{"id":7739,"date":"2022-12-27T22:10:45","date_gmt":"2022-12-28T01:10:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7739"},"modified":"2022-12-27T22:11:12","modified_gmt":"2022-12-28T01:11:12","slug":"um-estado-assistencialista-que-trava-o-desenvolvimento-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/12\/27\/um-estado-assistencialista-que-trava-o-desenvolvimento-social\/","title":{"rendered":"UM ESTADO ASSISTENCIALISTA QUE TRAVA O DESENVOLVIMENTO SOCIAL"},"content":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m de bom senso \u00e9 contra a urg\u00eancia de matar a fome de mais de 30 milh\u00f5es de brasileiros e dar comida a todos tr\u00eas vezes por dia, mas esse Estado de assistencialismo indefinido est\u00e1 a travar o desenvolvimento de uma sociedade mais igualit\u00e1ria onde todos tenham seu sustento com o trabalho do seu suor.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o tomou tais propor\u00e7\u00f5es que o Brasil est\u00e1 se tornando um pa\u00eds invi\u00e1vel em termos de crescimento econ\u00f4mico sustent\u00e1vel e n\u00e3o de altos e baixos de ciclos vari\u00e1veis como virou comum. Esse quadro vem se arrastando e se agravando h\u00e1 s\u00e9culos quando se deixou de priorizar a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegamos ao ponto cr\u00edtico onde mais de 100 bilh\u00f5es de reais est\u00e3o sendo carreados para tirar a na\u00e7\u00e3o do mapa da fome, quando essa montanha de recursos poderia estar sendo investida no ensino de qualidade, na sa\u00fade e no saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Mesmo de barriga cheia, todo esse contingente de famintos n\u00e3o vai deixar de ser pobre e miser\u00e1vel em seus barracos como pessoa humana. Esses milh\u00f5es v\u00e3o permanecer analfabetos ou semianalfabetos sem instru\u00e7\u00e3o para ingressar no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Seus filhos, de um modo geral, v\u00e3o deixar de receber uma educa\u00e7\u00e3o integral porque vai faltar recursos suficientes no Estado para aplicar massivamente no setor e reduzir as desigualdades t\u00e3o profundas. Sem d\u00favida, esses bilh\u00f5es de reais v\u00e3o circular no com\u00e9rcio de supermercados e lojas, apenas engrossando a concentra\u00e7\u00e3o da riqueza em poucas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Pode at\u00e9 criar mais empregos, mas n\u00e3o para esses pobres que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam capacidade para atender as exig\u00eancias das empresas por uma m\u00e3o-de-obra mais qualificada. A classe m\u00e9dia mais baixa que luta para elevar seu n\u00edvel ser\u00e1 a mais afetada. \u00c9 o caso do cobertor curto que cobre a cabe\u00e7a e deixa os p\u00e9s desprotegidos.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 uma quest\u00e3o sociol\u00f3gica que deveria ter sido resolvida com a primeira Constitui\u00e7\u00e3o de 1823, logo ap\u00f3s a Independ\u00eancia do Brasil, quando o reformador e iluminista Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva clamou por mudan\u00e7as sociais, inclusive de distribui\u00e7\u00e3o de terras, visando a melhoria do povo, a grande maioria analfabeta (cerca de 98%) naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>No entanto, D. Pedro I e sua elite olig\u00e1rquica rural n\u00e3o deixaram e fizeram sua pr\u00f3pria Carta onde todo poder teria que continuar emanando do imperador, tanto que a Assembleia Constituinte foi dissolvida.<\/p>\n<p>Pelo menos era ali que deveria ter acabado com a vergonhosa escravid\u00e3o. Nisso, at\u00e9 o Bonif\u00e1cio dizia que ela teria que ser gradual e lenta para o bem dos poderosos que diziam que sem os escravos o destino do Brasil seria a ru\u00edna.<\/p>\n<p>Outra oportunidade perdida para fazer um Brasil socialmente justo foi em 1888 quando da atrasada proclama\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea. Os abolicionistas Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, Luiz Gama, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e Joaquim Nabuco fizeram manifestos e panfletagens por reformas estruturais. Muitos deles inclu\u00edram na lista a reforma agr\u00e1ria como uma das medidas para indenizar os ex-escravos.<\/p>\n<p>Mais uma vez, os senhores propriet\u00e1rios de terras (os grandes cafeicultores) e a burguesia usaram de seus poderes e pressionaram o Imp\u00e9rio a deixar tudo como estava, na mis\u00e9ria total. Eles mesmos derrubaram o imperador D. Pedro II em 1889 com seus marechais e tudo continuou como estava mandando no poder.<\/p>\n<p>A partir dali a pobreza s\u00f3 fez aumentar e o caldo engrossou mais ainda com o \u00eaxodo rural do campo para as cidades a partir do in\u00edcio e meados do s\u00e9culo XX. Com o processo de industrializa\u00e7\u00e3o os centros urbanos incharam nos morros e favelas, sem nenhuma estrutura, com uma massa de trabalhadores desqualificada e desempregada a vagar pelas ruas como mendigos.<\/p>\n<p>Desse imbr\u00f3glio indigesto brotaram a pobreza e a extrema pobreza onde o Estado, por obriga\u00e7\u00e3o e dever se tornou assistencialista por natureza. \u00c9 uma d\u00edvida de s\u00e9culos a ser paga agora, com um alto custo e sacrif\u00edcio para as finan\u00e7as, ainda mais que serve para parir votos a fim de que tudo permane\u00e7a no mesmo. O resultado \u00e9 que os outros setores essenciais (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e saneamento b\u00e1sico) ficam a descoberto (cobertor curto), inviabilizando o desenvolvimento de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Infelizmente, as nossas elites capitalistas retr\u00f3gradas e os pol\u00edticos ref\u00e9ns delas est\u00e3o no cerne de toda essa hist\u00f3ria macabra, para n\u00e3o dizer tr\u00e1gica, que \u00e9 um pa\u00eds de mais de 100 milh\u00f5es que s\u00e3o v\u00edtimas da inseguran\u00e7a alimentar, comem alguma coisa hoje, mas n\u00e3o sabem do dia do amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Na verdade, estamos num beco sem sa\u00edda em um Estado que est\u00e1 se tornando invi\u00e1vel. N\u00e3o se sabe quando esse quadro ser\u00e1 revertido. O futuro \u00e9 nebuloso. At\u00e9 quando vai perdurar esse esquema assistencialista? Essa PEC bilion\u00e1ria fora do teto de gastos, aprovada pelo Congresso, para acudir os que passam fome, tem dura\u00e7\u00e3o de apenas um ano, mas daqui para l\u00e1 d\u00e1-se um jeito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ningu\u00e9m de bom senso \u00e9 contra a urg\u00eancia de matar a fome de mais de 30 milh\u00f5es de brasileiros e dar comida a todos tr\u00eas vezes por dia, mas esse Estado de assistencialismo indefinido est\u00e1 a travar o desenvolvimento de uma sociedade mais igualit\u00e1ria onde todos tenham seu sustento com o trabalho do seu suor. 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