{"id":7536,"date":"2022-11-04T22:44:54","date_gmt":"2022-11-05T01:44:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7536"},"modified":"2022-11-04T22:45:20","modified_gmt":"2022-11-05T01:45:20","slug":"os-confederados-e-a-amazonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/11\/04\/os-confederados-e-a-amazonas\/","title":{"rendered":"OS CONFEDERADOS E A AMAZONAS"},"content":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses sempre olharam a Amazonas como pulm\u00e3o da terra para evitar a emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico na atmosfera e contribuir para redu\u00e7\u00e3o do aquecimento global. No entanto, poucos sabem que sempre existiu outro olhar, especialmente dos norte-americanos, no sentido de colonizar a regi\u00e3o e anex\u00e1-la aos Estados Unidos, tornando um territ\u00f3rio de negros escravizados e libertos.<\/p>\n<p>Este outro lado apareceu l\u00e1 pela metade do s\u00e9culo XIX, principalmente a partir de 1865 no final da Guerra da Secess\u00e3o dos Estados Unidos (in\u00edcio de 1861) quando os Estados Confederados perderam para as tropas da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia era se livrar dos negros de modo que a na\u00e7\u00e3o ficasse livre dos africanos para assegurar o dom\u00ednio por pessoas de ascend\u00eancia europeia. Antes da guerra, at\u00e9 o Lincoln era um dos simpatizantes dessa ideia. Os negros libertos deveriam ser exportados para outras fronteiras. A aus\u00eancia seria uma ben\u00e7\u00e3o para os EUA que se livrariam de uma maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um eloquente defensor do plano foi Matthew Fontaine Maury. Em 1850, antes da guerra, Maury tra\u00e7ou um plano de ocupa\u00e7\u00e3o da Amazonas por colonos norte-americanos, acompanhados de seus escravos. Seria o primeiro passo para sua anexa\u00e7\u00e3o definitiva ao territ\u00f3rio dos EUA. O documento definia os brasileiros como povo \u201cimbecil e indolente\u201d. Seu pensamento n\u00e3o era isolado. Existia um plano para Brasil e Estados Unidos se aliarem para fazer frente \u00e0 Inglaterra abolicionista.<\/p>\n<p>Os representantes do Sul queriam criar um pa\u00eds independente, separado da Uni\u00e3o. Na guerra morreram 620 mil soldados, sendo 260 mil dos Confederados e 360 mil da Uni\u00e3o. O total de v\u00edtimas foi de 750 mil. Os escravos do Norte, mais industrializado, aderiram ao abolicionismo. O Sul, (Vale do Mississipi, Louisiana, Nebraska, Kansas) mais agr\u00edcola, era escravista at\u00e9 a medula.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Abraham Lincoln (defendia a deporta\u00e7\u00e3o dos negros) serviu de pretexto para a cria\u00e7\u00e3o da Confedera\u00e7\u00e3o. Muitos optaram pelo Alasca, comprado dos russos por 7,2 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O Brasil aparecia como outro destino n\u00e3o tocado pelos abolicionistas, e o Imp\u00e9rio foi, entre todos governos da Am\u00e9rica Latina, o que mais deu apoio ao Sul Escravista dos EUA. \u201cEra como se o Brasil fosse apenas mais um dos Estados Confederados da Am\u00e9rica\u201d, observou o historiador Gerald Horne.<\/p>\n<p>Muitos sulistas disseminaram a ideologia de se fazer uma limpeza racial, o chamado \u201cbranqueamento\u201d jogando os cerca de quatro milh\u00f5es de negros para o Amazonas onde ali se formaria um pa\u00eds, como aconteceu na Lib\u00e9ria e no Siri Lanka. A inten\u00e7\u00e3o era tomar a Amaz\u00f4nia, mesmo na base das armas.<\/p>\n<p>A trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, narra essa passagem em sua obra onde os derrotados Confederados tentaram concretizar esse projeto, mas n\u00e3o deu certo, sobretudo por causa das adversidades do local. Muitos terminaram morrendo de mal\u00e1ria e outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Nesse trajeto de se mudarem para o Brasil, outros criaram, com total apoio e ajuda de D. Pedro II, as col\u00f4nias de Santa B\u00e1rbara do Oeste e Americana, tudo com o dinheiro do Tesouro Nacional e terras de gra\u00e7a, enquanto os negros nem foram indenizados pelos 350 anos de cativeiro e sofrimento.<\/p>\n<p>Laurentino descreve que, em novembro de 1865, \u00faltimo ano da Guerra da Secess\u00e3o, um texto com o t\u00edtulo \u201cEmigra\u00e7\u00e3o para o Brasil\u201d chamava a aten\u00e7\u00e3o dos leitores do jornal Enquirer, de Columbus, na Ge\u00f3rgia. Era uma convoca\u00e7\u00e3o aos agricultores Confederados que tinham perdido tudo no conflito civil.