{"id":7511,"date":"2022-10-29T01:27:36","date_gmt":"2022-10-29T04:27:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7511"},"modified":"2022-10-29T01:27:58","modified_gmt":"2022-10-29T04:27:58","slug":"a-marcha-dos-abolicionistas-e-a-reacao-dos-africanos-ao-cativeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/10\/29\/a-marcha-dos-abolicionistas-e-a-reacao-dos-africanos-ao-cativeiro\/","title":{"rendered":"A MARCHA DOS ABOLICIONISTAS E A REA\u00c7\u00c3O DOS AFRICANOS AO CATIVEIRO"},"content":{"rendered":"<p>Em nossos outros coment\u00e1rios anteriores falamos aqui sobre a intensifica\u00e7\u00e3o dos movimentos abolicionistas logo ap\u00f3s a Guerra do Paraguai, em 1870, mas as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a surgir nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, influenciadas pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravos africanos no final do s\u00e9culo XVIII pela Inglaterra.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabe, a primeira prov\u00edncia a decretar a aboli\u00e7\u00e3o foi o Cear\u00e1, em 1884, governado pelo baiano S\u00e1tiro de Oliveira Dias, seguido do Amazonas. O primeiro munic\u00edpio, ou distrito, foi o de Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte.<\/p>\n<p>\u00c9 bom que se esclare\u00e7a que naquela \u00e9poca era reduzido o contingente de escravos por causa das secas e da decad\u00eancia da cana-de-a\u00e7\u00facar e dos engenhos. Havia ainda o tr\u00e1fico interprovincial do Norte e Nordeste para o Sul, principalmente para o Vale do Para\u00edba, em S\u00e3o Paulo, e a zona da mata, em Minas Gerais.<\/p>\n<p>No Reino Unido tudo teve in\u00edcio com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o movimento de uma corrente protestante em defesa da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura. Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, a Inglaterra j\u00e1 pressionava os pa\u00edses escravistas, como Portugal e o Brasil que em 1831assinou uma lei para acabar com o tr\u00e1fico negreiro africano, mas foi s\u00f3 para \u201cingl\u00eas ver\u201d.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos ficaram irritados com as trapa\u00e7as dos fazendeiros e bar\u00f5es brasileiros e resolveram fechar o cerco, inclusive com amea\u00e7as de guerra. Sem sa\u00edda, o Brasil aprovou a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, de 1850, que poria fim de vez ao tr\u00e1fico, se bem que muitos ainda se aventuravam a fazer o com\u00e9rcio clandestino.<\/p>\n<p>Os gritos de aboli\u00e7\u00e3o vieram mesmo ap\u00f3s 1870 culminando com a Lei do Ventre Livre, em 1871, e dos sexagen\u00e1rios, no 28 de setembro de 1885. Nessa \u00e9poca, j\u00e1 era bem menor o n\u00famero de escravos n\u00e3o alforriados. Todos esses relatos podem ser lidos na trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d, do escritor Laurentino Gomes que destaca os quatro principais abolicionistas.<\/p>\n<p>Todos eles, em sua \u00f3tica, passaram por momentos de convers\u00e3o \u00e0 causa abolicionista, com rituais de sofrimento e dor, como o baiano advogado r\u00e1bula Luiz Gama, o pernambucano, tamb\u00e9m advogado graduado Joaquim Nabuco, o farmac\u00eautico carioca Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e o baiano engenheiro Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. Em comum, todos foram jornalistas.