{"id":7927,"date":"2023-02-22T00:10:34","date_gmt":"2023-02-22T03:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7927"},"modified":"2023-02-22T00:11:02","modified_gmt":"2023-02-22T03:11:02","slug":"os-jovens-e-as-letras-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/02\/22\/os-jovens-e-as-letras-do-carnaval\/","title":{"rendered":"OS JOVENS E AS &#8220;LETRAS&#8221; DO CARNAVAL"},"content":{"rendered":"<p>No final da tarde de ontem (dia 21\/02), estava eu sentado na varanda do quintal da minha casa lendo o livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo franc\u00eas-baiano Pierre Verger e algu\u00e9m toca a campainha. Interrompi minha leitura, como se n\u00e3o existisse essa folia maluca do carnaval, e fui atend\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Me certifiquei ser um jovem de uns 25 a 30 anos da vizinhan\u00e7a que me pedia umas canas que tenho em minha \u00e1rea e, prontamente, convidei-o para entrar. Ficou perguntando algumas coisas sobre as esculturas de cip\u00f3 que fiz nas minhas horas vagas. O Espa\u00e7o Cultural A Estrada lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o e logo indagou se se tratava de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino.<\/p>\n<p>Fui respondendo as coisas, mas senti sua falta de conhecimento e cultura quando insinuou ali ser tamb\u00e9m um terreiro de candombl\u00e9. Para n\u00e3o estender a conversa, chamei-o para entrar em nosso acervo cultural onde realizamos nossos saraus. Fui mostrando os livros, as fotos, chap\u00e9us, artesanatos e demais itens da nossa sagrada biblioteca.<\/p>\n<p>Percebi que n\u00e3o se encantou com o que viu diante das perguntas meio que ing\u00eanuas que fazia. Me esforcei para detalhar o que significava aquele espa\u00e7o como recinto cultural. Olhava os livros meio que assustado e num repente me interrogou se eu era de esquerda.<\/p>\n<p>Confesso que fiquei surpreso e atordoado com aquela indaga\u00e7\u00e3o t\u00e3o inusitada fora de tempo, se ele nem conhecia minhas ideias. Ser\u00e1 que j\u00e1 nasci com cara de esquerda e comunista porque ele ainda quis saber qual minha religi\u00e3o? O que o cara entende por ideologia de direita, centro e esquerda?<\/p>\n<p>Sabe daquilo sobre certas perguntas de crian\u00e7a que voc\u00ea fica meio que engasgado para responder? Tentei resumi um pouco sobre essa quest\u00e3o de ideologia, mas vi que n\u00e3o entendeu nada. Passei a outro ponto e mostrei os livros de minha autoria. Como o senhor faz isso? \u00c9 o senhor mesmo?<\/p>\n<p>Novamente pulei o assunto e citei alguns nomes famosos da nossa m\u00fasica brasileira, do cinema e da literatura, inclusive da nossa terra, mas o mo\u00e7o jovem afirmou desconhec\u00ea-los e ignor\u00e1-los completamente.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o me causou tanto espanto. Com certeza saberia descrever detalhadamente se falasse em \u201cSafad\u00e3o\u201d, Leo Santana, Bel Marques, Claudia Leite, Ivete Sangalo, Mar\u00edlia Mendon\u00e7a e esses \u201csertanejos\u201d da vida do mundo comercial das \u201cm\u00fasicas e letras\u201d de lixos rebolados.<\/p>\n<p>Matutei comigo mesmo, com poucas exce\u00e7\u00f5es, sobre o baixo n\u00edvel educacional e cultural dos nossos jovens desse nosso Brasil varonil. O jovem saiu sem nada entender do que viu. Por mais simples que fui nas palavras, para ele eu estava ali falando uma l\u00edngua estrangeira.<\/p>\n<p>AS \u201cLETRAS\u201d HORROROSAS DO CARNAVAL<\/p>\n<p>Meu sentimento de perda desses jovens na \u00e1rea do conhecimento e da cultura baixou mais ainda meu sistema imunol\u00f3gico espiritual quando recebi um v\u00eddeo desse aparelho que deixou as pessoas ainda mais f\u00fateis. N\u00e3o consegui mais me concentrar em minha leitura. Hora dos meus exerc\u00edcios f\u00edsicos.<\/p>\n<p>\u201cE as M\u00fasicas desse Carnaval? Tem gente que senta pra beber. Aqui n\u00f3s bebe pra sentar\u201d \u2013 apontava na tela o t\u00edtulo do v\u00eddeo. Na voz de revolta de uma mulher, n\u00e3o identific\u00e1vel, ela indaga que festival de merda \u00e9 esse que assaltou nossos t\u00edmpanos em pleno per\u00edodo carnavalesco? Ali\u00e1s por muito tempo somos assaltados por m\u00fasicas ruins, mas agora a privada transbordou.<\/p>\n<p>Comecemos pelo atual pornopagode &#8211; alterava a voz com um tom de ira, e foi citando trechos horrorosos das \u201cletras\u201d. \u201cDeixa eu botar meu boneco\u201d. \u201cBote na panela e est\u00e1 a\u00ed o sucesso da desgra\u00e7a. Viva a p\u00e1tria educadora Brasil! No meio de tanto bagulho, n\u00e3o espante que a chiclete zona de perigo venha a ser o sucesso do carnaval! Tudo revela a total falta de vocabul\u00e1rio. Morais Moreira, o homenageado, deve estar se revirando no t\u00famulo. Essa plateia imbecilizada reflete os piores anos de t\u00edtulos de pior educa\u00e7\u00e3o que amargamos no pa\u00eds\u201d- desabafa a dona do v\u00eddeo.<\/p>\n<p>\u201cVem mete com for\u00e7a no boquete\u201d. \u201cEla fica de quatro\u201d. \u201cBota nela, mete seu Cachorro\u201d. \u201cDeixa eu botar meu boneco\u201d. \u201cColoca nela\u201d. \u201cE voc\u00ea suporta essa m\u00e9trica de merda. \u201cCerveja me fode\u201d. M\u00fasicas vagabundas &#8211; disse.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai esse monte de baboseiras das quais chamam isso de m\u00fasica, inclusive na boca dessa m\u00eddia comercial que s\u00f3 mostra os trios e os rebolados. Para essa m\u00eddia, tudo \u00e9 maravilha na festa org\u00e1stica do deus baco. N\u00e3o me venham com essa de moralismo!<\/p>\n<p>Se voc\u00ea falar em proibi\u00e7\u00e3o, v\u00e3o logo dizer que isso \u00e9 ditadura e censura. Isso n\u00e3o \u00e9 liberdade de express\u00e3o, tanto quanto pregar o nazismo, o racismo, a homofobia e uma interven\u00e7\u00e3o militar no pa\u00eds. Podemos definir todo esse caldeir\u00e3o fedorento como degrada\u00e7\u00e3o total da nossa cultura, da nossas m\u00fasicas e letras.<\/p>\n<p>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final da tarde de ontem (dia 21\/02), estava eu sentado na varanda do quintal da minha casa lendo o livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo franc\u00eas-baiano Pierre Verger e algu\u00e9m toca a campainha. Interrompi minha leitura, como se n\u00e3o existisse essa folia maluca do carnaval, e fui atend\u00ea-lo. 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