{"id":8048,"date":"2023-03-31T23:49:06","date_gmt":"2023-04-01T02:49:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=8048"},"modified":"2023-03-31T23:49:50","modified_gmt":"2023-04-01T02:49:50","slug":"fluxo-e-refluxo-xii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/03\/31\/fluxo-e-refluxo-xii\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; XII"},"content":{"rendered":"<p>AS CUMPLICIDADES DO GOVERNO COM RELA\u00c7\u00c3O AO TR\u00c1FICO ILEGAL E A COER\u00c7\u00c3O INGLESA<\/p>\n<p>Por volta de 1840 e, precisamente, entre 48 e 49 os ingleses j\u00e1 estavam irritados com os descumprimentos dos acordos e das conven\u00e7\u00f5es desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX com o Brasil quanto a quest\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o em definitivo do tr\u00e1fico negreiro de africanos.<\/p>\n<p>As intrigas e as cartas trocadas com os ministros e a diplomacia entre os dois pa\u00edses eram constantes, com as contesta\u00e7\u00f5es do Brasil sobre os aprisionamentos de navios de bandeiras brasileiras e portuguesas. Os comerciantes de escravos jogavam o povo contra os ingleses, com manifesta\u00e7\u00f5es e cartazes de \u201cmorte aos ingleses\u201d.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio, que era conivente com os senhores propriet\u00e1rios e a aristocracia, alegava ser injusto as a\u00e7\u00f5es da Inglaterra e dizia que em 1845 haviam cessados os tratados. O imperador recorria que os ingleses indenizassem os preju\u00edzos pelas perdas das cargas de escravos, na grande maioria feitas de forma clandestina.<\/p>\n<p>A Gr\u00e3-Bretanha, com seu maior poderio naval e em armas, resolveu, entre 1848\/49, tomar medidas dr\u00e1sticas e colocou seus cruzadores em \u00e1guas brasileiras com amea\u00e7a de invas\u00e3o do Brasil. Come\u00e7ou a agir at\u00e9 em \u00e1guas e portos nacionais, prendendo cargas.<\/p>\n<p>Os negros, na sua maioria, eram enviados para as ilhas brit\u00e2nicas (Trindad) como trabalhadores livres, mas o Imp\u00e9rio queria sua guarda ou que fossem reexportados para seus pa\u00edses de origem, ou Serra Leoa.<\/p>\n<p>Todos esses imbr\u00f3glios sobre o tr\u00e1fico proibido est\u00e3o no livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo Pierre Verger, de mais de 900 p\u00e1ginas, com detalhes precisos sobre a escravid\u00e3o na Costa da \u00c1frica, exatamente no Golfo do Benin, as trapa\u00e7as e corrup\u00e7\u00f5es dos traficantes e o retorno dos cativos emancipados e participantes de levantes e rebeli\u00f5es para sua terra natal, fazendo uma nova travessia do Atl\u00e2ntico e formando col\u00f4nias na Guin\u00e9, Benin e na Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p>A obra conta todo esse ciclo do \u201cFluxo e Refluxo. A leitura \u00e9 acad\u00eamica e de grande import\u00e2ncia para o conhecimento de como funcionava esse com\u00e9rcio vergonhoso de escravos que durou mais de 300 anos no Brasil. A press\u00e3o inglesa foi fundamental para a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, em 1850, pondo fim ao tr\u00e1fico de cativos no ano seguinte e finalmente com a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, em 1888, mesmo com o rep\u00fadio dos senhores do caf\u00e9 que ajudaram um ano depois a derrubar a monarquia.<\/p>\n<p>Sobre essa quest\u00e3o espec\u00edfica do tr\u00e1fico proibido nos tratados, mas que eram desrespeitados pelos traficantes, com a coniv\u00eancia das autoridades imperiais, Pierre Verger cita que para a Gr\u00e3-Bretanha, sob a pena do diplomata Palmerston, as conven\u00e7\u00f5es e os tratados tornaram-se \u201ctratados compromissos perp\u00e9tuos\u201d (Brasil contestava isso juridicamente), e os oficiais da Marinha de Guerra inglesa se comportaram no Brasil como em um pa\u00eds conquistado.