<\/p>\n<p>O primeiro destino seria Bel\u00e9m, no Par\u00e1, e de l\u00e1 para um local na floresta Amaz\u00f4nica, como o nome de \u201cCol\u00f4nia Pioneira do Major Warren Hastings\u201d. Um livro seu guiava a marcha para o oeste em que milhares de pessoas cruzaram as montanhas rumo a Oregon e \u00e0 Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Durante a guerra civil, seus olhos se voltaram para a Amaz\u00f4nia Brasileira, grande fronteira do continente a ser ocupada pelos norte-americanos. Para observar a regi\u00e3o, ele fez quatro expedi\u00e7\u00f5es. Manteve contatos com o governo do Par\u00e1 e com o Imp\u00e9rio. Na travessia, muitos morreram de doen\u00e7as e naufr\u00e1gio.<\/p>\n<p>Na quarta tentativa, um grupo de 109 colonizadores consegui chegar a Santar\u00e9m, no final de 1867, a bordo do navio Inca, mas Hastings morreu de febre amarela no meio da jornada, sem ver seu sonho realizado, ou a terra prometida. O governo do Par\u00e1 prometeu dar abrigo e alimenta\u00e7\u00e3o por seis meses (desembolsou 13 mil d\u00f3lares) e vender seis l\u00e9guas quadradas de terras nas margens do rio Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de 1868 a col\u00f4nia j\u00e1 contava com cerca de duzentas pessoas sob o comando do coronel Miguel Ant\u00f4nio Pinto Guimar\u00e3es. Hastings queria total autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao governo brasileiro, mas as autoridades imperiais n\u00e3o aceitaram, se bem que fizeram outras concess\u00f5es. A col\u00f4nia teve vida curta.<\/p>\n<p>De acordo com Laurentino, entre 1865 e 67, os norte-americanos instalaram seis col\u00f4nias agr\u00edcolas no Brasil, como em Linhares, no Esp\u00edrito Santo, Paranagu\u00e1, no Paran\u00e1, Juqui\u00e1 e Ney Texas, divisa de S\u00e3o Paulo com o Paran\u00e1, Santa B\u00e1rbara do Oeste e Americana (S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>Nas celebra\u00e7\u00f5es de seus eventos eles hasteavam a bandeira dos Confederados, usando os mesmos s\u00edmbolos que acompanhavam os soldados em dire\u00e7\u00e3o aos campos de batalhas. Um obelisco emoldurado pela bandeira deles marca a entrada do cemit\u00e9rio, criado depois que um funcion\u00e1rio do munic\u00edpio de Santa B\u00e1rbara recusou sepultar os imigrantes presbiterianos no local reservado aos cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>Em 1972, Santa B\u00e1rbara recebeu a visita de dois ilustres, o ent\u00e3o governador da Ge\u00f3rgia e futuro presidente dos EUA, Jimmy Carter e sua esposa, que foram l\u00e1 homenagear a mem\u00f3ria dos confederados. \u00a0At\u00e9 hoje, como descendentes dos Confederados temos a cantora Rita Lee Jones, a ministra aposentada do STF, Ellen Gracie e o falecido engenheiro fundador da Engesa, Jos\u00e9 Luiz Ribeiro.<\/p>\n<p>O autor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d conta o caso curioso de Steve Watson, um escravo alforriado do ap\u00f3s guerra que acompanhou seus antigos donos na mudan\u00e7a para o Brasil. Ele e seu propriet\u00e1rio se instalaram na col\u00f4nia New Texas, entre Paran\u00e1 e S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Pelos contratos, o governo venderia terras em qualquer uma de suas col\u00f4nias, nas localidades que os imigrantes preferissem.\u00a0 As escrituras eram lavradas de imediato. Os que comprassem terras teriam direito \u00e0 cidadania ap\u00f3s dois anos de resid\u00eancia, ou at\u00e9 antes disso, sendo naturalizados brasileiros, com todas regalias, inclusive de n\u00e3o participarem da Guerra do Paraguai.<\/p>\n<p>Pela ideologia do \u201cbranqueamento\u201d, \u201co Brasil oferecia aos imigrantes todos direitos, garantias e privil\u00e9gios que sempre foram negados a milh\u00f5es de outras pessoas residentes no territ\u00f3rio nacional, incluindo ind\u00edgenas e os escravos\u201d \u2013 destacou o autor de \u201cEscravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Junto com as novas t\u00e9cnicas de cultivo agr\u00edcola, os Confederados trouxeram dos Estados Unidos as pr\u00e1ticas cru\u00e9is no tratamento de escravos, tanto que em 1873 um cativo, por ser t\u00e3o castigado, matou a enxadadas o imigrante coronel Oliver. Os vizinhos lincharam o negro e o penduraram no galho de uma \u00e1rvore. Era a chamada Lei de Lynch (linchamento).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses sempre olharam a Amazonas como pulm\u00e3o da terra para evitar a emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico na atmosfera e contribuir para redu\u00e7\u00e3o do aquecimento global. 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