{"id":7914,"date":"2023-02-17T22:30:30","date_gmt":"2023-02-18T01:30:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7914"},"modified":"2023-02-17T22:30:55","modified_gmt":"2023-02-18T01:30:55","slug":"fluxo-e-refluxo-viii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2023\/02\/17\/fluxo-e-refluxo-viii\/","title":{"rendered":"&#8220;FLUXO E REFLUXO&#8221; VIII"},"content":{"rendered":"<p>OS EMBAIXADORES DA COSTA DA MINA OU A SOTAVENTO (GOLFO DO BENIN) NA BAHIA, PARA ESTREITAR RELA\u00c7\u00d5ES COMERCIAIS E APAZIGUAR CONFLITOS, INCLUSIVE DE INVAS\u00d5ES DE FORTES.<\/p>\n<p>Entre 1750 e 1811ocorreram quatro embaixadas na Bahia pelos reis do Daom\u00e9, de Onim (Lagos) e um do rei de Ardra, para reatar as diverg\u00eancias nos portos entre os diretores dos fortes, capit\u00e3es dos navios, os traficantes negreiros e incrementar os neg\u00f3cios. Na \u00e9poca, os baianos Francisco F\u00e9lix de Souza e Jo\u00e3o Oliveira eram os maiores e mais famosos traficantes.<\/p>\n<p>O livro \u201cFluxo e Refluxo\u201d, do etn\u00f3logo e fot\u00f3grafo Pierre Verger d\u00e1 ao leitor todos detalhes destas miss\u00f5es, com cerimonial rebuscado, sendo que a primeira, em 1750, foi rica, pomposa e inusitada que movimentou os moradores da capital pelo ritual que foi preparado pelo vice-rei para receber os enviados do Daom\u00e9, com trajes e costumes ex\u00f3ticos.<\/p>\n<p>Uma das embaixadas foi provocado por um tenente do forte portugu\u00eas de Uid\u00e1, com fins de prejudicar o seu diretor. A de Onim, um subterf\u00fagio utilizado por um capit\u00e3o negreiro para salvar uma carga de tabaco em deteriora\u00e7\u00e3o. Tudo isso mostra a vontade dos reis africanos em manter liga\u00e7\u00f5es comerciais entre seus pa\u00edses e a Bahia.<\/p>\n<p>A primeira foi do rei Tegbessu depois de incidentes que resultaram na destrui\u00e7\u00e3o de um forte pelas tropas do monarca do Daom\u00e9, com a consequente expuls\u00e3o do diretor Jo\u00e3o Bas\u00edlio e de um reverendo, em 1743. Seus embaixadores ficaram hospedados no Col\u00e9gio da Companhia dos Jesu\u00edtas (hoje Terreiro de Jesus). Os mensageiros do outro rei, Agangl\u00f4, ficaram no Convento dos Franciscanos.<\/p>\n<p>Os reis do Daom\u00e9 queriam praticamente exclusividade dos neg\u00f3cios em seu porto de Ajud\u00e1 com a entrada livre de quatro a cinco navios de uma s\u00f3 vez, s\u00f3 que isso tornava alto os custos dos cativos no regateamento das mercadorias, e as embarca\u00e7\u00f5es demoravam mais tempo no porto deteriorando os produtos e escasseando os mantimentos.<\/p>\n<p>Em 1747, Lisboa declarava que seria justo que o r\u00e9gulo africano sofresse algum castigo para ter mais respeito com a na\u00e7\u00e3o portuguesa. Os negociantes da Bahia concordavam castigar o \u201cb\u00e1rbaro\u201d, sem prejudicar as extra\u00e7\u00f5es de escravos, que s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios para as obras do Brasil. No entanto, existiam outros portos (Badagri, Novo Porto e Onim) como op\u00e7\u00f5es, mas os conflitos e intrigas eram parecidos.<\/p>\n<p>Em 1750, o vice-rei da Bahia, Luiz Peregrino de Ata\u00edde, Conde de Atouguia, dizia que n\u00e3o existia nenhum meio de intimidar os negros do Daom\u00e9. N\u00e3o falta outros portos nesta costa, mas serviria somente para experimentar os mesmos inconvenientes, insultos e incivilidade de semelhantes r\u00e9gulos-declarava. Os interesses eram facilitar a compra dos escravos e dar sa\u00edda \u00e0 venda do tabaco de terceira qualidade, que s\u00f3 tinha sa\u00edda para o Golfo do Benin.<\/p>\n<p>Os relatos de Pierre Verger sobre essas embaixadas foram baseados nos escritos de Jos\u00e9 Freire de Monterroio Mascarenhas. Afirma o autor da obra que o vice-rei se mostrava mais reservado e reticente em suas rela\u00e7\u00f5es com o enviado de Tegbessu, de acordo com os documentos existentes nos arquivos da Bahia e de Lisboa.<\/p>\n<p>Todas as despesas foram pagas pela Fazenda Real da Coroa Portuguesa. Foram oferecidos preciosas colchas e pavimento de fin\u00edssimas esteiras, cadeiras de espaldas magn\u00edficas e cobertores de tela carmesi.<\/p>\n<p>A primeira embaixada trouxe presentes da sua terra, escravos e quatro negrinhas de 10 anos nuas ao modo da sua terra para o vice-rei e o monarca D. Jo\u00e3o V. Eles eram chamados de gentis-homens. Nas vestimentas, al\u00e9m dos turbantes, rolavam muito ouro nas vestimentas.