<\/p>\n<p>Os cruzadores receberam a instru\u00e7\u00e3o de apresar os navios de tr\u00e1fico, tanto nas \u00e1guas territoriais brasileiras, quanto fora delas. Em 23 de junho de 1849, o capit\u00e3o Bailey, do Sharpshooter, tomou um navio negreiro sob os canh\u00f5es do forte de Maca\u00e9. Irritados, alguns membros da Assembleia Legislativa do Brasil quiseram propor um projeto de lei anulando aquele de sete de setembro de 1831 (a chamada lei para ingl\u00eas ver).<\/p>\n<p>Em cinco de janeiro de 1850, Schomberg, comandante do Crormorant, fazia o apresamento do Santa Cruz em \u00e1guas territoriais brasileiras. Hudson, o encarregado de neg\u00f3cios brit\u00e2nicos, advertia a Palmerston, em mar\u00e7o de 1850: Os atos dos cruzadores de Sua Majestade excitam os esp\u00edritos e d\u00e3o maior poder aos negociantes de escravos.<\/p>\n<p>Relatava ainda que um ataque trai\u00e7oeiro e o assassinato a sangue frio de um marinheiro ingl\u00eas foram perpetrados por um bando de cortadores de garganta, os comerciantes de escravos que s\u00e3o a desgra\u00e7a deste s\u00e9culo. O Hudson pedia \u00e0 Sua Majestade brit\u00e2nica que mudasse sua maneira de agir e tomasse as pr\u00f3prias medidas para satisfazer o tratado-compromisso da Coroa do Brasil relativo \u00e0 total e inteira supress\u00e3o de escravos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o chegou ao um ponto em que o Brasil ficou isolado por causa das importa\u00e7\u00f5es maci\u00e7as de escravos (os pre\u00e7os dos cativos subiram no mercado e as mercadorias tamb\u00e9m). O pa\u00eds perdeu o apoio da Fran\u00e7a e da \u00c1ustria.<\/p>\n<p>Nessa hist\u00f3ria toda aconteceram fatos interessante como a compra de jornais por parte dos senhores do caf\u00e9 para defender o tr\u00e1fico. Por sua vez, os ingleses soltavam dinheiro para a Correio Mercantil, uma das mais lidas na \u00e9poca e antiescravista. Hudson escrevia que um dos jornais que publicavam artigos contra o tr\u00e1fico de escravos, o Monarquista, foi comprado por comerciantes de escravos.<\/p>\n<p>Hudson escrevia para Palmerston, em 1850, sobre os atos de corrup\u00e7\u00f5es que ocorriam nas alfandegas entre funcion\u00e1rios e traficantes. \u201cN\u00e3o vejo ainda como o governo brasileiro poder\u00e1 se queixar do esfor\u00e7o feito pelo governo de Sua Majestade para destruir o tr\u00e1fico de escravos nas costas do Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, cresciam os movimentos antiescravistas e os ingleses instigavam o povo a clamar contra a escravid\u00e3o, inclusive financiando partidos oposicionistas e espionando com seus agentes todas a\u00e7\u00f5es ilegais dos comerciantes clandestinos. Os partidos pregavam contra as importa\u00e7\u00f5es e pediam a extin\u00e7\u00e3o gradual da m\u00e3o de obra escrava.<\/p>\n<p>Esses partidos e os jornais, como o Philantropo, Correio Mercantil e o Grito Nacional expunham todos os casos de cumplicidade do governo com os comerciantes, inclusive publicando os nomes dos propriet\u00e1rios que privam seus escravos da fraca prote\u00e7\u00e3o que a lei lhes concede.<\/p>\n<p>As duas c\u00e2maras legislativas falavam dessa cumplicidade do governo com os importadores, como sendo a raiz dos grandes males do pa\u00eds, e da origem das medidas coercitivas e desagrad\u00e1veis impostas pela Gr\u00e3-Bretanha nas costas brasileiras. A imprensa denunciava os atos criminosos e a vers\u00e3o deturpada que davam os comerciantes quando navios eram capturados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS CUMPLICIDADES DO GOVERNO COM RELA\u00c7\u00c3O AO TR\u00c1FICO ILEGAL E A COER\u00c7\u00c3O INGLESA Por volta de 1840 e, precisamente, entre 48 e 49 os ingleses j\u00e1 estavam irritados com os descumprimentos dos acordos e das conven\u00e7\u00f5es desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX com o Brasil quanto a quest\u00e3o da aboli\u00e7\u00e3o em definitivo do tr\u00e1fico negreiro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8048"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8048\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}