<\/p>\n<p>O baiano Luiz Gama se diferencia dos outros por causa de suas origens sociais, por ter sido vendido escravo pelo pr\u00f3prio pai e o \u00fanico a amargar o cativeiro por oito anos. Depois fugiu, estudou e se tornou advogado defensor dos escravos, tendo libertado cerca de quinhentos das m\u00e3os dos senhores fazendeiros, em S\u00e3o Paulo. Afirma Laurentino que Gama foi o primeiro a perceber o quanto a pele negra funcionava como um estigma, \u201cum defeito de cor\u201d, nas palavras do pr\u00f3prio abolicionista.<\/p>\n<p>Joaquim Nabuco era o mais moderado e comportado, frequentador dos sal\u00f5es imperiais e n\u00e3o concordava com a\u00e7\u00f5es radicais. Entendia que a aboli\u00e7\u00e3o era coisa para os pol\u00edticos e que os negros n\u00e3o deveriam ser meter nisso. Nasceu em Recife, em 1849, filho de um dos mais importantes pol\u00edticos do imp\u00e9rio, o senador Jos\u00e9 Thomaz Nabuco de Ara\u00fajo. Foi amamentado por uma mulher negra e viveu boa parte com sua madrinha em Pernambuco, no decadente engenho Massangana.<\/p>\n<p>A realidade do chicote e dos grilh\u00f5es, de acordo com Laurentino, entraria em sua vida devido a um epis\u00f3dio. Certo dia o menino Nabuco foi surpreendido com a chegada de um jovem fugitivo que se ajoelhou em seus p\u00e9s e suplicou que fosse comprado pela sua madrinha, pois vivia a ser castigado pelo seu senhor. A partir dali passou a defender os oprimidos.<\/p>\n<p>Com a morte da madrinha, Nabuco foi morar com os pais no Rio de Janeiro onde estudou no Col\u00e9gio D. Pedro II e teve como colega Rodrigues Alves, futuro presidente da Rep\u00fablica. Em S\u00e3o Paulo foi estudante de direito da Faculdade do Largo S\u00e3o Francisco, com Castro Alves, Rui Barbosa e Afonso Pena, este tamb\u00e9m futuro presidente do Brasil.<\/p>\n<p>Viajou por v\u00e1rios pa\u00edses como Estados Unidos e da Europa (morou em Londres) onde manteve contatos com os movimentos abolicionistas. Na juventude foi um d\u00e2ndi \u2013 estilo de vida celebrizado por intelectuais, como Oscar Wilde e Marcel Proust. Foi correspondente de um jornal carioca em Londres.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de abolicionista, Nabuco foi um grande reformador que introduziu mudan\u00e7as no Imp\u00e9rio visando a reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Ele prop\u00f4s a reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira, a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a igualdade religiosa, a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e at\u00e9 a reforma agr\u00e1ria. \u201cA grande quest\u00e3o da democracia brasileira n\u00e3o \u00e9 a monarquia, \u00e9 a escravid\u00e3o \u2013 dizia Nabuco.<\/p>\n<p>Para ele, os escravos deveriam ser incorporados \u00e0 sociedade como cidad\u00e3os de direito. Em sua vis\u00e3o, o regime escravo criou um ideal de p\u00e1tria grosseira, mercen\u00e1rio, ego\u00edsta e retr\u00f3grado, e nesse molde fundiu durante s\u00e9culos as tr\u00eas ra\u00e7as heterog\u00eaneas. \u201cA escravid\u00e3o n\u00e3o consentiu que nos organiz\u00e1ssemos e sem povo as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam ra\u00edzes, a opini\u00e3o n\u00e3o tem apoio, a sociedade n\u00e3o tem alicerce\u201d.<\/p>\n<p>Predominava nele o tom caridoso, de compaix\u00e3o do branco pelo negro. Com a aboli\u00e7\u00e3o, os brancos tamb\u00e9m ganhariam. Para Nabuco, o sistema escravista punha em risco a pr\u00f3pria nacionalidade, desprestigiando o Brasil perante a comunidade das na\u00e7\u00f5es, gerando um permanente clima de instabilidade pol\u00edtica. Foi o primeiro embaixador brasileiro na Embaixada dos Estados Unidos, em 1905, e faleceu em Washington, em 1910.