{"id":7577,"date":"2022-11-11T23:18:27","date_gmt":"2022-11-12T02:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7577"},"modified":"2022-11-11T23:18:48","modified_gmt":"2022-11-12T02:18:48","slug":"o-processo-do-branqueamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/11\/11\/o-processo-do-branqueamento\/","title":{"rendered":"O PROCESSO DO BRANQUEAMENTO"},"content":{"rendered":"<p>Na onda da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, os senhores fazendeiros e latifundi\u00e1rios come\u00e7aram em pensar na substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra escrava africana pelos imigrantes europeus j\u00e1 com a ideia introduzida por alguns intelectuais sobre o processo de branqueamento do povo brasileiro. A primeira leva come\u00e7ou logo por volta de 1846 com a chegada de prussianos e da regi\u00e3o da Bav\u00e1ria.<\/p>\n<p>Centenas come\u00e7aram a chegar aos portos brasileiros que antes recebiam os cativos vindos da \u00c1frica. Os colonos recebiam diversos incentivos, como passagem entre a Europa e o Brasil, hospedagem durante os oito primeiros dias ap\u00f3s o desembarque e transporte terrestre para toda fam\u00edlia, tudo por conta do Tesouro Nacional. Cada adulto receberia uma subven\u00e7\u00e3o pessoal de 150 mil r\u00e9is. As crian\u00e7as teriam direito \u00e0 metade.<\/p>\n<p>De acordo com Laurentino Gomes, autor da trilogia \u201cEscravid\u00e3o, a importa\u00e7\u00e3o de colonos estrangeiros era um projeto antigo, ainda da \u00e9poca da corte de D. Jo\u00e3o VI, em que foram criados pequenos n\u00facleos com alem\u00e3es e su\u00ed\u00e7os, mas o plano foi adiado devido a abund\u00e2ncia de m\u00e3o-de-obra cativa.<\/p>\n<p>O programa foi retomado com a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro, em 1850, atrav\u00e9s da Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s. A partir dali os pre\u00e7os dos escravos come\u00e7aram a disparar, mesmo com a comercializa\u00e7\u00e3o entre as prov\u00edncias, despencando ap\u00f3s a Lei \u00c1urea de 1888.<\/p>\n<p>Segundo Laurentino, entre 1886 e 1900, com o est\u00edmulo \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o, o Brasil receberia cerca de 1,3 milh\u00e3o de europeus, 60% dos quais eram italianos. Isso era quase o dobro de toda popula\u00e7\u00e3o escrava existente no pa\u00eds no ano da Aboli\u00e7\u00e3o. O projeto era uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios abolicionistas Joaquim Nabuco e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as defendiam a cria\u00e7\u00e3o de um imposto territorial como forma de acabar com o latif\u00fandio improdutivo, democratizar a propriedade da terra e atrair imigrantes de outros pa\u00edses. Andr\u00e9 Rebou\u00e7as, inclusive, defendia a reforma agr\u00e1ria, coisa que provocou a ira dos fazendeiros at\u00e9 com movimentos de revolta.<\/p>\n<p>Nabuco acreditava que a redu\u00e7\u00e3o do latif\u00fandio estava ligada ao fim da escravid\u00e3o como forma de acelerar o desenvolvimento do pa\u00eds. Dizia que era preciso destruir a obra da escravid\u00e3o. O manifesto da Confedera\u00e7\u00e3o Abolicionista, fundada em 1883, no Rio de Janeiro, acusava os grandes latifundi\u00e1rios e o sistema escravista de levar o pa\u00eds \u00e0 ru\u00edna ao inviabilizar todo incentivo ao trabalho livre.<\/p>\n<p>\u201cO h\u00e1bito de distribuir sesmarias era praticado pela Coroa Portuguesa ao longo de todo per\u00edodo colonial, mas o sistema foi sendo desvirtuado ap\u00f3s a Independ\u00eancia do Brasil pelas rela\u00e7\u00f5es de promiscuidade entre o governo imperial e sua base de apoio agr\u00e1ria\u201d- destacou Laurentino. Havia um limite para a \u00e1rea de terra a ser doada de at\u00e9 12 mil hectares. Depois da independ\u00eancia passou a valer a lei do mais forte, chegando a mais de 200 mil hectares.