<\/p>\n<p>\u201cA esta grande novidade, descrevia Jos\u00e9 Mascarenhas, nunca vista no Brasil, come\u00e7ou a concorrer gente de toda parte, e o embaixador, para evitar embara\u00e7o que podia fazer-lhe o concurso de tanto povo, disse pelo seu int\u00e9rprete aos portadores do Palenquin e cadeirinhas que apressassem o passo e chegaram com maior brevidade \u00e0 portaria do Col\u00e9gio. Foram recebidos com salvas de tiros e honras dos oficiais e vassalos do vice-rei\u201d.<\/p>\n<p>Na audi\u00eancia da primeira embaixada de 1750 achava-se o pal\u00e1cio todo bem armado. O vice-rei estava debaixo de um rico docel\u00a0 assistido de todo corpo do Senado e toda nobreza da Bahia, sem se ver outra coisa mais que vestidos ricos e de bom gosto, tudo galhardia, tudo pompa. Era grandiosa a comitiva dos embaixadores, tanto que atraiu gente de toda parte da cidade. O escritor Jos\u00e9 Mascarenhas se esmerou nos m\u00ednimos detalhes desses encontros.<\/p>\n<p>Aconteceram ainda na Bahia as visitas dos enviados do rei de Onim (Lagos), em 1770, na \u00e9poca em que o traficante Jo\u00e3o Oliveira retornava de Benin e foi preso por ter embarcado num navio onde existiam mercadorias contrabandeadas de um particular.<\/p>\n<p>Uma outra miss\u00e3o ocorreu em 1795 mandada pelo rei do Daom\u00e9, Agongl\u00f4. Esta embaixada foi provocada pelo tenente Francisco Xavier \u00c1lvares do Amaral, no reinado da rainha D. Maria de Portugal, para incriminar o diretor do forte Francisco Ant\u00f4nio da Fonseca e Arag\u00e3o.<\/p>\n<p>As cartas endere\u00e7adas ao vice-rei podem ter sido escritas pelo tenente e pediam exclusividade do tr\u00e1fico do Brasil para Ajud\u00e1. \u201cGaranto \u00e0 V. Exa. que nenhum dos capit\u00e3es sofrer\u00e1 perdas em meu porto, e que podem levar seda, ouro trabalhado e prata sob a forma que queiram, em obra ou peso. Para isso, l\u00e1 tem cativos em excesso e mais daqueles que se vendem contra o tabaco e aguardente, como sabem ali\u00e1s os capit\u00e3es\u201d.<\/p>\n<p>O governador da Bahia, Fernando Jos\u00e9 de Portugal, escrevia \u00e0 sua majestade de Portugal ser impratic\u00e1vel o com\u00e9rcio privativo do Porto de Ajud\u00e1, como pretende o rei do Daom\u00e9. Explicava que concorrendo cinco ou seis embarca\u00e7\u00f5es nos portos da Costa da Mina, se forem obrigadas a fazerem as negocia\u00e7\u00f5es somente em Ajud\u00e1, h\u00e3o de sofrer detrimento, n\u00e3o somente pela demora que ir\u00e1 arruinar o tabaco e consumir os mantimentos para o retorno da viagem, como tamb\u00e9m porque o potentado aumentar\u00e1 o pre\u00e7o dos escravos devido a grande demanda. N\u00e3o ter\u00e3o os mestres dos navios liberdade para escolher os escravos e ser\u00e3o obrigados a aceitar os que lhe quiser dar o potentado, pelo pre\u00e7o por ele arbitrado \u2013 advertia o governador.<\/p>\n<p>O governador ainda lembrava que todos os mais portos daquela Costa se resgatam os escravos por menor n\u00famero de rolos do que no Porto de Ajud\u00e1, n\u00e3o devendo ser privados dessa comodidade nem os que se empregam neste com\u00e9rcio, de tanto risco e despesa, nem igualmente da utilidade de comprar o melhor pre\u00e7o os escravos nos outros portos. Chamava o potentado Dagom\u00e9 (Daom\u00e9) de ambicioso e soberbo e que na Costa ainda reina muita barbaridade e grosseria.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1795, o rei do Daom\u00e9 escrevia \u00e0 rainha D. Maria I de Portugal apelando para uma boa uni\u00e3o e paz e solicitava que seu porto fosse frequentado pelas embarca\u00e7\u00f5es portuguesas, para lucro tanto dos vassalos da rainha como dos meus, e que nossos tesouros cres\u00e7am e aumentem. Sobre o diretor Francisco da Fonseca e Arag\u00e3o afirmava que ele n\u00e3o cumpria com suas obriga\u00e7\u00f5es e estava preocupado em aumentar somente suas finan\u00e7as. Eram como funcionavam as intrigas no tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<p>Pierre Verger destaca que, al\u00e9m desses embaixadores, numerosos africanos livres iam para a Bahia, seja para entregar-se ao com\u00e9rcio, ou para receber educa\u00e7\u00e3o, inclusive filhos de reis e rainhas, muitos at\u00e9 sequestrados para este fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS EMBAIXADORES DA COSTA DA MINA OU A SOTAVENTO (GOLFO DO BENIN) NA BAHIA, PARA ESTREITAR RELA\u00c7\u00d5ES COMERCIAIS E APAZIGUAR CONFLITOS, INCLUSIVE DE INVAS\u00d5ES DE FORTES. 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