<\/p>\n<p>Diferente de Nabuco, um branco conhecido como \u201cQuincas, o belo\u201d, Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio n\u00e3o era negro retinto, mas um sarar\u00e1. Dizia que tinha a cor do \u201ctijolo queimado\u201d. Era negro o suficiente para ser alvo de ataques e inj\u00farias raciais nas ruas, nos com\u00edcios e em artigos na imprensa. Era um vulc\u00e3o de paix\u00f5es. Dado a ataques violentos de c\u00f3lera que lhe valeram in\u00fameros inimigos.\u00a0 Olavo Bilac o comparou a um profeta dentro de uma tempestade de raios.<\/p>\n<p>Em 1878 foi preso por andar nas ruas portando uma navalha, pronto para a briga\u201d. Bo\u00eamio e espalhafatoso, gostava de passar a noite cercado de artistas e negros capoeiristas. Nasceu em 1853 em S\u00e3o Salvador dos Campos dos Goitacazes \u2013 Rio de Janeiro. Era filho do vig\u00e1rio Jo\u00e3o Carlos Monteiro com uma escrava adolescente Justina Maria do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Fazendeiro, seu pai era dono de fazendas e de um grande plantel de escravos, vereador e deputado provincial. Mesmo n\u00e3o sendo reconhecido como filho do padre, os moradores tinham respeito por ele. Era um garoto arrogante e mimado que mandava e desmandava na cidade.<\/p>\n<p>Sua convers\u00e3o se deu ap\u00f3s agredir na cabe\u00e7a com um chicote um senhor escravo idoso por este ter demorado de abrir uma cancela, conforme testemunhou seu amigo Luis Carlos de Lacerda (abolicionista). Sabendo do acontecido, seu pai o repreendeu de forma severa. Aos quatorze anos foi para o Rio de Janeiro onde trabalhou com servente aprendiz na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia. Depois conseguiu concluir o curso de farm\u00e1cia. Virou professor e jornalista.<\/p>\n<p>Com ajuda do sogro, comprou seu pr\u00f3prio jornal o Cidade do Rio, por cuja reda\u00e7\u00e3o passaram Olavo Bilac e Andr\u00e9 Rebou\u00e7as. Ele foi um jornalista agressivo e pol\u00eamico. Em 1875 j\u00e1 trabalhava na Gazeta de Not\u00edcias. Em 1880, com Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e Nabuco fundaram a Sociedade Brasileira contra a Escravid\u00e3o.\u00a0 O objetivo principal de Patroc\u00ednio era alcan\u00e7ar a aboli\u00e7\u00e3o do cativeiro no ano 1889, para comemorar o centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>Tanto quanto o Nabuco, era um monarquista e admirador da princesa Isabel. Foi ovacionado quando foi decretada a Lei \u00c1urea. Como vereador pelo Rio de Janeiro, concedeu a ela o t\u00edtulo de A Redentora. Foi tamb\u00e9m criador da Guarda Negra para proteger o Terceiro Reinado.\u00a0 No governo de Floriano Peixoto foi preso e deportado para um local distante no Amazonas. Morreu em 1905, aos 51 anos, pobre e vivendo de favores.<\/p>\n<p>Baiano de Cachoeira, nascido em 1838, Andr\u00e9 Rebou\u00e7as s\u00f3 foi se dar conta que era um negro tempos depois numa viagem aos Estados Unidos quando foi discriminado. Barrado num hotel, conseguiu um quarto apertado sob as condi\u00e7\u00f5es de fazer as refei\u00e7\u00f5es no apartamento. Tomava banho numa barbearia ao lado do hotel.\u00a0 Antes disso, por\u00e9m, viajou por v\u00e1rios pa\u00edses europeus sem ser importunado.