{"id":7404,"date":"2022-09-24T00:20:58","date_gmt":"2022-09-24T03:20:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/?p=7404"},"modified":"2022-09-24T00:21:32","modified_gmt":"2022-09-24T03:21:32","slug":"o-maior-e-o-mais-famoso-traficante-de-escravos-africanos-era-baiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.aestrada.com.br\/v1\/2022\/09\/24\/o-maior-e-o-mais-famoso-traficante-de-escravos-africanos-era-baiano\/","title":{"rendered":"O MAIOR E O MAIS FAMOSO TRAFICANTE DE ESCRAVOS AFRICANOS ERA BAIANO"},"content":{"rendered":"<p>Seu casar\u00e3o de tr\u00eas andares com uma frondosa gameleira (\u00e1rvore sagrada no candombl\u00e9 da Bahia), em Ajud\u00e1, atualmente Rep\u00fablica do Benin (antigo reino de Daom\u00e9) tinha dois canh\u00f5es no p\u00e1tio para revidar qualquer ataque inimigo. Ele era um senhor respeitado em toda regi\u00e3o onde j\u00e1 foi um dos maiores entrepostos de tr\u00e1fico de africanos escravizados para o Brasil.<\/p>\n<p>Em Ajud\u00e1 existia a Fortaleza de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, constru\u00edda pelos portugueses em 1721. Esse com\u00e9rcio de cativos se manteve ativo por quatro s\u00e9culos e ele fez grande fortuna. Era cat\u00f3lico devoto de S\u00e3o Francisco de Assis, mas seu nome em Benin ficou associado a uma divindade local, um vodum chamado Dogoun (drag\u00e3o). Em seu funeral sete pessoas foram sacrificadas em sua honra.<\/p>\n<p>Estou falando de um mulato claro nascido em Salvador (alguns at\u00e9 citaram como se fosse de Portugal) de nome Francisco F\u00e9lix de Souza, o maior e o mais famoso traficante que levava escravos para o Brasil na primeira metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Quem conta toda essa hist\u00f3ria \u00e9 o jornalista e escritor Laurentino Gomes em seu terceiro volume de \u201cEscravid\u00e3o\u201d, ao atestar que ele era amigo e parceiro nos neg\u00f3cios com o rei Guezo, do Daom\u00e9. No local existia um grande aparato de seguran\u00e7a para dar prote\u00e7\u00e3o ao mercado negreiro que funcionava como uma feira livre de vender gente.<\/p>\n<p>Diz Laurentino que, ao longo de meio s\u00e9culo de atividades nesse ramo, Francisco F\u00e9lix teria embarcado mais de meio milh\u00e3o de escravos para o Rec\u00f4ncavo baiano. Ao morrer em 1848 aos 94 anos, deixou 53 vi\u00favas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna hoje calculada em torno de 120 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Francisco foi t\u00e3o importante que ganhou do soberano do Daom\u00e9 o t\u00edtulo de Chach\u00e1, honraria heredit\u00e1ria semelhante a um vice-rei. Seus descendentes formam hoje uma influente dinastia no Golfo de Benin, com ramifica\u00e7\u00f5es na Fran\u00e7a, no Benin, na Nig\u00e9ria, Togo e Costa do Marfim.<\/p>\n<p>De acordo com o escritor, um deles, o general Paul \u00c9mile de Souza foi presidente da Junta que entre 1869 e 1970 governou o Benin quando o pa\u00eds ainda se chamava de Daom\u00e9 e vivia sob uma ditadura militar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, o arcebispo Isidore de Souza presidiu o Alto Conselho da Rep\u00fablica. Autores levantaram a hip\u00f3tese de que Francisco F\u00e9lix teria nascido em Portugal pelo motivo da Coroa Lusitana ter lhe dado uma comenda de Cavalheiro da Ordem de Cristo e o considerou \u201cbenem\u00e9rito patriota\u201d. Houve at\u00e9 quem apontou que ele era natural de Cuba ou do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>No entanto, atrav\u00e9s de pesquisas mais aprofundadas chegou-se \u00e0 conclus\u00e3o que ele era mesmo baiano, inclusive confirmado pelos historiadores Alberto da Costa e Silva e Luis Henrique Dias Tavares, com base numa carta de alforria de uma de suas escravas.<\/p>\n<p>O motivo de ter se mudado para \u00c1frica s\u00e3o obscuros, segundo Laurentino. Um relat\u00f3rio brit\u00e2nico de 1821 o descrevia como um renegado, banido dos Brasis, por ter desertado do ex\u00e9rcito. Acusaram ainda de ter sido falsificador de moedas e se envolvido em conspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Quando Francisco chegou \u00e0 \u00c1frica, a escravid\u00e3o se mantinha como uma das atividades econ\u00f4micas mais importantes e lucrativas do continente. A aboli\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico para os dom\u00ednios brit\u00e2nicos e para os EUA, entre 1807 e 1808, aumentou a escravid\u00e3o dom\u00e9stica na pr\u00f3pria \u00c1frica, conforme relata o autor da trilogia. Nessa \u00e9poca havia mais escravos no continente africano do que nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do trabalho for\u00e7ado, os escravos tamb\u00e9m foram v\u00edtimas de sacrif\u00edcios rituais em algumas ocasi\u00f5es, como no funeral de Opoku Fofie, rei dos achante, a mais poderosa etnia na Costa do Ouro, atual Gana, onde mais de mil teriam sido mortos.<\/p>\n<p>Um dos principais destinos dos escravos dessa regi\u00e3o do Golfo do Benin, ou Costa da Mina (Togo e Nig\u00e9ria), de Angola e do Congo era para a Bahia. A costa da Mina era t\u00e3o importante no tr\u00e1fico de escravos que os primeiros chefes de estado a reconhecer a Independ\u00eancia do Brasil eram dessa regi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seu casar\u00e3o de tr\u00eas andares com uma frondosa gameleira (\u00e1rvore sagrada no candombl\u00e9 da Bahia), em Ajud\u00e1, atualmente Rep\u00fablica do Benin (antigo reino de Daom\u00e9) tinha dois canh\u00f5es no p\u00e1tio para revidar qualquer ataque inimigo. 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