{"id":7451,"date":"2022-10-07T23:13:53","date_gmt":"2022-10-08T02:13:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7451"},"modified":"2022-10-07T23:14:13","modified_gmt":"2022-10-08T02:14:13","slug":"as-rebelioes-e-os-manuais-dos-senhores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/10\/07\/as-rebelioes-e-os-manuais-dos-senhores\/","title":{"rendered":"AS REBELI\u00d5ES E OS MANUAIS DOS SENHORES"},"content":{"rendered":"<p>Entre o final do s\u00e9culo XVIII e as primeiras d\u00e9cadas do XIX, os senhores escravocratas passaram a ter comportamentos mais brandos com seus cativos diante das rebeli\u00f5es e fugas dos negros que pipocavam em v\u00e1rios estados contra a escravid\u00e3o, lembrando sempre o massacre que ocorreu no Haiti, em 1791, quando milhares de brancos foram mortos cruelmente.<\/p>\n<p>Diante dos fatos, os patr\u00f5es come\u00e7aram a formular cartilhas e manuais para tratar os pretos com mais modera\u00e7\u00e3o nos castigos, recomendando mais divertimento, folga do trabalho aos domingos para a pr\u00e1tica da religi\u00e3o, folguedos e at\u00e9 cederam peda\u00e7os de terra para o cultivo, de modo a evitar levantes e preservar seu capital investido. Com a proibi\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico, os negros ficaram mais caros.<\/p>\n<p>Quem narra essas mudan\u00e7as \u00e9 o jornalista e escritor Laurentino Gomes em sua trilogia \u201cEscravid\u00e3o\u201d e cita dois manuais importantes divulgados pelo baiano Miguel Calmon Du Pin e Almeida e Carlos Augusto Taunay que orientavam os fazendeiros de como n\u00e3o perder seus cativos, mas sempre com disciplina, n\u00e3o deixando de castig\u00e1-los quando cometessem \u201cerros\u201d.<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo \u201cMedo, Morte e Repress\u00e3o\u201d ele come\u00e7a a descrever a revolta dos Mal\u00eas, em 1835, na Bahia, que deixou as autoridades apreensivas e refor\u00e7aram as seguran\u00e7as. Na noite em que tudo aconteceu celebrava-se a \u201cNoite do Destino\u201d e o encerramento do Ramad\u00e3 pelos hauss\u00e1s e os nag\u00f4s iorub\u00e1s da Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p>Na noite de 24 de janeiro, os boatos corriam na Cidade Baixa nas proximidades do porto do Mercado Modelo, de que cativos mul\u00e7umanos procedentes de Santo Amaro tinham ali desembarcado para se juntar a um africano de nome Ahuna, l\u00edder envolvido em algum tipo de conspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve vazamento, e uma mulher de nome Guilhermina procurou um vizinho de chamado Andr\u00e9 Pinto da Silveira que comunicou tudo ao juiz de paz Jos\u00e9 Mendes da Costa Coelho. Este foi ao pal\u00e1cio e fez um relato ao presidente da prov\u00edncia, Francisco de Souza Martins. O que se viu em seguida foi uma explos\u00e3o de viol\u00eancia que se desdobrou em brutais confrontos entre for\u00e7as militares e negros escravizados.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte j\u00e1 havia cad\u00e1veres espalhados por diversas ruas, pra\u00e7as e ladeiras da capital. Estima-se em setenta o n\u00famero de mortos. Nessa devassa, mais de quinhentos pessoas foram punidas com penas de morte, pris\u00e3o, deporta\u00e7\u00f5es e a\u00e7oites. A revolta dos mal\u00eas levou p\u00e2nico a outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nas quatro primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX foram mais de trinta na capital, no Rec\u00f4ncavo e outras prov\u00edncias. Metade delas, segundo Laurentino, ocorreu entre 1826 e 1830. Nunca houve uma sequ\u00eancia t\u00e3o grande de fugas e rebeli\u00f5es. Os senhores ficaram assustados.<\/p>\n<p>A primeira delas, liderada pela etnia hauss\u00e1, se deu em 1807. Em 1814 e 1816, os hauss\u00e1s fizeram uma s\u00e9rie de ataques no Rec\u00f4ncavo e em bairros de Salvador. Em 1826, um grupo procedente do \u201cQuilombo Urubu\u201d tentou invadir Salvador aos gritos de \u201cmorra branco e viva o negro\u201d.<\/p>\n<p>Na revolta de 1835, a rebeli\u00e3o foi antecipada por cousa das dela\u00e7\u00f5es, mas ampliou-se em v\u00e1rios lugares, como no centro, nas imedia\u00e7\u00f5es do Campo Grande e Cidade Baixa. Tudo come\u00e7ou na Ladeira da Pra\u00e7a com a pris\u00e3o de l\u00edderes, como Apr\u00edgio e Manuel Calafate. No local, cerca de cinquenta negros enfrentaram os soldados com pistolas e espadas. No confronto inicial morreram um africano e um soldado.