{"id":807,"date":"2015-02-06T21:50:11","date_gmt":"2015-02-07T00:50:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=807"},"modified":"2015-02-06T21:50:33","modified_gmt":"2015-02-07T00:50:33","slug":"itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2015\/02\/06\/itamar-indica-e-comenta-orlando-senna-8\/","title":{"rendered":"ITAMAR INDICA E COMENTA ORLANDO SENNA"},"content":{"rendered":"<p><strong>COISA DE CINEMA<\/strong><\/p>\n<p>Blog Refletor\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina<\/p>\n<p>Creio que muitos de voc\u00eas j\u00e1 usaram ou ouviram a express\u00e3o \u201ccoisa de cinema\u201d (ou simplesmente \u201cde pel\u00edcula\u201d, como dizem os hisp\u00e2nicos), significando algo bonito, diferente, estranho, espetacular ou que se trata de uma mentira ou exagero. Uma vertente das coisas de cinema s\u00e3o as lendas cinematogr\u00e1ficas, no mesmo sentido que damos a lendas urbanas ou lendas industriais \u2014 fatos que podem ter acontecido realmente, mas n\u00e3o se tem certeza ou n\u00e3o se sabe exatamente como aconteceram e, por isso, as lacunas s\u00e3o preenchidas com a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Glauber Rocha, com seu jeito muito peculiar de ser cineasta, \u00e9 um manancial dessas lendas, uma fonte que est\u00e1 se tornando inesgot\u00e1vel com o passar do tempo, de vez em quando escuto uma hist\u00f3ria nova sobre seu comportamento atr\u00e1s e diante das c\u00e2meras ou com pessoas que cruzaram seu caminho em sets de grava\u00e7\u00e3o, mesas de debates ou pol\u00eamicas (sobre seu famoso discurso nas ruas de Veneza, em 1980, j\u00e1 ouvi muitas vers\u00f5es diferentes e \u00e0s vezes contradit\u00f3rias).<\/p>\n<p><!--more-->Versa uma das lendas de Glauber que, durante a realiza\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Barravento<\/em>, ele queria que a atriz Lucy Carvalho pisasse em uma po\u00e7a d\u2019\u00e1gua em uma das cenas e ela recusou, dizendo que a \u00e1gua estava suja, contaminada. Ele encheu as m\u00e3os com a \u00e1gua, mostrando que estava l\u00edmpida, transparente, incolor. Os argumentos n\u00e3o convenceram a Lucy e, como ele queria aquela \u00e1gua e aqueles p\u00e9s no seu filme, bebeu a \u00e1gua da po\u00e7a. Lucy se curvou a esse argumento, a cena foi feita e Glauber baixou ao hospital com terr\u00edvel disenteria.<\/p>\n<p>Indo l\u00e1 para o in\u00edcio da hist\u00f3ria, para os primeiros anos do cinema, encontramos duas lendas que est\u00e3o diretamente ligadas \u00e0 linguagem audiovisual, \u00e0 magia dessa linguagem. Os irm\u00e3os Lumi\u00e8re, inventores do cinema, tamb\u00e9m inventaram os cinegrafistas ao ensinar a alguns fot\u00f3grafos como operar c\u00e2meras cinematogr\u00e1ficas. Um desses cinegrafistas e seu jovem assistente foram mandados a Veneza para documentar a cidade, para fazer \u201cvistas\u201d, como se dizia na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Navegando em um dos canais de Veneza, em dire\u00e7\u00e3o a uma pra\u00e7a onde iam ancorar a c\u00e2mera e o trip\u00e9, o assistente reparou na beleza das casas passando lentamente diante de seus olhos. Disse ao chefe, ao cinegrafista, que ele devia filmar esse movimento e ouviu um serm\u00e3o de quem entendia do assunto: \u201cn\u00e3o se pode filmar com a c\u00e2mera em movimento, sai tudo borrado, a c\u00e2mera tem de ser fixa\u201d. O jovem insistiu, chamou para uma aposta e o cinegrafista filmou. Sua inten\u00e7\u00e3o era demonstrar o absurdo do pedido do rapaz. Revelaram o filme e se deram conta que tinham inventado os movimentos de c\u00e2mera, um dos fundamentos da linguagem.