de promover o tr\u00e1fico. Compraram cinco vasos (navios) que est\u00e3o prontos para partir para a Costa da \u00c1frica. O c\u00f4nsul pedia refor\u00e7o de cruzadores brit\u00e2nicos para apertar a fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1842, o c\u00f4nsul confirmava que os mercadores de escravos, para evitar as interven\u00e7\u00f5es no livre usos das embarca\u00e7\u00f5es, declaravam que retornavam de portos afastados da costa da \u00c1frica, o que tornava dif\u00edcil a obten\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es corretas com rela\u00e7\u00e3o ao movimento dos navios.<\/p>\n<p>No ano de maio 1846, o c\u00f4nsul assinalava a carga sem precedentes de 1350 cativos (perdeu 40 na viagem) que o Tr\u00eas Amigos tinha desembarcado. Esse navio figurava na lista de partida de tr\u00eas de julho para os A\u00e7ores, de onde voltou em setembro em arribada depois de 71 dias. N\u00e3o havia d\u00favidas que tinha ido fazer seu tr\u00e1fico nesse intervalo e deixado uma carga em um dos pontos de desembarque nos arredores da cidade da Bahia.<\/p>\n<p>No mesmo ano, o Andorinha, pertencente a Joaquim Pereira Marinho, um dos maiores traficantes da Bahia (tem uma est\u00e1tua dele em frente do Hospital Santa Isabel), come\u00e7ava uma s\u00e9rie de viagens \u00e0 costa da \u00c1frica, anunciando sua primeira partida em outubro de 1846 para as Can\u00e1rias. O c\u00f4nsul dizia que a importa\u00e7\u00e3o era feita com a maior atividade, citando que tr\u00eas mil foram desembarcados na Bahia durante o \u00faltimo trimestre de 1846.<\/p>\n<p>Os comerciantes e as autoridades afirmavam que o tr\u00e1fico cessaria com a sa\u00edda dos cruzadores brit\u00e2nicos na fiscaliza\u00e7\u00e3o. O lorde Palmerston argumentava que isso n\u00e3o passava de uma fal\u00e1cia. Segundo relatos de 1847, a importa\u00e7\u00e3o aumentou ainda mais. Foram 2233 escravos no terceiro trimestre, contra 1500 para o segundo e 1180 para o primeiro.<\/p>\n<p>Fazia-se o tr\u00e1fico sem esconder. Na ilha de Itaparica foram constru\u00eddos locais de desembarques normais. Em plena noite eram utilizadas luzes para guiar os vasos. Dali os cativos eram levados para dep\u00f3sitos da cidade da Bahia, onde s\u00e3o vendidos sem medo de interven\u00e7\u00e3o das autoridades, apontavam os agentes do c\u00f4nsul Poter. \u201cTenho a satisfa\u00e7\u00e3o de declarar que sete vasos pertencentes a este porto foram capturados pelos cruzadores ingleses. Apesar das perdas, muitos est\u00e3o equipados para irem \u00e0 costa africana\u201d. Foram desembarcados 3.500 escravos nos arredores da cidade durante o quarto trimestre de 1847, a maior importa\u00e7\u00e3o que houve durante os \u00faltimos oito anos.<\/p>\n<p>Os vasos chegavam frequentemente dos Estados Unidos e do Mediterr\u00e2neo comprados por essas companhias e enviados \u00e0 \u00c1frica sob a bandeira das na\u00e7\u00f5es \u00e0s quais pertencem originalmente. A bandeira do Brasil \u00e9 substitu\u00edda no momento em que recebem suas cargas a bordo.<\/p>\n<p>Tem ainda o caso do brigue George, que partiu para \u00c1frica, em agosto de 1847, e voltou com o nome de Tentativa com cores brasileiras, com uma carga de 726 cativos em um miser\u00e1vel estado de fome (11 morreram por falta de \u00e1gua e provis\u00f5es). O iate Andorinha, de Joaquim Pereira Marinho fez oito viagens com sucesso. Desembarcou 3392 escravos no porto da Bahia. O lucro era consider\u00e1vel. Em agosto de 49 foi capturado. Fez dez viagens, desembarcou 3.800, ganhando 46 mil libras no curto espa\u00e7o de 32 meses.<\/p>\n<p>Em maio de 1850, \u201co tr\u00e1fico de escravos continua na Bahia com o maior sucesso. Durante o \u00faltimo m\u00eas, foram desembarcados mais de 1100, na maioria nag\u00f4s, hauss\u00e1s, tapas e jejes. A maior parte prov\u00e9m dos portos de Onim e Ajud\u00e1\u201d \u2013 relatava o c\u00f4nsul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS DETALHES SOBRE O TR\u00c1FICO ILEGAL DE\u00a0 ESCRAVOS NA BAHIA. Eram muitas as trapa\u00e7as dos navegantes baianos para burlar as vigil\u00e2ncias inglesas contra o tr\u00e1fico ilegal de escravos da \u00c1frica na Costa do Benin, principalmente ao norte acima da linha do Equador. 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