<\/p>\n<p>Mesmo \u00e0s pressas, os rebeldes conseguiram arregimentar quinhentos combatentes que passariam as tr\u00eas horas seguintes enfrentando os agentes da lei nas ruas de Salvador. Acuados pela guarda, eles se espalharam entre o Terreiro de Jesus e na Pra\u00e7a Castro Alves. Seguiram depois rumo ao Bairro da Vit\u00f3ria. Houve assaltos no quartel da pol\u00edcia no Largo da Lapa.<\/p>\n<p>A \u00faltima batalha aconteceu no Quartel da Cavalaria (\u00c1gua de Meninos). Cerca de duzentos escravos participaram da luta com porretes, pistolas, espadas e lan\u00e7as. Foram recebidos a bala e muitos terminaram sendo retalhados e baleados, enquanto outros se refugiaram no mato, morros e at\u00e9 se afogando no mar. Na conspira\u00e7\u00e3o ficou evidenciado que o levante teve motiva\u00e7\u00e3o religiosa. A lideran\u00e7a era toda mul\u00e7umana com aspecto de guerra santa, uma jihad.<\/p>\n<p>Laurentino destaca que, na \u00e9poca da Revolta dos Mal\u00eas, entre oito a dez mil africanos escravizados desembarcavam anualmente no Porto de Salvador, a grande maioria do Golfo do Benin (Togo, Benin, Nig\u00e9ria e Camar\u00f5es). A regi\u00e3o se converteu na principal fonte de escravos enviados \u00e0 Bahia durante o s\u00e9culo XVIII em raz\u00e3o da prolongada guerra entre o reino do Daom\u00e9 e seus vizinhos.<\/p>\n<p>Eram designados como pretos minas, devido a proximidade do antigo castelo de S\u00e3o Jorge da Mina, Elmina, em Gana. O censo de 1808, realizado em Salvador e freguesias pr\u00f3ximas, constatou que dos 250 mil habitantes, s\u00f3 pouco mais de 50 mil eram brancos.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo de 1835 reinava ainda um clima de agita\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria da independ\u00eancia brasileira. Na Bahia, negros, mesti\u00e7os, cativos e libertos foram recrutados e participaram de epis\u00f3dios como a Conjura\u00e7\u00e3o Baiana (Revolta dos Alfaiates), de 1798, da Independ\u00eancia da Bahia em 2 de julho de 1823 e da Sabinada, movimento republicano e federativo comandado por Francisco Sabino \u00c1lvares da Rocha Vieira.<\/p>\n<p>Outras revoltas ocorreram durante a Reg\u00eancia entre a abdica\u00e7\u00e3o de D. Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II, em 1840, em Minas Gerais e no Maranh\u00e3o, em 1838, com a Balaiada. Essas rebeli\u00f5es escravas fizeram com que as autoridades adotassem medidas dr\u00e1sticas. Na Bahia, as batidas policiais depois de 1835 resultaram na deten\u00e7\u00e3o de centenas de suspeitos.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es serviram de roteiro para uma s\u00e9rie de manuais e roteiros, muitos deles escritos por grandes fazendeiros, com o objetivo de adequar aos novos tempos o tratamento dedicado aos escravos. Alguns eram chamados de manuais agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>O baiano Miguel Calmon, por exemplo, escreveu \u201cEnsaio sobre o Fabrico de A\u00e7\u00facar\u201d, aconselhando modera\u00e7\u00e3o com os cativos, como fornecer moradia, alimenta\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio mais decentes, libera\u00e7\u00e3o de peda\u00e7os de terra para o trabalho deles, que constitu\u00edssem fam\u00edlias, cuidados com a cria\u00e7\u00e3o dos filhos dos escravos, divertimentos e castigos com prud\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o final do s\u00e9culo XVIII e as primeiras d\u00e9cadas do XIX, os senhores escravocratas passaram a ter comportamentos mais brandos com seus cativos diante das rebeli\u00f5es e fugas dos negros que pipocavam em v\u00e1rios estados contra a escravid\u00e3o, lembrando sempre o massacre que ocorreu no Haiti, em 1791, quando milhares de brancos foram mortos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7451"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7451"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7451\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7451"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7451"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7451"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}