<\/p>\n<p>Georges M\u00e9li\u00e8s, o ilusionista, o m\u00e1gico de teatro que se deu conta que o cinema podia narrar fic\u00e7\u00f5es, estava filmando o tr\u00e1fego de uma avenida de Paris, a c\u00e2mera fixa no ch\u00e3o. Pessoas e carros passando. Sem ele perceber, a grifa da c\u00e2mera travou por alguns segundos e voltou a funcionar. Grifa \u00e9 a pe\u00e7a em forma de garfo que, nas c\u00e2meras antigas, puxa a fita de celuloide para que ela fotografe 24 vezes por segundo. Com a pane da grifa, a c\u00e2mera parou de filmar durante uns instantes. Ao revelar o filme M\u00e9li\u00e8s se assustou e logo se maravilhou: na tela, um \u00f4nibus se transformava instantaneamente em um carro f\u00fanebre. De uma s\u00f3 tacada o ilusionista havia descoberto a montagem e os efeitos especiais.<\/p>\n<p>Mas vamos voltar ao cinema brasileiro, encerrando com uma lenda protagonizada pelo cineasta William\u00a0Cobbett, do Rio Grande do Norte, diretor de\u00a0<em>Jesuino Brilhante, o Cangaceiro<\/em>\u00a0e outros filmes. Ali\u00e1s (outra lenda)\u00a0Cobbett\u00a0j\u00e1 havia sido abordado por um ator que queria comprar seu nome, por ser charmoso e chamativo. No in\u00edcio da d\u00e9cada 1970,\u00a0Cobbett produziu\u00a0um filme modesto sobre\u00a0<em>A vida de Jesus Cristo<\/em>, baixo or\u00e7amento, e pediu apoio para o lan\u00e7amento ao presidente da Embrafilme, o brigadeiro Armando Tr\u00f3ia.<\/p>\n<p>O produtor queria lan\u00e7ar o filme imediatamente, podia ser um circuito pequeno. Mas o militar presidente da empresa teve uma ideia luminosa: \u201ctemos de lan\u00e7ar esse filme em Roma, no Vaticano\u201d. Cobbett tentou demov\u00ea-lo, isso levaria anos e ele precisava de alguma bilheteria agora, tinha d\u00edvidas de produ\u00e7\u00e3o a saldar. O presidente da Embrafilme surtou com a pr\u00f3pria ideia, uma Vida de Cristo brasileira no Vaticano, exibi\u00e7\u00e3o p\u00fablica na Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro. E Cobbett desesperado, \u201ceu estava falando da Baixada Fluminense\u201d. N\u00e3o teve jeito, tinha de ser em Roma, com a presen\u00e7a do Papa. N\u00e3o aconteceu nada, \u00e9 claro, e Cobbett ganhou a discuss\u00e3o, o filme foi exibido em um circuito perif\u00e9rico. S\u00f3 que um ano depois.<\/p>\n<p>Por Orlando Senna<\/p>\n<p>Orlando Senna nasceu em Afr\u00e2nio Peixoto, munic\u00edpio de Len\u00e7\u00f3is Bahia. Jornalista, roteirista, escritor e cineasta, premiado nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, P\u00e9saro, Havana, Porto Rico, Brasilia, Rio Cine. Entre seus filmes mais conhecidos est\u00e3o Diamante Bruto e o cl\u00e1ssico do cinema brasileiro, Iracema. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televis\u00e3o de San Antonio de los Ba\u00f1os e do Instituto Drag\u00e3o do Mar, Secret\u00e1rio Nacional do Audiovisual (2003\/2007) e Diretor Geral da Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 TV Brasil (2007\/2008). Atualmente e presidente da TAL \u2013 Televis\u00e3o Am\u00e9rica Latina e membro do Conselho Superior da Fundacion del Nuevo Cine Latinoamericano.<\/p>\n<p>Itamar Pereira de Aguiar nasceu em Iraquara &#8211; Bahia; concluiu o Gin\u00e1sio e Escola Normal em Len\u00e7\u00f3is, onde foi Diretor de Col\u00e9gio do 1\u00ba e 2\u00ba graus (1974\/1979); graduado em Filosofia, pela UFBA em 1979; Mestre em 1999 e Doutor em Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 2007, pela PUC\/SP; P\u00f3s doutorando em\u00a0Ci\u00eancias Sociais \u2013 Antropologia \u2013 pela UNESP campus de Mar\u00edlia \u2013 SP. Professor Titula da Universidade Estadual do Sudoeste do Estado da\u00a0Bahia \u2013 UESB; elaborou com outros colegas os projetos e liderou o processo de cria\u00e7\u00e3o dos cursos de Licenciatura em Filosofia, Cinema e Audiovisual\/UESB.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COISA DE CINEMA Blog Refletor\u00a0\u00a0TAL-Televisi\u00f3n Am\u00e9rica Latina Creio que muitos de voc\u00eas j\u00e1 usaram ou ouviram a express\u00e3o \u201ccoisa de cinema\u201d (ou simplesmente \u201cde pel\u00edcula\u201d, como dizem os hisp\u00e2nicos), significando algo bonito, diferente, estranho, espetacular ou que se trata de uma mentira ou exagero. 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