{"id":7632,"date":"2022-11-25T23:16:01","date_gmt":"2022-11-26T02:16:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7632"},"modified":"2022-11-25T23:19:56","modified_gmt":"2022-11-26T02:19:56","slug":"a-marcha-dos-abandonados-a-eugenia-e-a-queima-de-registros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/11\/25\/a-marcha-dos-abandonados-a-eugenia-e-a-queima-de-registros\/","title":{"rendered":"A MARCHA DOS ABANDONADOS, A EUGENIA E A QUEIMA DE REGISTROS"},"content":{"rendered":"<p>Numa esp\u00e9cie de \u00eaxodo, foram cenas de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Assim descreve o jornalista e escritor Laurentino Gomes na obra final da sua trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, no cap\u00edtulo \u201cO Dia Seguinte\u201d, ao se referir \u00e0 Lei \u00c1urea da Aboli\u00e7\u00e3o de 13 de maio de 1888.<\/p>\n<p>Essa debandada das fazendas de caf\u00e9 do Vale do Para\u00edba (SP) e da zona da mata de Minas Gerais foi seguida da tentativa do esquecimento por parte das autoridades de que houve um regime escravista no Brasil, t\u00e3o cruel como em outros pa\u00edses. Na \u00e9poca centenas de documentos foram queimados por ordem do baiano Rui Barbosa.<\/p>\n<p>\u201cMilhares de homens, mulheres e crian\u00e7as se puseram em marcha, sem destino algum\u201d. Simplesmente vagavam pelas estradas, pelo menos gozando da liberdade do ir e vir. N\u00e3o demorou para serem tratados como vadios, vagabundos e malfeitores pregui\u00e7osos, surgindo da\u00ed a Lei da Vadiagem, com pena de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAlguns acampavam ao redor de vendas e tabernas, onde passavam as noites dan\u00e7ando e cantando em celebra\u00e7\u00f5es de alegria\u201d. O jornal Novidades, de Vassouras, registrou que eles perambulavam em grupos.<\/p>\n<p>Do outro lado, os cafeicultores, nos anos seguintes, entraram em p\u00e2nico e muitos que n\u00e3o se prepararam foram \u00e0 fal\u00eancia. O plantel de escravos valia mais que as terras. Com a desvaloriza\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis, a Aboli\u00e7\u00e3o comprometeu parte dos fazendeiros de contrair cr\u00e9dito banc\u00e1rio. Antas os cativos funcionavam como garantias.<\/p>\n<p>No entanto, conforme citou Laurentino, embora n\u00e3o tenham sido indenizados como queriam, os produtores, inclusive com a Rep\u00fablica, obtiveram generosas linhas de cr\u00e9dito agr\u00edcola. Os cofres p\u00fablicos foram abertos numa tentativa de pacificar os senhores que queriam indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Surgiu um boato que, atrav\u00e9s de um acordo secreto entre governo e senhores, a Lei \u00c1urea havia sofrido uma emenda de que os ex-escravos deveriam servir mais sete anos em regime de escravid\u00e3o, antes do direito \u00e0 liberdade definitiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve isso, mas ningu\u00e9m lhes daria trabalho. Os negros, famintos e esfarrapados, continuaram a esmolar de casa em casa, de fazenda em fazenda em busca de comida e amparo. Outros dirigiram aos centros das cidades e nas periferias criaram as chamadas favelas, existentes at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Muitos estavam morrendo de fome ao longo das estradas, sem local onde abrigar. Ningu\u00e9m os queria e ainda eram perseguidos, assinalou o escritor Coelho Neto, maranhense da cidade de Caxias. Com o passar do tempo, os ex-cativos voltaram \u00e0s fazendas e entraram num acordo com os senhores fazendeiros, morando nas mesmas senzalas de antes, sob as mesmas condi\u00e7\u00f5es, em troca de um minguado sal\u00e1rio. Permaneceram escravos.<\/p>\n<p>Espertos no campo da explora\u00e7\u00e3o, muitos propriet\u00e1rios abriram suas pr\u00f3prias vendas e lojas dentro de suas terras para fornecer alimentos, roupas e outras mercadorias aos libertos. Vendiam fiado e a cr\u00e9dito a pre\u00e7os extorsivos, de modo que o trabalhador ficasse endividado e impossibilitado de deixar a fazenda antes de quitar o d\u00e9bito.<\/p>\n<p>Diz Laurentino que as antigas senzalas passaram a se chamar de dormit\u00f3rios de empregados. Na ala feminina, as tarimbas de madeira ganharam o nome de quartos de empregadas. Os alojamentos dos libertos eram descritos como casa coberta de telhas. Os feitores e capatazes cru\u00e9is foram ser apontadores. No lugar do chicote, espingardas e rev\u00f3lveres. Nas cidades, a casa-grande se tornou mans\u00e3o, e a senzala em favela.