<\/p>\n<p>Rebou\u00e7as era filho do jurista e conselheiro do Imp\u00e9rio Ant\u00f4nio Pereira Rebou\u00e7as. Formou-se aos 22 anos em Engenharia Militar na Escola de Aplica\u00e7\u00e3o da Praia Vermelha. Ele e seu irm\u00e3o completaram os estudos na Europa onde Rebou\u00e7as foi apresentado nas altas rodas. Esteve em Viena e Paris. Depois atravessou o Atl\u00e2ntico e aportou em Nova York onde descobriu que, por ser negro, n\u00e3o teria onde ficar e comer.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos vagou por v\u00e1rios hot\u00e9is e apenas conseguiu uma pousada no Washington Hotel com a ajuda da Embaixada Brasileira. Mesmo na Filad\u00e9lfia, na Pensilv\u00e2nia, foi discriminado. Um dia foi dormir com fome por ter sido vetado nos restaurantes.\u00a0 Como disse a historiadora \u00c2ngela Alonso, pela primeira vez, Rebou\u00e7as deu-se conta de que era tamb\u00e9m rebento do tr\u00e1fico africano.<\/p>\n<p>Laurentino enfatiza que da traum\u00e1tica experi\u00eancia norte-americana nasceria o abolicionista que de forma mais organizada pensaria na realidade e no legado da escravid\u00e3o brasileira. \u201cPrecisamos educar esta na\u00e7\u00e3o para o trabalho, estamos cansados de discursos\u201d \u2013 diria numa carta dirigida ao professor baiano Ab\u00edlio Borges. Em 1879 tentou a carreira pol\u00edtica pelo Paran\u00e1, mas perdeu.<\/p>\n<p>Rebou\u00e7as come\u00e7ou a escrever na Gazeta da Tarde, jornal de Patroc\u00ednio, seu compadre. Em 1880 foi um dos fundadores da Associa\u00e7\u00e3o Central Emancipadora. Em 1883 redigiu com Patroc\u00ednio o manifesto da Confedera\u00e7\u00e3o Abolicionista. Em sua luta pela aboli\u00e7\u00e3o se coligou ao general Henrique Beaurepaire Rohan que participou das guerras pela independ\u00eancia da Bahia e do Piau\u00ed.<\/p>\n<p>Dentre todos os projetos abolicionistas, o de Rebou\u00e7as e do general foi dos mais radicais, conforme observou Laurentino. Rebou\u00e7as sustentava que a liberta\u00e7\u00e3o dos escravos por si s\u00f3, n\u00e3o seria suficiente. Para ele seria necess\u00e1ria uma reforma agr\u00e1ria para acabar com o latif\u00fandio. O ex-escravo deveria se tornar em pequeno produtor. Como se sabe, seu projeto foi rejeitado. Entrou em processo de depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 15 de novembro de 1889 tentou convencer D. Pedro II a resistir ao golpe republicano. Na sua ideia, o imperador deveria permanecer em Petr\u00f3polis e de l\u00e1 seguir para Minas Gerais e tramar uma resist\u00eancia. Como n\u00e3o deu certo, Rebou\u00e7as decidiu seguir os passos do imperador e se exilou na Europa. Em 1891 escreveu uma carta ao seu amigo Jos\u00e9 Carlos Rodrigues, dono do Jornal do Com\u00e9rcio, no Rio de Janeiro, na qual referia a si mesmo como Negro Andr\u00e9.<\/p>\n<p>No ano seguinte foi para \u00c1frica do Sul. \u201cSou, em corpo e alma, meio brasileiro e meio africano, n\u00e3o podendo voltar ao Brasil, parece-me melhor viver e morrer na \u00c1frica\u201d. Em 1898 seu corpo apareceu boiando no mar, ao p\u00e9 de uma rocha em frente \u00e0 casa em que vivia na cidade de Funchal, na Madeira, seu \u00faltimo ref\u00fagio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nossos outros coment\u00e1rios anteriores falamos aqui sobre a intensifica\u00e7\u00e3o dos movimentos abolicionistas logo ap\u00f3s a Guerra do Paraguai, em 1870, mas as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a surgir nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, influenciadas pela liberta\u00e7\u00e3o dos escravos africanos no final do s\u00e9culo XVIII pela Inglaterra. 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