{"id":7947,"date":"2023-03-02T00:32:04","date_gmt":"2023-03-02T03:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7947"},"modified":"2023-03-02T00:32:33","modified_gmt":"2023-03-02T03:32:33","slug":"as-semelhancas-entre-a-escravidao-africana-e-a-dos-tempos-modernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/03\/02\/as-semelhancas-entre-a-escravidao-africana-e-a-dos-tempos-modernos\/","title":{"rendered":"AS SEMELHAN\u00c7AS ENTRE A ESCRAVID\u00c3O AFRICANA E A DOS TEMPOS &#8220;MODERNOS&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez me pediu para que eu fizesse um coment\u00e1rio sobre as semelhan\u00e7as da escravid\u00e3o africana que durou mais de 300 anos no Brasil e as dos tempos \u201cmodernos\u201d, como a mais recente encontrada em Bento Gon\u00e7alves (Rio Grande do Sul), praticada por vin\u00edcolas daquele estado. Tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de sem\u00e2ntica e ponto de vista de cada um.<\/p>\n<p>Sua sugest\u00e3o \u00e9 uma ordem e vamos l\u00e1 fazer algumas pontua\u00e7\u00f5es. Para come\u00e7ar, os fatos atuais n\u00e3o deixam de ser uma heran\u00e7a da escravid\u00e3o negreira. Claro que as formas s\u00e3o an\u00e1logas, mas os termos empregados nos tempos de hoje s\u00e3o diferentes e n\u00e3o se pode comparar a viol\u00eancia e a crueldade sofridas pelos negros tirados a ferro e fogo da sua terra natal para atravessar o Atl\u00e2ntico em por\u00f5es fedorentos da morte durante mais de dois meses. Milhares foram jogados vivos no mar.<\/p>\n<p>Longe de querer contemporizar o uso da m\u00e3o escrava por empresas e fazendeiros em pleno s\u00e9culo XXI, que \u00e9 ainda mais vergonhoso quando nos consideramos \u201ccivilizados\u201d. Existe uma for\u00e7a de express\u00e3o quando usamos a palavra an\u00e1loga. Nada se pode comparar com o que aconteceu com a escravid\u00e3o passada, que inclusive era institucionalizada e aceita pelo Estado e a Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>No entanto, as pr\u00e1ticas se parecem, inclusive na fala do vereador de Caxias do Sul (RS), Sandro Fantinel, do Patriota (que ironia!), quando arrota toda sua xenofobia contra os baianos (mais de 200) dizendo serem sujos; que n\u00e3o gostam de trabalhar; e s\u00f3 sabem curtir praias, carnaval e tocar tambor. Recomendou que as empresas contratassem os argentinos que, segundo ele, s\u00e3o limpos, dedicados e ainda agradecem o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Os senhores da cana, dos engenhos de a\u00e7\u00facar e da minera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m xingavam os nag\u00f4s-iorub\u00e1s, da regi\u00e3o da antiga Nig\u00e9ria, por serem mais atrevidos; resistirem as opress\u00f5es e castigos; e tramarem revoltas e fugas. Eles preferiam os angolanos e do Golfo do Benin por serem mais d\u00f3ceis e aceitarem as submiss\u00f5es, sem rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem iam buscar os negros na \u00c1frica eram os capit\u00e3es de navios, negociantes individuais e empresas donas das pr\u00f3prias embarca\u00e7\u00f5es que eram chamados de traficantes negreiros, n\u00e3o importando se sob encomenda dos patr\u00f5es ou leiloados nos mercados. Todo sistema era feito na base dos atravessadores.<\/p>\n<p>Esses traficantes hoje s\u00e3o chamados de contratadores ou de firmas terceirizadas, todos se utilizando de pr\u00e1ticas ilegais atrav\u00e9s de propagandas salariais enganosas e burlando as leis trabalhistas. A escravid\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a a partir do transporte irregular e prec\u00e1rio atrav\u00e9s de um \u00f4nibus velho ou um pau-de-arara, diferente do por\u00e3o escuro e infernal.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o africana era legalizada pelo Brasil, Portugal, Inglaterra, Fran\u00e7a, Espanha e at\u00e9 a Dinamarca. Os governos ou reinos ditavam as leis, mas, dentro desse tr\u00e1fico (o nome j\u00e1 diz tudo) existiam os contrabandos, a clandestinidade e os corruptos.<\/p>\n<p>Mesmo ap\u00f3s a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, em 1850, pela Lei Euz\u00e9bio de Queir\u00f3s, os traficantes continuaram a atuar por meio de suas trapa\u00e7as, desvios de rotas para n\u00e3o serem aprisionados pelos ingleses e conluios com as autoridades. Depois de mais de 130 anos da aboli\u00e7\u00e3o, essa escravid\u00e3o ainda persiste.<\/p>\n<p>Pelo que confessaram os trabalhadores baianos, em Bento Gon\u00e7alves, eles foram alojados em acampamentos indignos ao ser humano, sem \u00e1gua pot\u00e1vel, dormit\u00f3rios limpos e alimenta\u00e7\u00e3o adequada. Levaram porradas; apanharam; e foram torturados quando n\u00e3o cumpriam bem as tarefas.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca da escravid\u00e3o africana, os negros ficavam em senzalas horr\u00edveis e degradantes. Eram v\u00edtimas de chibatadas; iam para o tronco; mutilavam partes de seus corpos e at\u00e9 recebiam castigos de morte, sendo bem ou n\u00e3o comportados. Muitos surravam seus negros escravos por prazer, para serem obedientes e para servirem de exemplo para os outros.<\/p>\n<p>Bem, meu amigo Gonzalez, os m\u00e9todos empregados eram diferentes e mais violentos contra os cativos africanos, mas isso n\u00e3o quer dizer que essa forma de trabalho atual, a exemplo do descoberto nas vin\u00edcolas de Bento Gon\u00e7alves, deixe ser escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, no nosso Brasil de hoje, de mais de 11 milh\u00f5es de desempregados, principalmente depois da reforma trabalhista, onde \u00e9 quase nula a negocia\u00e7\u00e3o bilateral entre o capital e o trabalho (o patr\u00e3o manda e o empregado obedece), o regime \u00e9 de escravid\u00e3o, desde a remunera\u00e7\u00e3o m\u00ednima, as press\u00f5es de ass\u00e9dio moral, as longas jornadas at\u00e9 as condi\u00e7\u00f5es inadequadas nos locais de atua\u00e7\u00e3o. Para disfar\u00e7ar essa escravid\u00e3o, os senhores capitalistas chamam seus servidores de colaboradores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu amigo e companheiro jornalista Carlos Gonzalez me pediu para que eu fizesse um coment\u00e1rio sobre as semelhan\u00e7as da escravid\u00e3o africana que durou mais de 300 anos no Brasil e as dos tempos \u201cmodernos\u201d, como a mais recente encontrada em Bento Gon\u00e7alves (Rio Grande do Sul), praticada por vin\u00edcolas daquele estado. 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