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, a Lei de Terras Brasileira ergueu barreiras \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o dela tanto por parte de negros libertos como de imigrantes pobres que chegavam da Europa. No entanto, havia exce\u00e7\u00f5es, como no caso dos confederados norte-americanos.<\/p>\n<p>A lei dos EUA, em 1862, atraiu mais de 5 milh\u00f5es de imigrantes. Na mesma \u00e9poca, no Brasil, o n\u00famero n\u00e3o passava de 50 mil. A lei de 1850, conforme descreve Laurentino, foi respons\u00e1vel por boa parte do legado de desigualdades e concentra\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios que marcariam o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da imigra\u00e7\u00e3o, a primeira tentativa partiu do senador Nicolau dos Campos Vergueiro, um traficante clandestino de escravos africanos. No come\u00e7o do s\u00e9culo XIX, Vergueiro conseguiu da Coroa vastas po\u00e7\u00f5es de terras na regi\u00e3o de Piracicaba, Limeira e Rio Claro.<\/p>\n<p>Em 1846 ele iniciou o assentamento de imigrantes na fazenda Ibicaba pelo sistema de parceria. Os colonos assinavam um contrato pelo qual o fazendeiro pagava as passagens, transporte e alimenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o local de trabalho. Em troca, o colono assumia o compromisso de cultivar as lavouras at\u00e9 ressarcir o propriet\u00e1rio, com 6% de juros por ano. As primeiras fam\u00edlias vieram da Bav\u00e1ria e da Pr\u00fassia. Vergueiro colocava o colono na situa\u00e7\u00e3o de escravo branco.<\/p>\n<p>O tratamento dispensado pelos feitores era semelhante ao vigente nas antigas senzalas. Como resultado, houve uma revolta de estrangeiros na fazenda Ibicaba, em 1857. As den\u00fancias de maus tratos levaram alguns pa\u00edses, como a Pr\u00fassia, a proibir a vinda de imigrantes para o Brasil.<\/p>\n<p>A TEORIA DO BRANQUEAMENTO<\/p>\n<p>Al\u00e9m de substituir a m\u00e3o-de-obra cativa, Laurentino assinala que a chegada dos colonos cumpria a tarefa de realizar um dos projetos mais acalentados pela elite brasileira escravocrata no s\u00e9culo XIX, o de branqueamento da popula\u00e7\u00e3o, sob a influ\u00eancia das teorias raciais onde se dizia que o negro era inferior e que deveria ser devolvido para a \u00c1frica.<\/p>\n<p>Um dos maiores defensores dessa teoria foi o juiz, deputado e cr\u00edtico liter\u00e1rio S\u00edlvio Romero, desde 1881. \u201c A vit\u00f3ria na luta pela vida, entre n\u00f3s, pertencer\u00e1 no povir ao branco\u201d Ele defendia a extin\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de africanos e o desaparecimento dos \u00edndios, e de outro, a imigra\u00e7\u00e3o europeia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, o m\u00e9dico Domingos Jos\u00e9 Nogueira afirmava ser preciso aperfei\u00e7oar a ra\u00e7a no cruzamento do africano com o mulato e este com o branco. O deputado alagoano Aureliano C\u00e2ndido ia mais longe quando enfatizava que um Brasil s\u00f3 habitado por brancos teria sua riqueza triplicada.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico franc\u00eas Louis Couty foi um dos principais te\u00f3ricos da inferioridade racial do negro. Era mis\u00f3gino e racista at\u00e9m a raiz. Couty via a mulher negra somente como objeto sexual que qualquer um poderia possuir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na onda da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, os senhores fazendeiros e latifundi\u00e1rios come\u00e7aram em pensar na substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra escrava africana pelos imigrantes europeus j\u00e1 com a ideia introduzida por alguns intelectuais sobre o processo de branqueamento do povo brasileiro. 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