<\/p>\n<p>Em Salvador, os comerciantes ficaram incomodados com as festas que os negros promoviam e pediam providencias para cria\u00e7\u00e3o da Lei da Vadiagem. Queriam que os negros voltassem logo ao trabalho. Em 1890, Alberto Brand\u00e3o, diretor do Tesouro do Estado da Bahia, preparou um relat\u00f3rio ao governo do Rio de Janeiro onde exigia que um artigo do C\u00f3digo Penal fosse aplicado para for\u00e7ar os libertos a retornar \u00e0s fazendas.<\/p>\n<p>O baiano abolicionista C\u00e9sar Zama, entretanto, defendia que os ex-escravos tinham o direito de exigir instru\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o para que pudessem representar o papel de cidad\u00e3os \u00fateis \u00e0 p\u00e1tria. \u201cQuem se encarrega de quebra as cadeias da escravid\u00e3o tem tamb\u00e9m o dever de quebrar as da ignor\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>A EUGENIA E A QUEIMA DE REGISTROS<\/p>\n<p>De acordo com Laurentino, o per\u00edodo da Aboli\u00e7\u00e3o coincidiu com o nascimento de uma pretensa nova ci\u00eancia, a eugenia, que estaria na raiz do exterm\u00ednio dos judeus, ciganos e outras popula\u00e7\u00f5es consideradas indesej\u00e1veis na Alemanha nazista.<\/p>\n<p>No Brasil, dentre os expoentes dessa ci\u00eancia, podemos apontar Henrique Roxo, m\u00e9dico do Hospital Nacional, que afirmou em 1904, no II Congresso M\u00e9dico Latino-Americano, que os negros e pardos eram tipos que n\u00e3o evolu\u00edram e ficaram retardat\u00e1rios na hist\u00f3ria humana.<\/p>\n<p>Em 1911 tivemos Jo\u00e3o Batista de Lacerda, diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que defendia ideias semelhantes. Ele afirmava que dentro em breve a heran\u00e7a africana desapareceria do sangue brasileiro dando lugar a um Brasil branco e civilizado.<\/p>\n<p>Em 1929 o antrop\u00f3logo Roquette Pinto chegou a prever em que ano exatamente o Brasil deixaria de ser negro. Em 2012, segundo ele, a popula\u00e7\u00e3o seria composta por 80% de brancos e 20% de mesti\u00e7os. N\u00e3o haveria negro e \u00edndio.<\/p>\n<p>Quanto ao esquecimento, o pr\u00f3prio hino da Rep\u00fablica, em janeiro de 1890, proclamava em sua letra: \u201cN\u00f3s nem cremos que escravos outrora\/Tenha havido em t\u00e3o nobre pa\u00eds!\u201d<\/p>\n<p>Como assinalou Laurentino no final do terceiro livro, caberia ao baiano Rui Barbosa, como ministro da Fazenda, ordenar em dezembro de 1890, a queima de todos registros sobre a escravid\u00e3o existentes em arquivos nacionais.<\/p>\n<p>Sobre essa medida h\u00e1 quem diga que foi visando apagar a escravid\u00e3o no Brasil. Para outros teve o sentido de evitar que os senhores da terra entrassem na justi\u00e7a para reivindicar as pretendidas indeniza\u00e7\u00f5es por conta da Aboli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio, que deixou o cargo em 1891, justificou que a iniciativa foi um ato humanit\u00e1rio em benef\u00edcio dos ex-escravos. Era necess\u00e1rio apagar e esquecer o \u201cpassado negro\u201d do Brasil.<\/p>\n<p>Conta o autor da trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d que em 13 de maio de 1893 v\u00e1rias autoridades e cidad\u00e3os de todas as classes sociais reuniram-se no Campo da P\u00f3lvora, em Salvador, e receberam dois carro\u00e7\u00f5es com pap\u00e9is que foram destru\u00eddos numa fogueira por v\u00e1rias horas.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isso, muitos documentos sobreviveram \u00e0 ordem de Rui Barbosa, os quais servem para comprovar que o escravismo brasileiro foi t\u00e3o brutal e cruel quanto em qualquer outra parte do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa esp\u00e9cie de \u00eaxodo, foram cenas de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Assim descreve o jornalista e escritor Laurentino Gomes na obra final da sua trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, no cap\u00edtulo \u201cO Dia Seguinte\u201d, ao se referir \u00e0 Lei \u00c1urea da Aboli\u00e7\u00e3o de 13 de maio de 1888. 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